A zona da Baixa-Chiado é o local privilegiado para observar os artistas de rua. Eles estão um pouco por todo o lado, mas o Chiado e a Rua Augusta são os locais de eleição para expressarem a sua criatividade. As ruas ganham outra vida com a sua presença. Mas não está fácil.

 

Texto e fotografia: Mário de Carvalho



 

São bandas musicais, são violinos individuais, são os chamados “homens estátua”, artistas de carne e osso que se vestem à maneira da sua personagem e assim permanecem horas imobilizados, como se fossem de pedra. Todos os que tocam ou encantam quem circula pelas ruas, ou descansa nas esplanadas, emprestam a sua vitalidade e criatividade à cidade.

 

Mas o colorido que os artistas de rua conferem à zona da baixa pombalina de Lisboa não é isento de espinhos. Como o demonstra uma ação policial contra um dos mais celebres homens estátua que levita junto à pastelaria Brasileira, ocorrida na passada semana e que alguns classificam de mais “musculada”.

 

Emílio Ramos, que trabalha um número único de homem estátua, foi abordado pouco depois de hora do almoço, em plena atuação, suspenso na sua bengala mágica, quando um agente circulando de carrinho de rodas (conhecidos como segway) o rasou ao ouvido e o advertiu. Mais três polícias se lhe juntaram e, encostados à loja Benetton, já de lá não saíram, obrigando o artista suspenso a descer.

 

“Foi um pouco chocante, pois o artista, visivelmente incomodado, teve de desmanchar o seu número, à frente dos turistas que não paravam de fotografar!”, disse ao Corvo uma estudante, que presenciou o facto. O sucedido foi corroborado pela empregada do quiosque de jornais: “Os agentes da polícia ficaram no local até às onze da noite, para impedir que ele voltasse a montar o seu cenário”. “ Talvez porque neste sítio os artistas conseguem mais moedinhas…”, comenta.

 

Nesta zona do Chiado, além da presença regular do homem estátua, concentram-se diversos músicos. “A polícia costuma aparecer, mas normalmente não liga! Outras vezes, pede a licença, mas as coisas, geralmente, não dão problema”, refere um dos músicos de origem brasileira que faz o seu espetáculo no local.

 Para um funcionário da Brasileira, o trabalho dos artistas de rua acaba por ter efeitos positivos nesta zona comercial. “O que eles fazem aqui serve também como atrativo para os nossos clientes e para os estabelecimentos situados no Chiado”, diz.

 

Apesar de alguns artistas de rua que atuam na zona da Baixa-Chiado terem dito ao Corvo que estão “fartos de regras”, a verdade é que elas existem mesmo para este tipo de arte, por mais absurdas que possam parecer. No país, as regras para os artistas de rua mudam conforme a autarquia, sendo que a maioria dos municípios não dispõe de qualquer tipo regulamento.

 

Em Lisboa, é necessário requerer a licença ao presidente câmara. No formulário que abrange outras atividades, são solicitados elementos como os códigos de certidão de registo comercial e de registo predial, os horários, os dias de atuação, assim como período de montagem e desmontagem do espetáculo. No caso de ser músico, tem de indicar a potência de sua aparelhagem sonora.

 

Este pedido de licença abrange atividades como: distribuição de produtos e panfletos, prova de degustação, animação de rua, inquéritos, eventos institucionais, exposições ou o homem estátua, sendo a cada um atribuída a respectiva taxa. Nalguns casos, na ocupação do espaço público é solicitada uma planta de “implantação da ocupação, devidamente legendada, contendo a localização de todos os equipamentos e estruturas a instalar”.

 

No caso do homem estátua e dos músicos, a taxa ronda os cerca de 30 euros por mês. “Neste momento, a câmara não está a passar licenças”, indica um dos homens estátua “instalado” na Rua Augusta. Poucos metros mais à frente, outro paga a sua taxa, que define o local e a área à qual tem direito a mostrar o seu número. “Isto é muito injusto, porque uns pagam a taxa para terem direito ao espaço e outros não”, refere, lembrando que a atribuição de licença é feita por metro quadrado. Alguns destes artistas de rua podem, num bom dia, arrecadar cerca de 100 euros. “Isto não é fixo, mas podemos conseguir juntar uns dinheiritos para pagar as despesas”, sublinhou um dos artistas.

 

Na realidade, os pedidos são muitos e, neste momento, a autarquia está a passar uma declaração de como o artista foi solicitar a respectiva licença. “Mas a polícia liga pouco a isso”, adiantou outro homem estátua, na Rua Augusta.

 

Na passagem do Corvo pelo Chiado e pela Rua Augusta, os artistas optaram por solicitar o anonimato, pois “isto está quente. Só querem sacar dinheiro”, desabafou um deles.

 

As práticas de criatividade artística de rua levantam igualmente questões noutras cidades europeias. Um dos locais famosos pela actuação do homem estátua é a zona das Ramblas, em Barcelona, onde só há pouco mais de meia dúzia de anos se tornou obrigatória a licença para poder atuar. Na zona velha da cidade escocesa de Edimburgo, a presença deste género de artistas é frequente, estando os mesmos isentos de licença.

  • Diogo Dídac
    Responder

    era bom que a polícia se preocupasse antes com a malta que anda a vender droga, ou os pseudo-freaks, e deixasse quem está a trabalhar em paz

  • José Estorninho
    Responder

    É só pra isso que a policia municipal serve, para passear de segway e chatear que quer ganhar uns cobres sem ser a roubar. Já os carteiristas têm a vida facilitada…

  • Vítor Vasconcelos Santos
    Responder

    Já presenciei isso um dia destes, senti-me num país sem liberdade de expressão e que empurra as pessoas para a depressão e infelicidade. Todas as pessoas que estavam a assistir perderam o sorriso e satisfação que tinham no rosto…

  • Jorge
    Responder

    Faria mais sentido abordarem os vendedores de haxixe na Rua Augusta, Praça do Comércio e Rossio.

  • Mario Fernandes
    Responder

    Os turistas deviam estar a pensar “mas então os ciganos que me tentaram vendar droga várias vezes no mesmo dia mesmo em frente da polícia fazem-no livremente mas estes coitados são humilhados assim?!”

  • Manuel Ferreira C
    Responder

    Era bom era verem as passadeiras que nem tinta têm ou a malta que deita os sacos de lixo na rua…mas atenção, a culpa não é só da polícia.

  • Dolores Manso
    Responder

    Comparemos:

  • Antonio Santos (Staticman)
    Responder

    Agradeço o artigo sobre a arte de rua, que desempenho já lá vão quase 27 anos mas penso haver algumas coisas aqui a esclarecer:
    Fala-se aqui de um dos mais célebres Homens-estátua, sinceramente não sei de onde vem essa celebridade, dado que o show que apresenta é uma cópia mal feita de uma das minhas performances, cópia aliás referida pelo próprio em artigos de imprensa. Se eu não posso (e não devo) copiar um qualquer livro, pintura, ou qualquer outra obra, porque me podem copiar a mim impunemente? por ser artista de rua?
    Não aceito!!! Assim como defendo a liberdade de expressão artística na rua, também defendo a originalidade da obra artística deixando o apreço da sua qualidade ou não, aos que depois a observam. Sinto-me triste com a existência dessas cópias que me têm feito, esta é apenas mais uma. De qualquer forma nunca fiz qualquer queixa formal.
    É um facto que a polícia em geral não está preparada para lidar com a arte na rua e com os seus praticantes, que o diga eu que quase 27 anos depois de actuar nas ruas de Lisboa, depois de 5 recordes mundiais, sou muitas vezes abordado de formas menos próprias e dignas. Isto mesmo sendo detentor de uma autorização paga mensalmente desde 1991.
    Em Portugal e no geral dos países latinos a arte de rua é confundida com a mendicidade e por isso também, muita gente pensa que é artista de rua indo para a rua com uma artimanha qualquer, muito poucas originais, e se julga logo um grande artista. Enfim, a teoria da pescadinha de rabo na boca aplicada à cultura de um povo!
    As cidades deviam deixar os artistas trabalhar livremente, tendo estes que obedecer à regras da conduta social e as autoridades deviam proteger os artistas, assim como protegem as lojas, os bancos, e etc…
    Muito mais haveria a dizer sobre este tema mas para comentário julgo já ser suficiente. Viva a arte!!!! Viva a arte na rua!!!!

  • Daniela Dias
    Responder

    “Emílio Ramos, que trabalha um número único de homem estátua” – Desde quando plágio e cópia de outrem, são entendidos como “número único”? O “número único de homem estátua” não tem absolutamente nada de estátua, nem de único, porque é uma cópia descarada (e assumida!) do trabalho da pessoa a quem foi roubada, que não é nada mais que O próprio Homém-Estátua em pessoa, Staticman aka António Gomes dos Santos. Além dessa parte, tenho a certeza absoluta que independentemente disso, o Sr. Emílio também não tem qualquer licença, já o Sr. António Santos tem a sua há mais de 20 anos. Só em Portugal mesmo é possível uma vergonha destas ser admitida, e mais grave, aclamada…

    Fica aqui o meu desabafo, e já agora divulgo aqui também o desabafo do próprio Staticman, no seu facebook pessoal:

  • Paula Carvalho (Estátua Viva)
    Responder

    É lamentável alguns factos descritos nesta notícia!!

    A meu ver o ÚNICO E CÉLEBRE HOMEM ESTÁTUA em suspensão é o Sr. António Santos. Quem vive desta Arte o sabe e basta um bocadinho mais de pesquisa!
    Também é lamentável o facto de alguns pagarem o seu espaço e outros não! A Polícia deveria se preocupar com todos os outros “artistas” que andam na Rua a vender droga, telemóveis e tablets roubados sabe-se lá de onde!
    É triste vivermos num país que a Arte de Rua afecta tudo e todos!
    Dá-me a sensação que somos alguns criminosos ao promover a nossa bela arte. Arte essa que Portugal desvaloriza.
    Deveriam nos deixar trabalhar e apreciar o que de verdade trás atracção.

    Bem haja a todos!

  • Mica Paprika
    Responder

    Também sou artista de rua e recuso-me a pagar o que quer que seja para trabalhar na rua.
    Esta é a minha forma de manifestar o meu descontentamento com o sistema e os patrões. levar a alegria os sorrisos de forma independente ao povo.
    Como posso pagar uma taxa fixa se nao vou receber de forma fixa? Como pagar sem a certeza de receber?
    Arte livre já!

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