Crónica – Pecado Capital

 

Tantas vezes isto me aconteceu. Assim de repente, sem aviso prévio que não uma ligeira comichão no último segundo, a tempo de o cérebro perceber o que aí vem, as mãos irremediavelmente atrasadas na reacção, o sangue já a escorrer pela cara abaixo quando tentamos ampará-lo, a porra do lenço sempre preso no bolso de trás das calças, a corrida para a casa de banho, minutos a contemplar o tecto com um sabor acre na garganta.

Tantas vezes já me aconteceu. São fases, dizem. Mas há muito que a fase teria passado, penso agora, outra vez a mão direita a segurar o nariz, a esquerda num bailado contorcionista procurando o lenço, a pasta mal presa debaixo do braço, o corpo inclinado para a frente (errado, errado!) na vã tentativa de disfarçar o embaraço. Os dedos procuram e não encontram. Não trouxe lenço. E o sangue já me escorre para o pescoço.

Aconteceu muitas vezes, é verdade. Mas nunca assim, no meio da rua, pessoas que passam e se desviam, nojo, medo, indiferença. Acabei de sair do Metro na Avenida de Berna e a faculdade ainda fica a uns bons 300 metros. Não deve ser coisa bonita de ver, este rapaz desamparado que tenta levantar os olhos à procura de ajuda enquanto a T-shirt vai ficando manchada e o tsunami de sangue continua a cavalgar os frágeis diques dos dedos.

Alguém me disse uma vez que o que lhe fazia mais impressão nas ruas de Lisboa era o ar apressado das pessoas, como se toda a gente estivesse atrasada para chegar não se sabe bem onde. Hoje, aqui, agora, a tarde de Primavera mal começou, mas é como se o fim do mundo estivesse marcado para daqui a um quarto de hora… Passos apressados, olhos perdidos, mãos à frente em reflexo de defesa se calho a mexer-me na sua direcção. E só mesmo isso me convence de que não fiquei subitamente invisível.

Mais uns passos, sei que trôpegos – o que ainda piora o cenário para quem está a olhar para um estudante que deita sangue do nariz e vê um marginal saído de um cenário de crime, um farsante que engendrou nova maneira de enganar os incautos, um doente sabe-se lá de que terrível maleita contagiosa… Ainda não passou um minuto, mas a humanidade está a chumbar neste exame. E então vejo, acenando diante dos meus olhos, um lencinho de senhora.

Há uma pessoa atrás desta miragem de solidariedade. O olhar não é encorajador. A própria pose – braço estendido para a frente, corpo retraído – denota dúvidas e medo. Mas está ali um lenço. Agarro-o. Finalmente consigo tapar o nariz, tento estabelecer contacto. A senhora já está em andamento, na direcção contrária. Quero dizer-lhe que ando ali na Nova, que pode passar por lá e recuperar o lenço, quero explicar-lhe que não faço mal a ninguém e estou muito grato. Quero dizer-lhe que acaba de salvar a reputação da espécie humana.

Mas ela, também ela, não me ouve. Lança um sorriso desmaiado e diz que está “tudo bem”, que posso ficar com o lenço. E vai-se embora, quase em passo de corrida. Por esta altura, já consigo perceber que o bocado de tecido salvador que seguro contra a cara está carregadinho de perfume. E, olhando melhor, agora que estanquei a hemorragia, dá para perceber que, para lá das manchas vermelhas, há todo um cenário de florzinhas.

(Durante semanas, transportei religiosamente o lencinho comigo até às aulas, à espera de o poder devolver. Nunca aconteceu. Também nunca mais sangrei do nariz na via pública. Mas, pelo sim pelo não, e embora me digam que é antiquado e pouco higiénico, ando sempre com um lenço de pano no bolso de trás das calças.)

Luis Francisco
Luís Francisco
Ilustração: Joana Martins de Carvalho

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