O encerramento recente do cinema Londres ditou o fim, quase incógnito, das salas de exibição clássicas da capital. É o ocaso definitivo de uma era. Os tempos de austeridade fazem da sétima arte vista em grande ecrã um luxo para muitos. Mas, há 30 anos, também estávamos sob assistência financeira e, no entanto, o cinema era desfrutado de outra forma. Em grande.

 

Texto: Sérgio Alves   Ilustração: João Concha

 

E.T. O extraterrestre? Os Salteadores da Arca Perdida? Os Deuses Devem Estar Loucos? Christine F.? Que filme vamos ver em Lisboa, hoje à tarde ou à noite? E a que cinema vamos? Ao Berna? Aos Alfas? Ao Apolo70? Ao 7ªarte? Ao Star? Ao 444?
Era bom, era, mas estas e outras míticas salas da capital há muito que fecharam portas. Aliás, desde 1983 até agora, apenas se mantiveram abertas três: o Nimas, que tem apenas duas sessões diárias e com uma programação alternativa; o King (antigo Vox), que resiste ao encerramento e os cinemas São Jorge, propriedade da Câmara Municipal de Lisboa e sem exibição comercial, funcionando apenas como rede de salas para festivais e eventos culturais.
Hoje, como há 30 anos, Portugal está sob assistência financeira do Fundo Monetário Internacional (FMI) e a crise alastrou a todos os domínios: do financeiro para o económico, do económico para o cultural. Com a segunda maior recessão da sua história – a queda do Produto Interno Bruto (PIB) a níveis de 1975, o desemprego a ultrapassar 15% da população ativa e o poder de compra dos portugueses obviamente diminuído -, o fecho dos cinemas acompanha ou integra o negro quadro de milhares de falências em todas as áreas da vida nacional, designadamente ao nível das pequenas e médias empresas.
Com o recente encerramento do Londres, por insolvência da Socorama, proprietária dos cinemas Castello Lopes, fechou-se um ciclo na exibição cinematográfica lisboeta. Em 1983, recorde-se, existiam no centro da capital mais de 40 cinemas diferentes; em 2013 são apenas 11, embora com mais do que uma sala. É a consagração dos chamados multiplex, cinemas com mais do que uma sala. Em 1983, existiam apenas três com estas caraterísticas: Alfas, Quarteto e São Jorge.
Outras das tendências que se verificou, desde então, foi a deslocação do eixo principal da rede de salas lisboeta das Avenidas Novas – Apolo 70, Avis, Berna, 444, Star, Caleidoscópio, Quarteto…- para a periferia ou para zonas relativamente recentes da cidade, com as salas do Colombo, Alvaláxia, Amoreiras e Vasco da Gama, todas integradas nos grandes shoppings.

 

As antigas salas deram origem a supermercados, bancos, lojas de roupa e os cinemas passaram a ser um quase exclusivo dos grandes centro comerciais. É uma grande mudança de paradigma. Em 1983, ir ao cinema era um acontecimento social para as famílias, casais e amigos; hoje, é apenas mais uma das possibilidades que o centro comercial oferece: compras, jantar e filme.

 

Paralelamente, ocorre outra significativa mudança na forma de visionar os filmes. Em 1983, ainda não havia clubes de vídeo, muito menos internet. Além disso, os filmes exibidos na televisão eram escassos. Hoje, a par das salas multiplex, temos videoclube caseiro, DVDs e Blue Ray e filmes na net. Enfim, a possibilidade de aceder às novidades cinematográficas deixou de ser um exclusivo da sala de cinema.

 

A outra grande alteração prende-se com os filmes exibidos: em 1983, havia uma maior variedade de títulos em exibição nas diferentes salas. Atualmente, o mesmo filme pode ser visto em quase todas as salas da capital.
Outro novo dado: se, em 1983, havia uma multiplicidade de pequenos proprietários de salas, hoje assiste-se à concentração num número reduzido de empresas. Ou seja, há três décadas, eram dezenas de empresários para um total de 43 salas; em 2013, temos apenas quatro exibidores: a Zon Lusomundo, a maior empresa do mercado, com uma quota superior a 50%; a UCI Cinemas, com as salas do El Corte Inglês; a Cinema City, com as salas em Alvalade e no Campo Pequeno e a Medeia Filmes, com as salas do Monumental, King, Nimas e Fonte Nova.

 

Enfim, dir-se-á que, hoje, é mais fácil ver cinema do que há 30 anos. Mas, nesse outro tempo, ir ao cinema teria mais encanto.

  • Minda
    Responder

    RT @ocorvo_noticias: Quando ir ao cinema tinha mais encanto – http://t.co/aLxsyu5MeD

  • Ricardo
    Responder

    Ir ao cinema tornou-se uma experiência, por vezes, desagradável. É preciso ir de carro, temos de ouvir o barulho constante das pessoas a chafurdarem no balde de pipocas, e ainda gramamos com 15 ou 20 mns de publicidade, antes de começar o filme.
    Antigamente, eu fazia questão de estar a horas, para não perder as apresentações de outros filmes. Hoje em dia, tento saltar essa parte, sem perder o início do filme.
    No fundo, ver o filme é apenas um brinde que as salas oferecem para vender refrigerantes, pipocas e publicidade.

  • Luísa
    Responder

    Só discordo de uma coisa neste “post”: o “mais” no título. É que eu acho que, infelizmente!!, já não há encanto nenhum em ir ao cinema. Por vários motivos que assinalou no texto e, tal como o comentador Ricardo, não suporto os ruminantes na sala de cinema!!!!!!

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