Ao fim de anos a lutar contra a burocracia, Gonçalo Sant’Ana conseguiu lançar a sua marca cervejeira. A Sant’Ana LX Brewery foi buscar o nome à feliz coincidência de apelido do produtor com a zona onde é produzida. Está já à venda numa dezena de locais da cidade. E não aspira a expandir-se para fora dela. Uma produção orgulhosamente local.

 

Texto e fotografia: Samuel Alemão

A partir das 14h30 dos dias de semana, é uma lufa-lufa no 53 da Rua Bernardim Ribeiro, nas traseiras da antigo Hospital Miguel Bombarda. São muitas as pessoas a aparecer para comprar os ingredientes necessários à feitura de cerveja nas suas casas. O que, nos últimos anos, se assumiu como uma tendência – embora haja quem o veja como mais uma moda – tem vindo a ganhar um número crescente de adeptos. Ao ponto de serem diversos os exemplos pelo país de apaixonados pela cerveja artesanal a criarem as suas marcas. A primeira da capital, a Sant’Ana LX Brewery, começou oficialmente a 8 de Março.

“Acredito que a cerveja é um produto local, que pode e deve ser produzido e consumido sem massificação”, diz Gonçalo Sant’Ana, 36 anos. Por feliz coincidência, tem o apelido da colina de Lisboa ultimamente tão debatida por causa do enorme projecto imobiliário previsto para os terrenos de quatro hospitais, uns a funcionar e outros já fechados (São José, Capuchos, Miguel Bombarda e Santa Marta). A designação da marca não poderia ser outra, é bom de ver. E Gonçalo até tem acompanhado a polémica urbanística. Ainda para mais porque é alguém com formação em arquitectura, embora nunca a tenha exercido profissionalmente.

A crença no funcionamento da sua actividade a uma escala mais reduzida levá-lo-á, dentro de algumas semanas, a abrir as portas da oficina produtiva à comunidade. Às quintas e sextas-feiras, todos os apaixonados por cerveja e restantes curiosos serão bem-vindos para provarem o que é ali feito, saciarem a sede e a curiosidade, trocarem opiniões e conviverem. Por agora, são já muitos os que, ao passar na rua, ficam intrigados com a carica gigante a servir de logótipo da Sant’Ana LX Brewery encimando a porta e querem saber mais. Alguns deles são turistas.

A colocação do símbolo e a activação da marca, agora concretizados, foram o culminar de um longo percurso encetado por Gonçalo, em 2008. Foi necessário convencer a Câmara Municipal de Lisboa e, mais difícil, os serviços da Alfândega. “Éramos a única capital europeia sem uma marca de cerveja artesanal e agora deixámos de o ser”, assegura Gonçalo, com contido orgulho. Há cerca de dez anos que ele se dedica à actividade cervejeira, sobretudo através Oficina da Cerveja, empresa fornecedora de ingredientes, produtos e formação na área da produção caseira da bebida – e que funciona nas mesmas instalações.

“Tento desmistificar a ideia de que fazer cerveja seja uma coisa muito complicada”, diz, em tom sempre relaxado, o empresário que para fazer as coisas andar conta com a ajuda de três pessoas – o seu pai, mais um funcionário brasileiro e um australiano. Nem complicado, nem industrial. “Quero que isto seja mais visto como uma espécie de pequena arte”, afirma. Daí que não esteja muito preocupado com a dimensão que o negócio possa ou deva atingir. Está a produzir apenas mil litros ao mês, mas deverá mais do que duplicar a capacidade com o novo enquipamento que, em breve, chegará ao local onde já funcionaram um talho e uma padaria.

Com um preço indicativo de venda ao público de 3,5€ por cada garrafa de meio-litro, a Sant’Ana LX Brewery encontra-se disponível numa dezena de locais de Lisboa – entre eles a Taberna 1300 e A Mesa, no Lx Factory (Alcântara), ou o Moules & Beer (Campo de Ourique). E deverá aumentar a rede de comercialização em breve. Mas sem pressas. “Pretendo que seja um crescimento gradual, até porque há mercado para isso. Mas quero que esse crescimento seja quase orgânico, criando uma estrutura que perdure”, explica Gonçalo, ciente da necessidade de solidificar o que só agora começa.

Entre as centenas de clientes que produzem cerveja em casa, Gonçalo Sant’Ana já viu vários criarem a sua própria marca. Pelo que, para ele, o caminho agora encetado acaba até por ser o passo mais lógico. “Sei que isto ainda vai crescer muito, pois o potencial é imenso”. E será tanto maior, se se comparar com a generalidade das nações do continente, onde a cultura de produção de cerveja doméstica tem uma apreciável dimensão. “Há dezenas de cervejeiras em Londres, com facturações de milhões. Só a Espanha tem mais de duas centenas de micro-marcas e Madrid tem várias”, informa.

Num país onde o mercado, tal como noutros sectores de actividade, praticamente se reduz à quase caricatura de uma guerra entre duas grandes marcas, a produção artesanal acaba por ser uma alternativa compreensível para os apreciadores. Mas mesmo em relação aos demais produtores caseiros Gonçalo se quer diferenciar. “Temos uma abordagem muito diferente. Não nos focamos em fazer três ou quatro receitas ou variedades. Não acredito nisso, dada a plasticidade que esta prática oferece. Temos alguns estilos que vamos mantendo, mas gosto mais de nos vermos como experimentalistas”, diz o criador da Sant’Ana LX Brewery.

Quer isto dizer que, entre os 4,9 e os 8,5 graus alcoólicos, tudo é possível. Mas com uma especial pelas graduações mais baixas, diz o cervejeiro lisboeta. “Preferimos criar uma cerveja que as pessoas possam beber à vontade, sem ficarem com uma sensação pesada”. A ideia é beber com prazer e repetir, se for caso disso.

 

* Texto corrigido às 11hoo de 7 de Maio.

  • Reserva Recomendada
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    RT @ocorvo_noticias: Primeira marca de cerveja artesanal de Lisboa nasce na Colina de Santana – http://t.co/zWwMD7MX3T

  • Rui Barradas Pereira
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