O projecto de distribuição das refeições não vendidas em cafés e restaurantes passa de quatro para 24 núcleos. Hunter Halder, o “americano alfacinha” de riso franco, diz que a maior motivação e recurso é a “ligação das pessoas à comunidade”. Já há planos para levar o Refood ao Porto, mas também a Madrid e a Amesterdão.

 

Texto e fotografia: Samuel Alemão

 

Funciona quase como um vírus. Dos actuais quatro núcleos, o Refood passará a 24, em breve. “O grande motor do projecto, a nossa maior motivação, mais do que dar comida, é fortalecer a ligação das pessoas à comunidade”. Hunter Halder, 62 anos, o norte-americano que há três anos teve a improvável ideia de fazer o óbvio – aproveitar a comida não consumida nos cafés e restaurantes para a redistribuir a quem dela precisa e não tem meios -, acaba por revelar o que o move, ao fim de duas horas de conversa. Mais do que ser um homem de pose boémia, acentuada pelo icónico chapéu e o ocasional fato de bom corte, montado numa bicicleta e fazendo as vezes de bom samaritano, ele conspira para insuflar o sentimento de comunhão urbana. E parece estar a consegui-lo.

Das duas dúzias de núcleos que se prepara para abrir, uma dezena está já em fase de instalação e os restantes 14 encontram-se numa fase prospectiva. Para já, São Sebastião da Pedreira, Olivais e Carnide serão os pontas de lança desta ofensiva solidária – ainda estão por definir datas para a inauguração e o mais provável é que ocorra a 25 de Abril, aproveitando o simbolismo óbvio. Após este trio, abrirão portas os núcleos do Parque das Nações, São Francisco Xavier, Belém, Alcântara, Misericórdia, São Domingos de Benfica e Areeiro. Em conjunto, conferirão uma dimensão apreciável a um projecto que, apenas com os núcleos de Nosssa Senhora de Fátima, Telheiras, Estrela e Lumiar, assegura já a recolha e distribuição de cerca de 15 mil refeições por mês, em mais de três centenas de restaurantes – tarefa realizada por uma rede de 745 voluntários. Os números conhecerão, em breve, outra dimensão.

Iniciado em Março de 2011, na freguesia de Nossa Senhora de Fátima – agora, depois de redesenhado o mapa administrativo da cidade, integrada na freguesia das Avenidas Novas -, o projecto Refood abrange cerca de três centenas de estabeleciemntos e tem tido tanta aceitação, que a expansão geográfica se converteu numa inevitabilidade. “Isto é como um acórdeão que se está a abrir”, explica Hunter, caçador de todas as boas vontades, congregador dos nobres espíritos ocultos na grande cidade. Além do alargar das actividades aos quatro cantos de Lisboa e às suas franjas – como sucederá, brevemente, em Alfragide e Almada -, o Refood deverá chegar também ao Porto, dentro de meses. Depois disso, já se pensa na expansão internacional. Para já, Madrid e Amesterdão são as hipóteses mais prováveis.

Pode parecer megalomania. Pode assemelhar-se a algo vagamente ingénuo, tal o quase consenso céptico face a eventuais mudanças conducentes à resolução de alguns dos males maiores. Como a desigualdade social, a pobreza e a cupidez. “Todos os dias, são deitadas fora toneladas e toneladas de comida. Podemos inverter essa situação. O maior recurso, porém, não é a comida, mas a boa vontade das pessoas. O efeito social pode ser uma fonte de mudança do mundo”, diz este activista urbano, a viver em Lisboa há 23 anos. Um longo percurso pô-lo aqui. Católico de uma área maioritariamente protestante, como é Richmond, na Virgínia, Hunter Halder ganhou uma viagem a Fátima. E acabou por se apaixonar por uma portuguesa, de quem teve um filho.

Depois de cá trabalhar, durante anos, na área dos recursos humanos, com actividades de team-building, algumas para grandes empresas nacionais, este “americano alfacinha”, como se define, também sentiu o efeito da crise. Em simultâneo, começou a questionar-se. A si mesmo, mas também ao papel desempenhado por cada um na grande moldura humana. “Fiz um levantamento da minha vida e da minha carreira. Quando fui a uma daquelas reuniões com ex-colegas do liceu, nos Estados Unidos, vi que estava a ficar mais velho. Ao mesmo tempo, comecei a fazer leituras, entre as quais na Bíblia, e pensei no impacto da nossa existência no planeta”, conta.

Até que houve um momento em que chegou “aquela” inspiração. Estava a jantar com a família, num restaurante, e a filha da sua actual mulher alertou-o, escandalizada, para o facto de todas as saladas não consumidas naquela noite terem como destino o lixo. “Em 24 horas, desenhei um plano. Menos de quatro meses depois, criou-se o projecto”, recorda Hunter, salientando que este sempre “teve uma vocação e ambição globais, desde o início”. “O Refood coincide com o primeiro acto de misericórdia da Igreja, que é, precisamente, dar de comer a quem tem fome”. A freguesia de Nossa Senhora de Fátima, por ser aquela onde vivia, correspondia ao território ideal para o pôr em prática.

Para começar, foi realizado o levantamento de todos os cafés, restaurantes e estabelecimentos que comercializassem refeições numa área correspondente a sete quarteirões, num território mais ou menos coincidente com as Avenidas Novas. Triados 45 potenciais contribuintes, três dezenas acabaram por dizer que sim à ideia de, ao final de cada dia, doarem a comida sobejante à Refood. A 9 de Março de 2011, Hunter conseguiu um cesto cheio, juntamente com oito voluntários. Iniciava-se um projecto que tem vindo sempre a crescer. À medida das necessidades. Mas também do desperdício. “Nos primeiros meses, resgatámos mil refeições por mês”, diz. Agora, são 15 vezes mais. Cada uma tem um preço médio de 10 cêntimos, garante o activista, pelo que acaba por ser uma pequena contribuição dos estabelecimentos, com um enorme retorno social. E vai aumentar.

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