Os custos do futuro sistema municipal, que disponibilizará 1410 bicicletas por 140 postos, nos próximos nove anos, estão a causar celeuma. A rede a implementar pela EMEL, através de um contrato de prestação de serviços, é considerada demasiado cara pelo CDS-PP. O vereador centrista diz que o modelo não é o bom para a cidade, traz riscos financeiros para o município, desconhecendo-se ainda qual o seu modelo de negócio. Por isso, defende uma concessão a privados. Fernando Medina discorda e lembra que as receitas com bilhetes e publicidade ajudarão a pagar o funcionamento.

 

Texto: Samuel Alemão

 

O presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), Fernando Medina, admite que os custos da futura rede de bicicletas partilhadas da cidade, a implementar, ao longo dos próximos nove anos, pela Empresa Municipal de Estacionamento e Mobilidade (EMEL) – através de um contrato para a prestação serviços de exploração a estabelecer com uma empresa -, e estimados em cerca de 29 milhões de euros, serão em grande medida assumidos pela autarquia. Mas o edil garante que esta é a forma mais adequada de defender o interesse público, seguindo os melhores exemplos a nível internacional. Isto porque permitirá ao município da capital controlar a correcta implementação do projecto, assumindo assim o mesmo o risco da eventual falta de procura.

 

“Assumo que este sistema que vamos implementar em Lisboa não vai ser lucrativo. Mas tenho a certeza de que o custo líquido não vai ser de 29 milhões de euros, pois teremos que contar ainda com a obtenção de receitas de bilhética e de exploração de publicidade no sistema, mas também com o custo social deste projecto”, disse Fernando Medina, durante a reunião da vereação camarária ocorrida na tarde desta quarta-feira (16 de Dezembro), em resposta às fortes críticas feitas pelo vereador João Gonçalves Pereira (CDS-PP). O tema motivou uma acesa troca de argumentos entre ambos, com o eleito centrista a sugerir que se poderá estar ante a iminência de um negócio ruinoso para a autarquia.

 

João Gonçalves Pereira acusou o câmara e a empresa municipal de pouca transparência na condução de um processo tão oneroso. E afirmou que o modelo de prestação de serviços a adoptar pela EMEL será muito mais custoso para a cidade. Defendeu, por isso, a suspensão do concurso público para a escolha da entidade que vai explorar uma rede com 1410 bicicletas e 140 estações espalhadas pela cidade, por um valor de 28,9 milhões de euros. E pediu o relançamento do processo, adoptando-se um modelo de concessão do sistema a privados. “Isto é uma decisão empresarial, pelo que gostaria de conhecer o business plan (plano de negócio)”, apelou o vereador do CDS-PP.

 

O autarca da oposição confessou a sua estranheza por “um investimento desta dimensão não ter sido apresentado nem discutido em reunião de câmara”, o que deveria ter acontecido, diz, por a EMEL ter como acionista único a autarquia. “Não conhecemos nem o tarifário, nem o business plan”, lamentou, afirmando que, com este modelo de prestação de serviço, “o município está a pagar tudo e a assumir todos os riscos”. Já antes, Gonçalves Pereira havia dito que, “se a CML avançar com isto, poderá lançar uma candidatura ao Guiness Book, porque este será, certamente, o sistema de bicicletas mais caro da história”. “Não reconheço à EMEL a capacidade de gestão para isto”, criticou.

 

Mas os argumentos de Gonçalves Pereira foram fortemente rebatidos pelo presidente da câmara, que sublinhou “as claras vantagens de um sistema de prestação de serviços, como o que será adoptado em Lisboa, em comparação com os modelos de concessão”, defendidos pelo vereador centrista. “A prestação de serviços protege significativamente o município, pois é um modelo em que, ao contrário dos outros, ganhamos o controlo sobre a gestão do sistema e assumimos o risco relativo à procura que ele venha a ter”, disse Medina, lembrando que “os sistemas de concessão têm um enorme risco, como se viu em vários exemplos internacionais, que é o de as empresas concessionárias irem à falência por falta de procura, abandonarem tudo e os problemas ficam por resolver”.

 

O presidente da câmara foi mais longe. Apesar de reconhecer que há alguns casos a nível internacional em que o modelo defendido por Gonçalves Pereira “que correram bem”, Fernando Medina confessou “não conseguir encontrar nenhum sistema de concessão que seja economicamente mais vantajoso para a cidade de Lisboa do que este”. Rebatendo as sugestões de falta de transparência, Medina lembrou ao vereador do CDS-PP a razão pela qual o projecto que a EMEL se prepara para implementar não foi apresentado e discutido em reunião de câmara: é que, a 10 de Abril de 2013, o executivo havia deliberado entregar este assunto à empresa municipal. Uma realidade relembrada, minutos depois, pelo vereador Duarte Cordeiro (PS).

 

O líder do executivo camarário sublinhou que esta será a melhor maneira de defender os interesses da capital portuguesa e dos seus munícipes – “O modelo para o qual estamos a caminhar é o mesmo para onde outras cidades caminham”, alegou. “Este assunto foi estudado, durante meses a fio, pela EMEL e por especialistas”, disse Fernando Medina, que pediu a João Gonçalves Pereira “um pouco de respeito” por quem estudou os dossiês a fundo. Ainda de acordo com o presidente da CML, a EMEL terá recebido 15 propostas para a criação e exploração da rede de bicicletas partilhadas – modelo que terá um custo sempre inferior ao de uma concessão, diz.

 

  • Carlos Barbosa
    Responder

    Não vejo grande sucesso no projecto, sobretudo devido às condições geográficas de Lisboa, onde as grandes colinas serão sempre um entrave para quem pedala, o mesmo não acontece noutras cidades onde o projecto foi bem sucedido.

    • José João Leiria-Ralha
      Responder

      A maior parte da cidade é plana, como já foi demonstrado algures (o mito das sete colinas não passa disso). E mesmo a ligeira inclinação entre a Baixa e a Alta é resolúvel, para quem só queira descer, porque estes sistemas implicam sempre — pela quantidade de milhões envolvidos vão implicar, certo? — o transporte das bicicletas de reboque para onde elas fizerem falta consoante a procura.

    • Carlos Barbosa
      Responder

      Do rio para cima é sempre a subir, sempre, só a zona da baixa é plana.

      • Filipe Teixeira
        Responder

        Isso não é verdade. 70% da cidade é plana

    • José João Leiria-Ralha
      Responder

      Alvalade, Avenidas Novas, Benfica. Tudo plano.

    • José João Leiria-Ralha
      Responder

      Mapa dos declives de Lisboa (a verde, inclinações de 0 a 2%).

  • Maria Papoila Silva
    Responder

    que avançe rapidamente e que tenha este efeito:

    • erariopublico
      Responder

      Fazem muita falta fazem… não sei porque nunca ninguém fala das cidades que já tiveram… e já fecharam os seus sistemas de bicicletas partilhadas…
      por elevados custos
      e por falta de utilizadores…
      há claro, os políticos só gostam de contar as histórias de sucesso…

      Em MADRID… mesmo com 2000 bikes electricas, em vez das 1400 Convencionais anunciadas… é assim
      http://www.elmundo.es/madrid/2015/10/21/56277e1446163fac218b4639.html

      BiciMAD pierde 300.000 euros al mes
      … El servicio de BiciMAD entró en vigor en junio del año pasado. El Gobierno de Ana Botella (PP) adjudicó a Bonopark su instalación y mantenimiento durante los próximos años por un importe de 25 millones de euros. …

      … Según los datos facilitados por el Área de Medio Ambiente y Movilidad, desde el inicio del servicio 1.000 bicicletas han sido “vandalizadas” y otras 100 “abandonadas”. Bonopark ha incorporado 1.000 nuevas unidades a la red durante el mes de septiembre, pero “aun así no alcanzan las 2.028” requeridas por contrato “por diferentes motivos”. …

  • Rui Félix
    Responder

    O sucesso não está nas condições geográficas, mas sim no preço do serviço, se é competitivo relativamente aos outros transportes, só quem nunca andou de bicicleta é que pode falar assim

    • José João Leiria-Ralha
      Responder

      O preço de utilização em Oslo é de 12,7 euros/ano. Em Lisboa, com ponderação de preços, seria menos de 5 euros…

  • Jojo
    Responder

    Não deixa de ser curioso tantas certezas do sr Presidente Fernando Medina…
    Não se percebe com uma empresa como a EMEL, sobejamente conhecida pelo esbanjamento dos dinheiros públicos da autarquia. Com o último aumento de Capital de largos milhões de euros a cobrir os prejuízos e a sistemática má gestão. Q se pode dizer danosa por princípio danosa.
    Por outro lado porque tem a autarquia q investir num sistema de bicicletas partilhadas para turistas, e nós, munícipes pagar por isso?
    Há na cidade oferta diversa para os turistas q nos visitam se movimentarem de forma sustentada na cidade, seja por bicicletas q dão trabalho a pequenas empresas privadas, seja em autocarros, elétricos ou comboios.
    Por último é por aqui talvez devesse ter começado em Madrid a actual concessionária do Sistema de Bicicletas Partilhadas… Mesmo recebendo mais de 20 milhões de euros ano, e por muitas mais bicicletas, chegou a conclusão q precisa de mais 300 mil euros mês… Por falta de interesse, de Uso e consequentemente reduzidas receitas de bilhetica Ou publicidade…
    E aqui voltamos a questão inicial… Porque tem um munícipe em Lisboa q pagar pelas bicicletas usadas pelos turistas e a concorrer directamente, e de forma desonesta, com a oferta privada?
    Se fosse apenas Para Munícipes…
    Mas estes nem querem mais um serviço deficitário quando há Tanto por fazer nesta cidade!
    Nem mesmo os ciclistas…
    Ou Fernando Medina acha q os munícipes estão satisfeitos com os descalabro a que chegou município?
    Projectos destes têm um objectivo:
    Muitos milhões = desvios e corrupção. Portugal 2015.

  • Paulo Ramos
    Responder

    è para isto que vai o meu dinheiro

    • Anamaria
      Responder

      Até parece que é mal empregue não?
      Então se o lixo é sempre todo recolhido e a horas em todos os pontos da cidade;
      se os passeios e as ruas não têm buracos, está tudo impecável;
      se a sinalização a iluminação pública funcionam as mil maravilhas;
      se a Polícia Municipal de Lisboa é omnipresente quando necessário e mesmo quando não faz falta nenhuma…
      se a EMEL nunca teve prejuízos nem esbanjou recursos escassos ao erário público…
      se a CML mesmo cobrindo os prejuízos da EMEL tem um superavit e não sabe o que fazer ao dinheiro cobrados em impostos, taxas e taxinhas…
      porque não agradar aos Turistas?
      Há pessoas mesmo do bota abaixo…
      (NOTA: No caso de se confirmar o Provérbio: “O Pior cego é aquele que …”
      que fique claro: este texto é absolutamente sarcástico….

  • Armando Viegas Lopes Lopes
    Responder

    Com tantos milhoes, espera ai: quantas bicicletas e que toca a cada lisboeta? Fonix, e os velhotes tambem vao andar de bicicleta? Estou a ver, e que quem quer por o pagode a andar de bicicleta, esta a esfregar as maos para andar de Rolls.

    • JoJo
      Responder

      Uma conta simples:
      Bicicletas a 200 EUR (das boas e com qualidade compradas a preço de revenda!)
      1 milhao de euros = 5000 (CINCO MIL) bicicletas!
      ora 29 Milhoes dá para umas 150.000 (CENTO e CINQUENTA MIL) bicicletas…
      de facto acho que a camara pode e devia oferecer uma bicicleta a cada família na capitalm para uso compartido claro está.
      São números impressionantes que chocam quem os ler…
      e quando se der conta… que os nossos impostos pagam isto?!
      Para os turistas?
      que têm dinheiro para o Avião, para o Hotel, para o Restaurante, etc
      quantos tantos de nós, Alfacinhas,
      nem sequer conseguimos ir de férias… quanto mais para fora?!

  • António Costa Amaral
    Responder

    É fartar, vilanagem -> Polémica com os 29 milhões de euros da rede de bicicletas partilhadas de Lisboa https://t.co/oXS8LpTBpq

  • Atlas Lisboa
    Responder

    Polémica com os 29 milhões de euros da rede de bicicletas partilhadas de Lisboa https://t.co/foxr5Yo0pq

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