O jardim do Príncipe Real deixou de ser um dos mais belos jardins românticos de Lisboa. A requalificação realizada em 2009, por iniciativa da Vereação do Ambiente Urbano, Espaços Verdes e Espaço Público da Câmara Municipal de Lisboa (CML), substituiu canteiros de flores por relvados que não conseguem nascer, arrancou as sebes e o maciço de buxo antigo e, principalmente, levou ao abate de quase cinquenta árvores, algumas de grande porte, deixando as restantes em precário estado de saúde.

 

O biólogo Pedro Lérias, guia oficial do Jardim Botânico e um dos muitos cidadãos de Lisboa que contestou a intervenção no jardim do Príncipe Real, teme o pior, no que respeita ao coberto arbóreo. “Foi abatida toda a cortina de protecção em volta do jardim, só conseguimos salvar meia dúzia de choupos de um dos lados, que continuam de boa saúde, embora em 2009 estivessem marcados para serem cortados, com o pretexto de que estavam doentes. O resultado foi que as árvores, no interior do jardim, estavam adaptadas a condições de temperatura, vento e sombra que mudaram demasiado rapidamente, e ressentiram-se disso”, afirmou.

 

Este especialista dá alguns exemplos: a copa do cedro-do-Buçaco – ex-libris do jardim, a primeira árvore da cidade de Lisboa a ser classificada como de interesse público -,  “sofreu uma enorme redução, ultrapassava os ferros do caramanchão que a sustenta e agora não a cobre, estando seca em parte”. O gigantesco lódão que existia na face do jardim voltada para o Palacete Ribeiro da Cunha, onde funciona o espaço comercial Embaixada, inaugurado em Setembro, “começou a dar sinais de doença pouco depois das obras”, e foi-lhe cortada uma pernada. Mas a árvore não recuperou e, em Agosto passado, teve que ser decepada pela base, pois ameaçava cair.

 

A araucária – “Araucaria colunaris”, também classificada como árvore de interesse público – que, antes das obras, tinha a rodeá-la, na base, um canteiro plantado, protegido por um gradeamento metálico, apresenta agora o tronco totalmente desprotegido e já perdeu uma parte do extremo superior. Também as figueiras tropicais da Austrália mostram sinais de doença, tendo perdido parte da copa. Em Novembro, começaram a ser cortados ramos às duas tílias dos Balcãs.

 

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“Tem sido uma chacina completa. As árvores são seres vivos, e, quando se trata de árvores com idade, como é o caso das do Príncipe Real, tem que se lhes dar tempo para se adaptarem às mudanças. Isso não aconteceu, não houve uma intervenção faseada, quis fazer-se tudo de uma vez” resume Pedro Lérias.

 

O jardim do Príncipe Real não é grande. Tem, ao todo, 1,2 hectares de área, mas ali cresciam tílias dos Balcãs, um cedro-dos-Himalaias, magnólias da América do Norte, uma paineira-barriguda do Brasil e figueiras tropicais da Austrália, que o tornavam num pequeno paraíso no interior da cidade e num dos mais belos jardins de Lisboa.

 

Cinco dessas árvores estão classificadas como património pela Autoridade Florestal Nacional, a qual, por lei,  tem que  acompanhar qualquer intervenção nelas realizadas. Mas tal não aconteceu, acusam os Amigos do Príncipe Real, um dos grupos que mais se tem destacado na contestação à obra de requalificação do jardim, da responsabilidade directa do vereador do Ambiente Urbano, Espaços Verdes e Espaço Público, José Sá Fernandes.

 

“Antes das obras, havia meia dúzia de árvores doentes, entre elas uma figueira que estava morta. No plano das obras da Câmara, estavam marcadas as árvores doentes e a substituir, mas faltava a figueira. Foi tudo feito em cima do joelho, em termos técnicos e em termos legais”, afirma António Neves, dos Amigos do Príncipe Real. Este grupo, nos últimos quatro anos, tem manifestado verbalmente e por escrito, a todos os responsáveis municipais, as suas preocupações com o estado do jardim, do qual vão dando conta num blogue intitulado “Amigos do Príncipe Real”.

 

Uma das situações denunciadas, logo em 2009, teve a ver com uma retro-escavadora de gigantescas proporções, chamada para arrancar o asfalto que antes cobria as zonas pedonais do jardim. “Era uma máquina pesadíssima, que teve um impacto muito grave. Andou à vontade dentro do jardim, e pelo seu peso e pelas vibrações resultantes das pancadas que dava no chão para arrancar o asfalto, retirou às raízes das árvores as bolsas de oxigénio de que necessitavam para respirar. O cedro e a araucária estão a ressentir-se disso, é impossível dizer o que lhes está a acontecer”, sublinha Pedro Lérias.

 

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A retro-escavadora interrompeu o trabalho ao fim de poucos dias, depois de, no tecto da galeria da EPAL que existe por baixo do lago, terem começado a aparecer rachas. O Corvo lembra-se dos protestos do próprio condutor da máquina, que dizia a quem o queria ouvir, que o peso desta – usada na construção de estradas – era excessivo para um local como o Príncipe Real. E, na realidade, quando a máquina trabalhava, parecia que estava a ocorrer um terramoto.

 

As árvores do jardim também se ressentiram fortemente com a abertura de roços, com um metro e meio de profundidade, para irrigação e iluminação do jardim (os candeeiros antigos foram todos substituidos). De novo, Pedro Lérias: “Foi um trabalho absolutamente descuidado. Em qualquer cidade civilizada, quando se abrem roços para canalização, electricidade, seja o que for, respeitam-se as raízes principais das árvores, as máquinas rodeiam-nas para não as cortar. Aqui não se perde tempo com isso, vai tudo a direito. E as árvores começam a morrer ”.

 

Os tubos de irrigação, que se podem ver estendidos no jardim, não parecem ser em número suficiente para levar água a toda a superfície a regar, apresentando-se o relvado extremamente seco ou mesmo pelado. Mas há quem diga que isso acontece porque agora, ao contrário do que acontecia antes, se pode andar em cima da relva.

 

Muito contestada também foi a escolha de um compósito feito à base de vidro moído, denominado Aripaq, para revestir  o piso do jardim. “Houve pareceres técnicos que apontavam para outra opção, e a escolha deste piso foi da responsabilidade directa do próprio Sá Fernandes. Levantámos a questão dos problemas de saúde que esse material poderia causar e o encarregado da obra explicou que não haveria problemas, desde que o piso fosse muito bem compactado e ficasse em repouso duas semanas”, afirma Jorge Teixeira Pinto, dos Amigos do Príncipe Real.

 

Mas esses prazos não foram respeitados e a inauguração da obra do jardim – em Maio de 2010 – aconteceu “dois dias depois do piso ter sido colocado”, acrescenta a mesma fonte.

 

De imediato se constatou que aquele piso não fora a escolha ideal. “Levanta imenso pó, que se acumula nas roupas, nas árvores, nos carros, em todo o lado. Esfarela-se, abre buracos, tem havido quedas. Sempre que chove um pouco mais, a camada superior desliza e deposita-se nas caldeiras das árvores do alinhamento, impedindo-as de absorver a água”, denuncia Fátima Neves, outro elemento dos Amigos do Príncipe Real.

 

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Um mês depois de inaugurado o novo piso, este grupo de cidadãos promoveu um abaixo-assinado a pedir a sua substituição, o qual reuniu 330 assinaturas e foi entregue em Junho de 2010 na CML. A resposta nunca chegou, mas, um ano depois, a CML contratou uma outra empresa para regar o piso do jardim com uma espécie de cola que devia fixar o pavimento. Esta solução também não se tem revelado eficaz e, quando o tempo está seco e há vento, é preciso regar o piso com água, para fazer assentar o pó.

 

António Neves levanta o problema dos custos da requalificação do jardim: “As obras foram orçamentadas em 390 mil euros pela empresa que as ganhou, em 2009. Agora, no orçamento participativo da CML, estão orçamentados 350 mil euros para a requalificação do piso. Já se gastou dinheiro com a colocação da cola, há que regar constantemente o piso. Quanto é que esta obra está a custar? Ninguém sabe”, sublinha.

 

Na opinião de Pedro Lérias e dos Amigos do Príncipe Real, há um “grande negócio” envolvendo a madeira resultante do corte de árvores do Jardim do Príncipe Real – e dos outros jardins e parques públicos de Lisboa. “As rubíneas que existiam à volta do lago foram cortadas. A madeira dessas árvores é preciosa. Mas não sabemos o que lhe aconteceu”.

 

Os problemas somam-se, mas o vereador dos Espaços Verdes, José Sá Fernandes, o principal responsável pelas obras de requalificação do jardim, não se mostra preocupado. “O cedro está em tratamento, não está a morrer. As árvores que foram abatidas estavam doentes, em termos de árvores o jardim está bem. As obras não afectaram as raízes. Quanto à relva, há um talhão um bocado pelado, que tem a ver com as pessoas, que enfiam para lá os cães. Este jardim tem muita carga de pessoas e de cães. Ficou mais exposto, de facto”, afirmou. O Corvo tentou saber por que motivo foram retirados os gradeamentos dos canteiros. “Foi uma opção, para as pessoas se sentarem na relva”, sublinhou o vereador.

 

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Outros bens têm desaparecido do jardim, ao longo do tempo, como foi o caso de uma enorme e bela taça em pedra, imitando um cesto de flores e fruta, que existia no centro do lago e da qual brotava um repuxo. Isso aconteceu em 1994, quando da instalação de uma galeria de arte subterrânea no reservatório de água da Patriarcal, por baixo do lago do jardim. Já ninguém parece lembrar-se da escultura, que deu lugar ao insignificante repuxo de metal que hoje existe no lago. O Corvo perguntou a Sá Fernandes se sabia do paradeiro da taça de pedra. “Pergunte à EPAL, a responsabilidade é deles”, foi a resposta de Sá Fernandes. A pergunta foi feita à EPAL, mas ficou sem resposta.

 

No  Príncipe Real, já não existe o jardim romântico que ali foi construido em 1853, com canteiros cercados por gradeamentos de ferro a proteger uma multiplicidade de plantas, flores e pequenos arbustos, sebes que formavam recantos com alguma privacidade, renques de árvores a toda a volta a formar uma cortina contra o ruído da cidade. Existe um jardim, em espaço aberto e degradação acelerada. Resta esperar que, daqui a algumas décadas, aquela praça não volte a ser o local de entulho que, segundo a Wikipédia, ali existia há 170 anos.

 

 

Texto: Isabel Braga     Fotografias: Fernando Faria

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