Quase metade dos lojistas da Penha de França não tem contentor do lixo mas Junta promete resolver problema

REPORTAGEM
Sofia Cristino

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Penha de França

6 Dezembro, 2018

A Penha de França é uma das freguesias mais sujas de Lisboa. O lixo continua a amontoar-se nas ruas principais, alguns comerciantes não sabem qual o horário de recolha e quase metade não tem um caixote próprio. Dos que têm contentor, alguns dizem que este não é suficiente para a quantidade de detritos produzida. A Junta de Freguesia está por isso a avaliar as necessidades de cada estabelecimento. Anda de loja em loja, há duas semanas, para saber o estado de conservação dos contentores, se estes chegam para a quantidade de lixo gerada, ou até se os comerciantes precisam que o horário de recolha seja reajustado. O Corvo acompanhou uma das acções, uma iniciativa que a Junta diz ser pioneira, e ouviu as queixas e dúvidas dos comerciantes. Alguns atribuem a culpa da imundície à falta de civismo dos moradores e outros pedem uma maior limpeza das ruas.

Luís Pires, proprietário de uma mercearia, não tinha a certeza de qual é a entidade responsável pela recolha do lixo. No final da semana passada, ficou a saber que esta competência pertence à Câmara Municipal de Lisboa (CML) e ainda que as carrinhas de caixa aberta da junta, que vê a circular, são apenas usadas como reforço às do município. A explicação é dada por um grupo de funcionários da Junta de Freguesia da Penha de França, que anda a conhecer os hábitos de higiene pública dos comerciantes há duas semanas. Quando chega aos espaços comerciais, o grupo é recebido com alguma estranheza pelos lojistas, mas assim que estes percebem que podem falar dos crónicos problemas de lixo da freguesia, mudam logo de expressão.

 

“O caixote do lixo tem algum buraco ou rachadura? Acha que precisa de outro com um tamanho maior?”, questiona Maycon Santos, vogal da Gestão Territorial da autarquia, que tem acompanhado todas as acções de sensibilização. “Chega para mim e até para os meus vizinhos, que põem lá o lixo”, responde prontamente Luís Pires. Quando se fala da obrigatoriedade de lavar, todos os meses, o contentor cedido pela Câmara de Lisboa, o vendedor de legumes e fruta tem uma reacção mais hostil. “A câmara também podia limpar, pago muitos impostos para isso e não sou empregado deles”, queixa-se.

A falta de civismo dos moradores e o aumento da quantidade de dejectos caninos pelas ruas do bairro são outras das críticas do comerciante. Do encontro ficou, por isso, um compromisso: Luís passará a entregar sacos para a recolha desse resíduo, cedidos pela Junta, aos seus clientes. “A ideia é ajudar-nos e trabalharmos juntos. Queremos que as pessoas percebam que estamos aqui para colaborar, não para punir os comportamentos. Queremos fazer algo mais construtivo, resolvendo os problemas na sua origem”, explica Maycon Santos.

 

Num café aberto recentemente com nova gerência, na Avenida Coronel Eduardo Galhardo, os proprietários deitavam os resíduos no contentor do prédio vizinho. Agora, já sabem que podem pedir um caixote para lixo orgânico à Câmara de Lisboa. Uns minutos antes, Tiago Correia, chefe de secção de uma superfície comercial, reconheceu que há muito desperdício de fruta e de legumes, todos os dias, e pediu mais contentores de lixo orgânico. A Junta de Freguesia acede ao pedido e sugere que comecem a utilizar um compostor.

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Cada comerciante tem um cartão para acesso aos novos ecopontos

“Custa-nos muito deitar fruta fora. Além disso, a fruta suja muito os caixotes, tendo de ser limpos mais vezes. Um compostor é uma óptima ideia”, reage Tiago. Devido à elevada quantidade de lixo produzida diariamente, o supermercado terá mais três contentores para reciclagem, mais um orgânico, e avaliar-se-á a viabilidade da instalação de um compostor. “Este trabalho, de visitarem os comerciantes, é mesmo muito importante, ganhamos todos. Em vez de limpar três vezes um caixote, se calhar vou limpar só uma”, explica.


 

O grupo constituído por elementos da Higiene Urbana e de outros pelouros, como o de Acção Social, começa por distribuir um guia de boas práticas, no qual alerta para os horários de recolha do lixo, para a obrigatoriedade de os estabelecimentos comerciais lavarem o contentor mensalmente, para a importância de fazerem reciclagem, entre outras recomendações. Depois de perguntarem aos comerciantes se concordam com o conteúdo do folheto, ouvindo outras sugestões, para o tornar mais completo, fazem um levantamento das principais necessidades dos espaços comerciais. Querem saber o estado de conservação dos caixotes do lixo, se estes são suficientes para a quantidade de resíduos produzidos e se é preciso solicitar um novo contentor.

 

A ideia de criar esta equipa de acompanhamento surgiu quando a quantidade de cartão e plástico deixado à porta dos estabelecimentos, na Rua Morais Soares, aumentou. “Havia pessoas que precisavam de mais contentores e não sabiam que os podiam pedir à câmara, temos explicado que é um serviço a que têm direito”, conta Maycon Santos. Por causa deste levantamento, comunicado depois à Câmara de Lisboa, o município já terá alterado o percurso de recolha do lixo, de forma a circular nesta parte da cidade mais vezes. Aos comerciantes, maioritariamente estrangeiros, também já foi facultado um folheto de boas práticas em inglês. Neste percurso pelas lojas dos bairros da freguesia, já encontraram um lojista que depositava o lixo nas caleiras, e um outro que seguia um guia de regras de limpeza, da Câmara de Lisboa, entregue na sua mercearia há 30 anos. “Ainda atava as caixas de cartão e orientava-se por uma série de procedimentos já em desuso. Como a recolha era feita, achava que estava a fazer bem”, explica Maycon Santos.

 

 

Enquanto a quantidade de lixo aumenta em algumas partes da freguesia, noutras diminui. Numa gráfica, na Avenida Coronel Eduardo Galhardo, Glória Silva já utiliza tinteiros de origem vegetal, que podem ser reciclados, produzindo apenas dois pequenos sacos de lixo por semana. “Não temos resíduos tóxicos, nada que contamine. Utilizamos papel reciclado e reciclável, e até aproveitamos as tiras de papel que sobram dos nossos trabalhos. Não precisamos de nenhum contentor”, explica a proprietária da gráfica.

 

Uns metros abaixo, no café Casinha do Pão, as rotinas de limpeza também são visíveis logo à entrada, onde se encontra um mini ecoponto. Cecília Gonçalves, proprietária do estabelecimento, faz reciclagem e diz ter apenas uma queixa relativa aos hábitos dos moradores – não limparem os dejectos caninos. Na Rua Mouzinho de Albuquerque, noutro café, Elisabete critica a falta de recolha do lixo do vidrão. “Muitas pessoas deixam garrafas ao pé das árvores, ainda existe uma grande falta de civismo. Tento ajudar, guardando as minhas embalagens no café, quando vejo o vidrão cheio”, diz.

 

Os contentores da Câmara de Lisboa cedidos aos comerciantes devem ser colocados na rua das 19h às 22h, de segunda a sábado, e recolhidos até às 10h do dia seguinte. Os donos de uma mercearia indiana, há 30 anos na Rua da Penha de França, não conseguem guardar o caixote do lixo dentro do seu estabelecimento e explicam o motivo. Antigamente, colocavam-no numa cave, à qual acediam através de uma escadaria muito íngreme, mas agora é mais arriscado descer por ali. “Estamos mais velhos, já temos algum receio”, explicam.

 

 

Na última semana, a Junta de Freguesia da Penha de França visitou 263 lojas. Destas, concluiu que 40% não têm contentor próprio, alguns porque tinham desconhecimento que o podiam solicitar à câmara ou por falta de espaço para o guardar, e outros porque não querem. “Quase metade dos lojistas não têm um caixote e as carrinhas de recolha passavam lá todos os dias, não havia diálogo nenhum. Agora, os veículos da câmara dão outra volta para responderem a uma necessidade que detectámos. Sabendo quando os comerciantes colocam o lixo cá fora, os horários também podem ser reajustados”, explica o vogal da Gestão do Territorial.

 

Dos estabelecimentos que têm contentor, ainda segundo dados da Junta de Freguesia, 28% diz que precisa de mais caixotes, 7% já fez o pedido à Câmara de Lisboa, 38% diz não precisar ou não ter espaço para o colocar. Das que têm contentor, 8% diz que este não é suficiente para a quantidade de lixo produzida e 9% tem o contentor em más condições. Mais de metade dos comerciantes da freguesia da Penha de França já utiliza eco-ilhas com um cartão magnético, que permite à Câmara de Lisboa contabilizar o lixo produzido por cada um.

 

Ao longo desta primeira semana de Dezembro, a equipa de sensibilização termina a primeira fase do levantamento. Seguir-se-ão outras duas etapas. Nas próximas semanas, assegurar-se-á se os lojistas estão a cumprir as regras de limpeza e, numa terceira fase, à qual a Junta de Freguesia espera não chegar, poderá penalizar quem não cumpre com as normas. “A limpeza da cidade é uma só, não chega investir em recursos humanos, a sensibilização dos comerciantes é muito importante. O diálogo entre a junta de freguesia e a câmara é o caminho para o sucesso da limpeza em Lisboa”, considera Maycon Santos.

 

A Câmara Municipal de Lisboa lançou, recentemente, um concurso para mais 93 assistentes operacionais de higiene urbana e prevê ainda o reforço dos equipamentos de limpeza. Na Penha de França, todos os meses, será seleccionado um “comerciante modelo” para que os lojistas se comecem a inspirar nos vizinhos. “Acreditamos que esta nossa iniciativa, de andar de loja em loja, é pioneira e gostávamos de servir de exemplo a outras zonas da cidade”, diz o responsável da junta.

 

*  Nota Redactorial: Notícia editada às 11h30, de 6 de Dezembro. Clarifica que os 93 assistentes operacionais serão contratados pela Câmara Municipal de Lisboa e não pela Junta de Freguesia da Penha de França.

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