Renovar a Mouraria quer pôr um dos bairros mais típicos da cidade a compostar e a criar hortas domésticas

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Sofia Cristino

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AMBIENTE

Santa Maria Maior

11 Janeiro, 2019

A associação que revitalizou o bairro da Mouraria, na última década, tem uma nova loja-oficina com todos os materiais necessários para quem quiser fazer hortas urbanas ou jardins domésticos. No espaço onde já funcionou um café-restaurante, cabem ainda loiças biodegradáveis, produtos feitos a partir de materiais reutilizáveis, um espaço de trocas de artigos usados, escovas de dentes de bambu, entre outros produtos amigos do ambiente. A Mouraria Composta é o projecto mais recente da Associação Renovar a Mouraria e que alargará a sua influência para lá da loja. Nos próximos meses, vão estar na rua brigadas recolectoras de resíduos compostáveis. A ideia é que as pessoas que entregam lixo orgânico recebam composto, para com ele fazerem hortas domésticas. E também se realizarão formações gratuitas de agricultura urbana.

Depois de subir dois lances das escadinhas do Beco do Rosendo, um compostor em madeira dá o primeiro sinal de que há novidades na sede da Associação Renovar a Mouraria. O espaço onde já funcionou um bar-restaurante social, encerrado no final de 2018, ganhou uma nova vida, no passado dia 8 de Dezembro. No parapeito da janela, nove pequenos vasos enfileirados, com coentros, hortelã e salsa, aguçam a curiosidade de quem nunca pensou ter uma horta urbana ou jardins domésticos, em Lisboa. Lá dentro, há sementes de ervas aromáticas e de flores, como amores-perfeitos e calêndulas, mas também de legumes e frutos. Se houver dúvidas, há pequenos folhetos informativos, colocados junto aos artigos, a explicarem o processo de plantação. Numa área com meia dúzia de metros quadrados, cabem todos os produtos indispensáveis à compostagem, como húmus, sacos de terra, composto orgânico, estrume de cavalo, entre outros, mas também artigos decorativos feitos a partir de materiais reutilizados, bijuteria e compotas de frutas da época.

A associação que, ao longo dos últimos dez anos, contribuiu para a revitalização do bairro da Mouraria, situado no coração da cidade, conseguiu ver o projecto Mouraria Composta – do qual faz parte a nova loja – aprovado, graças ao programa BIP/ZIP da Câmara Municipal de Lisboa (CML). E propõe-se, agora, a sensibilizar a população para algumas questões ambientais, como a redução da utilização do plástico e de outras formas de desperdício. Além das formações planeadas para a loja-oficina, vai pôr os moradores e comerciantes da zona a entregarem o seu lixo orgânico para compostagem comunitária.

 

A associação criou, por isso, a Brigada dos Baldinhos, que será formada por moradores, visitantes e todos aqueles que queiram participar. A brigada vai distribuir baldes pelas casas, cafés e restaurantes, para receber resíduos orgânicos, que depois serão depositados no compostor localizado na sede da Renovar a Mouraria e num outro, instalado na Cozinha Popular da Mouraria. “A ideia é que as pessoas aderentes à iniciativa possam ter também um benefício proporcional à quantidade de lixo que entreguem. Vamos contabilizar os baldes de resíduos e, em troca, as pessoas recebem composto para fazerem as suas hortas domésticas ou, se não as tiverem, participações gratuitas nas oficinas e formações que vamos realizar”, explica Inês Andrade, presidente da associação.

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O compostor está situado junto à sede da Associação Renovar a Mouraria

A Mouraria, na freguesia de Santa Maria Maior, é um dos bairros de Lisboa com maior diversidade cultural e, consequentemente, os hábitos de higiene urbana dos residentes são muito distintos. A presidente da Renovar a Mouraria reconhece, por isso, que a implementação do projecto será “um desafio muito grande”, começando pela prática da compostagem. “Claro que as pessoas se assustam um bocadinho, porque desconhecem o processo de compostagem, por exemplo, mas depois percebem que não custa nada. Ainda ontem, um bar novo contactou-nos a pedir um compostor. Acredito que vamos conseguir e esperamos até inspirar outros bairros de Lisboa a fazerem o mesmo”, diz.


 

Outro dos grandes objectivos do projecto Mouraria a Compostar é diminuir o consumo de plástico. Nas festas de aniversário de crianças, normalmente, utiliza-se loiça descartável, em grandes quantidades, produzindo-se muito lixo. Na loja-oficina propõe-se uma solução para o problema: há talheres de madeira, pratos feitos a partir de trigo e outros materiais biodegradáveis, e copos reutilizáveis. Há, ainda, escovas de dentes de bambu, copos menstruais, cotonetes biodegradáveis, cinzeiros de cortiça – para guardar as beatas-, escovas da loiça compostáveis e até detergentes a granel feitos a partir de óleo alimentar usado – para a loiça, limpa-vidros, o chão e multi-superfícies.

 

 

Na secção das sementes, encontramos um pouco de tudo: desde as de ervas aromáticas a cenouras, curgetes, melancias, melão e até pinheiros de Natal. Para quem não está familiarizado com as técnicas de plantação doméstica, há sacos biodegradáveis, já com terra e sementes, bastando apenas enterrá-los num vaso e esperar que a planta cresça. “O nosso plano é incentivar as pessoas a fazerem a menor quantidade de lixo possível e a mudarem de hábitos. Acho que estamos no bom caminho porque, cada vez mais, entram aqui com consciência do problema do plástico”, conta Cláudia Pinto, responsável pela loja-oficina, enquanto mostra os recantos do novo espaço.

 

Na Mouraria a Compostar há ainda espaço para instituições de cariz social. A Casa Pisão tem aqui expostos alguns trabalhos manuais desenvolvidos por pessoas com doenças mentais apoiadas por esta associação. Os doentes reaproveitaram madeira e cortiça para criar bases para panelas, pintaram casas de madeira a fazer lembrar os bairros típicos de Lisboa e criaram um presépio em rolha, o artigo com mais sucesso nas últimas semanas. Todos os meses, um “residente rotativo” expõe os seus produtos, “desde que se enquadre no conceito da loja, com um sentido de reutilização e preservação ambiental”, explica Cláudia Pinto. A primeira marca convidada é o Bicho de Sete Cabeças, da designer Madalena Martins, que trabalha com reclusos de estabelecimentos prisionais do Norte do país. Há lápis forrados com páginas de banda desenhada, rótulos de cerveja e mapas das auto-estradas portuguesas, mas também blocos de notas encadernados com restos de embalagens de farmácia e malas feitas a partir de saquetas de chá. A designer fez ainda colares e brincos a partir de folhas de jornais.

 

 

Na próxima semana, haverá um lanche “lixo zero” (18 de Janeiro, às 18h00), no qual as crianças, e os pais que quiserem acompanhá-las, aprenderão a construir plasticina biodegradável. Nas duas últimas semanas do mês, haverá uma formação de plantação de sementeiras de cravos vermelhos e manjericos (24 de Janeiro, às 18h00), uma oficina de construção de casas-ninho para pássaros (25 de Janeiro, às 18h00), e uma outra de compostagem (dia 29 de Janeiro, às 18h00). “Vamos ensinar a fazer compostagem, que não é assim tão difícil como algumas pessoas pensam. É uma ciência ancestral e intuitiva. Há pouco tempo, fizemos uma oficina de construção de casas-ninho para pássaros, destinada a crianças do apoio ao estudo, e, de repente, estavam aqui os pais e os vizinhos, com a mão na massa. Não falavam a mesma língua, mas comunicavam através das actividades, e acredito que vai acontecer o mesmo agora, com as hortas urbanas”, diz Inês Andrade. As próximas formações e workshops, relacionadas com agricultura urbana, assim como as acções de sensibilização para temáticas ambientais, serão anunciados na rede social Facebook da Renovar a Mouraria,

 

A presidente da associação diz que foram as próprias crianças, que frequentam a associação, a pedirem mais actividades ligadas ao ambiente. “As questões ambientais estão na ordem do dia e os miúdos com quem trabalhamos trazem-nos isso da escola. Quando lhes perguntamos ao que querem brincar, sugerem actividades ecológicas”, conta. Além das formações, haverá ainda um mercado mensal de trocas de artigos usados. Na loja-oficina, já há um espaço onde se pode deixar qualquer artigo, de roupa a livros e brinquedos, desde que esteja em bom estado, e trocá-lo por outro.

 

 

A Associação Renovar a Mouraria planeava há muito desenvolver actividades relacionadas com questões ambientais e acredita que a Mouraria Composta poderá ser “uma ferramenta de inclusão bastante poderosa”, porque, diz Inês Andrade, tais temáticas “chegam facilmente às várias gerações e culturas do bairro”. “Nem sempre percebemos que mudar o ‘chip’ da nossa vivência, numa grande cidade, pode ter um grande impacto. Como a Mouraria é um bairro com laços de vizinhança, bem no centro de uma capital europeia, pensamos que seria interessante pegar nesta parte da cidade como um projecto-piloto. Há coisas tão pequeninas que podemos fazer para ajudar o ambiente, mas, às vezes, não temos percepção delas até por desconhecimento”, conclui a fundadora da Renovar a Mouraria.

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