O vereador do Urbanismo, Manuel Salgado, foi criticado, esta terça-feira, por revelar numa entrevista ao “PÚBLICO” uma mudança de postura quanto à urbanização da Colina de Santana sem o ter comunicado aos deputados municipais nas cinco sessões de debates que os eleitos da cidade dedicaram recentemente ao tema.

 

Aí, o vereador diz publicamente pela primeira vez que os Pedidos de Informação Prévia (PIP) apresentados pela empresa Estamo para os terrenos dos hospitais Miguel Bombarda, São José, Santa Marta e Capuchos têm de ser refeitos porque violam a lei em termos de volumetria e cércia dos edifícios projectados, usos do solo, estacionamento e rede viária e pedonal.

 

Salgado já dissera à Assembleia Municipal de Lisboa (AML) ser favorável a um “plano de salvaguarda” para a colina mas foi sempre favorável à grande operação imobiliária e continua a defender que a saída dos hospitais é acertada.  Os PIP, se aprovados, constituem direitos de construção que passam a ser detidos pela empresa que os submeteu à câmara.

 

Terça-feira, a arquitecta Helena Roseta, presidente da AML, mas falando na qualidade de deputada municipal independente, estranhou o volte face do seu colega de profissão ao reconhecer que os PIP não podem ser aprovados como estão. “Foi pena que não o tivesse dito” durante o grande debate temático que organizou, disse.

 

A deputada do movimento Cidadãos por Lisboa informou que pediu, segunda-feira ao executivo camarário que lhe seja dado conhecimento da correspondência trocada entre Salgado e a empresa de promoção imobiliária Estamo sobre a operação da Colina de Santana. “Porque acho que é importante que as coisas sejam ditas com lealdade, com frontalidade”, declarou.

 

Carlos Silva Santos (PCP) disse temer que as relações de Salgado – ausente da sessão – com a Estamo venham a dar origem a mais projectos polémicos. “Que outros negócios ficam escondidos?”, perguntou. “Esperemos que o arquitecto Manuel Salgado se mantenha distante de conversações secretas com a Estamo”, comentou.

 

Outro independente, Fernando Nunes da Silva, lembrou que o vereador “defendeu acerrimamente” os projectos da Estamo no início do debate lançado pela presidente Helena Roseta. Mesmo o CDS se mostrou supreendido com a nova postura de Salgado: “Nunca o vimos a defender o indeferimento destes pedidos   durante os debates….”, referiu o deputado Diogo Moura.

 

A declaração do vereador ocorre depois de a AML ter aprovado uma recomendação onde promete ser vigilante quanto à operação imobiliária e onde se compromete a não ratificar qualquer instrumento de urbanização que viole condicionantes a inscrever num  futuro Plano de Acção Territorial (PAT). Salgado já se disse favorável a este plano e, revela o jornal diário, escreveu à empresa de capitais públicos, convidando-a a cooperar na nova fórmula, coisa a que a Estamo anuiu.

 

Após esta recomendação, disse Roseta, “Manuel Salgado não pode aprovar  nenhum PIP sem passar por esta assembleia”, pois cabe aos deputados da cidade conformar tais pedidos aos objectivos gerais do PAT.

 

Helena Roseta manifestou discordância com aqueles que têm dado como adquirido que os hospitais vão inevitavelmente sair da colina – posição partilhada, entre outros, por António Costa e Victor Gonçalves deputado do PSD. Gonçalves disse que a extinção foi decidida há muitos anos e que é “irreversível”, embora só deva acontecer quando houver hospital substituto.

 

“Não há nada irreversível, só a morte”, respondeu-lhe Roseta, para quem autarca e executivo municipal devem tomar posição em matérias como a futura rede de saúde de Lisboa.

 

Uma tarde de intenso debate

 

Dedicada a declarações políticas, a reunião desta semana da AML estendeu-se por temas muito para lá dos assuntos da cidade. Aliás, a CML esteve escassamente representada. Se os assuntos foram mais genéricos, nem por isso andaram menos acesos. Houve trocas de acusações e pedidos de defesa da honra. Por que razão? O longínquo PEC IV e queda do governo de Sócrates.

 

Quando Miguel Teixeira (PS) se lembrou de acusar o PCP por “se aliar à direita e à esquerda radical [BE]” para derrubar o governo de Sócrates em 2011, o eleito comunista Carlos Silva Santos atirou-lhe um “não seja mentiroso!”. Teixeira considerou o epíteto incorrecto: “Não é essa a forma de estar na política nesta câmara”, respondeu. O Bloco não se ficou e pediu autocrítica aos socialistas: “Se não tivessemos chumbado o PEC IV estaríamos agora no PEC XX!”. Da mesa avisava-se: “Peço que não se excedam!”

 

O PCP disse que votara como votara porque o Programa de Estabilidade e Crescimento de Março de 2011 era “um pacto de agressão”, mas que contava agora com o PS “para derrubarmos esta política e este governo”. E o tom amainou.

 

Por pouco tempo. Quando Rosa Carvalho da Silva (PSD) sugeriu que a Câmara fizesse mais pelo emprego em Lisboa, Silva Santos voltou à carga e chamou-lhe “hipócrita” pois “esta sociedade está a ser desmantelada” pelo governo que ela apoia. Ricardo Robles achou que a recomendação social-democrata aludindo ao fomento do emprego parecia uma mentira de 1 de Abril. O outro apoiante da coligação, o CDS, também não foi esquecido. Hugo Lobo (PS) disse que o partido “tem destruído a Segurança Social e vem p’ráqui às terças pugnar por mais acção social”.

 

Rosa Carvalho da Silva não se descompôs, mas não gostou. “Eu não lhe chamei cínico ou hipócrita. Se eu me considerasse ofendida isto levava outro caminho, pode ter a certeza”, ameaçou, pedindo a Silva Santos “que tenha um pouco mais de contenção no vocabulário” quando falar com ela. Sorridente, finalizou: “Nem tudo o que queremos dizer podemos dizê-lo”. Silva Santos mais não disse.

 

 Texto: Francisco Neves

Comentários
  • Bloco em Lisboa
    Responder

    No ciclo de debates sobre a colina de Santana na AML, Manuel Salgado fez a defesa esfuziante dos projetos para a… http://t.co/zz4vd3VBCZ

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