Passe diário para as bicicletas partilhadas da EMEL exige uma caução de 300 euros

REPORTAGEM
Margarita Cardoso de Meneses

Texto

MOBILIDADE

Cidade de Lisboa

6 Outubro, 2017

Lisboa aderiu ao bike sharing, o serviço de bicicletas partilhadas que já funciona em muitas cidades da Europa com uma alta taxa de sucesso. Mas o uso por apenas um dia destas bicicletas, que a EMEL (Empresa Municipal de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa ) apresenta como “uma alternativa de transporte público”, obriga os eventuais interessados a disponibilizarem um valor de caução maior do que para alugar um carro, comprovou O Corvo, esta semana.

As novas bicicletas partilhadas da EMEL – rebatizadas Gira, após a fase piloto, que durou todo o verão – podem encontrar-se na zona do Parque das Nações, desde o final de Setembro. A empresa municipal de mobilidade anuncia estas bicicletas, clássicas e elétricas, como “a alternativa de transporte público mais amiga da cidade”, que vai ajudar a evitar o “stress dos transportes”. No entanto, quem quiser usar o serviço de bike sharing por um dia deverá ter, pelo menos, 310€ na conta bancária ou no cartão associados ao PayPal, já que o passe diário (10€) obriga a deixar uma caução de 300€ – valor que fica congelado na conta durante 48 horas, após o final do prazo do passe diário.

Caso não tenha esse dinheiro disponível, a página do PayPal vai para a área dos cartões/contas, sem qualquer notificação ou aviso. Só após um telefonema para o número indicado na app da Gira, O Corvo foi informado de que “como está explícito nos Termos e Condições, para o passe diário (não para o mensal, nem para o anual) é necessário pagar a caução”. Realmente, o valor está lá, assim como na lista de preços de utilização do referido passe.



Em muitos casos, porém, isto poderá tornar a Gira uma alternativa inviável – quer sejam visitantes ou turistas, quer sejam moradores os que queiram usar o serviço ocasionalmente. Paga-se menos por alugar um carro.

A diferença de preço em relação aos outros passes (mensal 15€ e anual 25€), os quais não obrigam ao pagamento de qualquer caução, acaba por fazê-los parecer uma melhor opção. O senão é que reduzem o tempo de uso gratuito para frações de 30 minutos, em vez dos 60 minutos do passe diário.

Em qualquer caso, este bónus só está disponível até final de Dezembro de 2017. Depois disso, a primeira viagem ou fração de tempo passará a custar 0,20€ para as bicicletas elétricas e 0,10€ para as clássicas. E além do valor fixo dos passes, quem ultrapassar o tempo de uso gratuito paga 1€ pelo segundo período de 30/60 minutos e 2€ pelos seguintes períodos de 30/60 minutos. Entenda-se que este valor não é descontado do preço já pago – acresce ao preço do passe.

Uma vez estacionada a bicicleta na doca, o utilizador deverá esperar 15 minutos (com os passes mensal e anual) ou 30 minutos (com o passe diário), antes de poder desbloquear uma nova. Não conseguimos, todavia, obter qualquer explicação por parte da EMEL em relação aos critérios que levaram a estipular estes valores.

Todas as chamadas e todas as opções do atendimento automático que O Corvo tentou acabaram no call center, onde os funcionários apenas puderam ficar com os nossos contactos, para depois os encaminharem para a “pessoa responsável”, que estava “em reunião” ou que não conheciam, porque “é um serviço externo”. Apesar do pedido de contacto urgente, ninguém nos contactou até ao final desta quinta-feira (5 de outubro).

Passe diário para as bicicletas partilhadas da EMEL exige uma caução de 300 euros

Prevenir roubos e evitar que os utilizadores usem as bicicletas apenas durante as frações de utilização gratuita; ou o facto da EMEL pretender disponibilizar “principalmente bicicletas elétricas”, já “a pensar nas 7 colinas”, são algumas das razões que poderão ter levado à adoção destas medidas. Mas os valores associados aos passes diários, abrangendo a referida caução, contrastam com a sugestão de que esta será a opção “ideal para visitantes”.

O mesmo serviço de bike sharing existe em muitas outras cidades, com preços bem mais “alternativos”. Em Cascais, o preço das BiCas para um dia inteiro é de 3,90€ para as bicicletas convencionais ou 6,90€ se se optar pelas elétricas, sem caução associada; em Madrid, é oferecido um ou vários passes gratuitos e cobram uma caução de 150€ para uso ocasional. Em Paris, o passe diário custa 1,70€ e a caução de 150€ só é cobrada se o pagamento for feito com alguns tipos de cartão; ou em Londres, onde é possível usar durante maia hora grátis ou em frações de uma hora com um custo de £2 por dia, sem qualquer caução.

Para já, estas bicicletas só se encontram disponíveis na zona do Parque das Nações, e só funcionam das 7h às 24h. A EMEL prevê a sua expansão gradual para toda a cidade de Lisboa. Segundo se lê no sítio da empresa, o objetivo é “espalhar estações de bicicletas Gira, um pouco por toda a cidade: pelo Eixo Marginal, o Eixo Benfica-Braço de Prata, o Eixo Central, Olivais, a Circular Exterior do concelho e, ainda, o eixo Alcântara-Luz.”

Não existe, porém, informação sobre a possibilidade de virem a estar disponíveis 24 horas por dia. Estas bicicletas não podem ser usadas por menores, mesmo que acompanhados por adultos – até porque só é possível desbloquear uma bicicleta por app, ou seja, por utilizador.

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