A chegada da EMEL veio dividir o bairro e os seus moradores entre os que podem estacionar na zona 037 e nas imediações e aqueles que, vivendo fora do novo perímetro tarifado, terão a vida ainda mais dificultada. Sem direito a selo de residente, muitos verão os escassíssimos lugares disponíveis no bairro ser ainda mais cobiçados por quem insiste em vir de carro para o centro de Lisboa e não pagar estacionamento. Uma enorme dor de cabeça. Por isso, também eles querem ter parquímetros à porta de casa. Assolada pelas queixas, a EMEL vai agora propor à Câmara Municipal de Lisboa o alargamento da zona.

 

 

Texto: Samuel Alemão

 

 

Para aqueles que vêm de outras zonas e ali querem estacionar o carro, é uma má notícia. Mas para quem reside no Bairro das Novas Nações – que popularmente continua a ser conhecido como o Bairro das Colónias –, nos Anjos, o início da entrada em funcionamento dos parquímetros da EMEL e da respectiva fiscalização, a 1 de Junho, estão a ser encarados de formas opostas. E a causar grande ansiedade junto de moradores e comerciantes de um bairro já, há muito, conhecido pela grande dificuldade para se estacionar o automóvel. Isto porque a nova zona de lugares tarifados – que inclui uma bolsa só para residentes – deixou de fora uma parte desta área da freguesia de Arroios.

 

Na verdade, a nova bolsa de estacionamento, que alarga a já existente zona 037 da EMEL, é bem vasta. Atravessa o troço central da Avenida Almirante Reis – desde a Rua Andrade, no Intendente, até à Praça do Chile – e abrange toda uma área que inclui partes significativas dos Anjos (freguesia de Arroios), mas também algumas áreas da freguesia da Penha de França. É delimitada pelas ruas Maria e de Moçambique, Praça das Novas Nações, Rua Ilha Príncipe, Rua Cidade Cardiff e Rua Cidade Liverpool (estas já no chamado Bairro de Inglaterra). Dentro deste perímetro, as ruas de Moçambique, Newton, Ilha de São Tomé e Poeta Miltonestrão reservadas aos residentes. E o problema apontado pelos moradores excluídos surge, precisamente, por causa da delimitação.

 

Como em qualquer zona de estacionamento tarifado, os que residem dentro dela têm direito a estacionar livremente, através da atribuição de um dístico comprovativo dessa condição a troco de pagarem 12 euros por ano. Esses moradores estão manifestamente satisfeitos, pois deixarão de sentir a pressão de quem ali estaciona por ser “à borla”. Os restantes terão de meter moeda no parquímetro, se o quiserem fazer. O que se aplica a qualquer pessoa que more mesmo ao lado dos limites da zona – ainda que esta termine a meio de uma rua, como acontecerá agora na Forno do Tijolo. Muitos dos que estavam habituados a dar voltas e mais voltas aos quarteirões dos Anjos e, em particular, do Bairro das Colónias, em busca de lugar para estacionar, passarão a ter a vida muito mais complicada.

 

Se já era difícil encontrar lugar, pior ficará para os excluídos pelo alargamento da zona 037, pois as possibilidades de o conseguir dimunirão substancialmente. “Os parquímetros acabam a 20 metros da minha porta, então eu não tenho direito a dístico e, claro, se quiser estacionar no resto do bairro – que não tem lugar, mas tem estacionamento pago -, é só pôr a moedinha”, queixa-se Rita Pereira, residente na Rua Timor, situada mesmo ao lado da Praça das Novas Nações e, por isso, já do lado de fora da nova fronteira. “Não tenho direito a estacionar no meu bairro, na minha freguesia, porque a EMEL decidiu que não pertenço à zona por eles desenhada”, lamenta-se.

 

No Bairro das Colónias, tal como no resto dos Anjos, o parqueamento automóvel é cronicamente problemático. Trata-se de uma zona muito central da cidade e densamente povoada, além de ser território repleto de empresas e instituições. Sendo das poucas áreas do coração da capital onde o estacionamento ainda não se encontrava tarifado – sendo livre, portanto -, foi até aqui muito procurada por todos aqueles que insistiam em se aproximar do centro da capital em automóvel particular. Muitos estacionavam o carro onde conseguiam, aproveitando os lugares deixados vagos às primeiras horas da manhã por moradores que também utilizam viatura própria para se deslocarem para o trabalho. Tanto assim era que o bairro chegou a constar de uma lista com“alguns espaços que escaparam ao ‘bombardeamento’ de parquímetros”.

 

Esse “regime liberal” tem tido óbvias consequências sobre o número de lugares disponíveis. Mesmo depois do horário de trabalho, quando os que não são residentes do bairro se vão embora, a situação não melhora – até porque regressam, entretanto, os que ali moram. “Cheguei, uma vez, a ter de dormir dentro do meu carro, porque perdi mais de uma hora às voltas e não conseguia encontrar onde o arrumar”, conta Rita Pereira, que se sente frustrada com a alternativa que lhe foi proposta pela funcionária da EMEL que a atendeu. “Disse-me que teria de arrumar entre a minha rua, a Cabo Verde, a Heliodoro Salgado, ou na Penha de França e Sapadores”. Estas áreas continuarão sem estacionamento tarifado.

 

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E essa é, em grande medida, uma das razões para o descontentamento. “O problema reside no modo como tudo isto está a ser organizado. Ou bem que se abrangiam todos estes quarteirões ou, então, se deixava tudo como estava. Porque o que vai suceder é que se cria, junto aos limites exteriores desta nova zona da EMEL, uma pressão ainda maior para se encontrar lugares de estacionamento, quando eles já nem existem. Vai ficar tudo ainda mais desorganizado”, criticam Augusto Fortunato e a mulher, Paula Magalhães, residentes na Rua de Macau. E fazem notar que se criará uma grave desigualdade dentro do mesmo bairro: “Os que moram na área tarifada, tendo selo, podem estacionar lá e aqui. Mas o inverso não sucederá”.

 

Também o comerciante João Carreiro, de 80 anos, se indigna com o novo regime de estacionamento. A tomar conta dos destinos da mercearia, localizada na esquina das ruas de Timor e de Macu, há já seis décadas, custa-lhe entender as razões por trás do desenho da nova bolsa de parqueamento pago. “Isto não faz nenhum sentido, vão cortar o bairro ao meio”, critica o merceeiro, que também vive na Rua de Macau. João não tem dúvidas que as dificuldades para estacionar ou fazer cargas e descargas aumentarão. “Vem cá tudo parar. Olhe, só aqui nesta rua, estão dois carros abandonados, a roubar lugar a quem precisa”, informa.

 

Questionada por escrito sobre esta questão pelo Corvo, a EMEL diz que, “em articulação com a Junta de Freguesia de Arroios e a Câmara Municipal de Lisboa”, vai “propor um alargamento da zona concessionada à gestão da EMEL a toda a freguesia, aumentando assim, mais uma vez, o número de residentes protegidos pela actuação da EMEL”. Até que isso suceda, explica Diogo Homem, responsável pela comunicação da empresa, a mesma “apenas pode atribuir cartões de residente aos residentes das artérias que vão efectivamente ser geridas pela EMEL e que só dessa forma podem estacionar gratuitamente na rua onde vivem”.

 

Na mesma resposta escrita, é explicado que a nova bolsa de estacionamento integrada na zona 037 faz parte de um conjunto de mais 5 mil lugares que, ao longo de 2015, a EMEL vai passar a gerir. “Nessa zona, a área que a EMEL vai agora começar a gerir é toda a área que anteriormente foi concessionada pela Câmara Municipal de Lisboa à gestão da EMEL, pelo que a EMEL não pode ultrapassar a fronteira da área que está definida”, diz o responsável. “Com o início da gestão da EMEL destas artérias, a EMEL está a proteger os residentes destes bairros, libertando lugares de estacionamento e afastando a área onde existe estacionamento desordenado do centro da cidade e da linha de metropolitano de Lisboa”, acrescenta.

 

  • Paulo Azevedo
    Responder

    E com toda a razão…

  • Tuga News
    Responder

    [O Corvo] Parquímetros apenas em algumas ruas dos Anjos estão a dividir e irritar os residentes http://t.co/4ndbVehual

  • Paula Magalhães
    Responder

    Uns são filhos, outros são enteados, para não dizer outra coisa…

  • Om Rita
    Responder

    Muito bom o artigo…A ver se alerta a EMEL e a junta para a gravidade do assunto!

  • C. Pereira
    Responder

    Entretanto, existem ruas “reservadas a residentes”, como a rua de Moçambique, que nem precisam de parquímetro nem de se preocupar….porque não são os direitis iguais para todos?!!!
    Que coisa mais estranha, esta (des)organização de estacionamento!!!!

  • Tom Davis
    Responder

    Concordo!

  • Nuno Almeida
    Responder

    é fácil em vez de ir mandar garrafas para o marques mobilizem-se e arranquem essa treta…

  • Noemia Ardisson
    Responder

    O mesmo se está a passar na zona do Desterro. Foram colocados parquimetros em todas as ruas circudantes, excepção feita a 3 ou quatro ruas, entre as quais a Rua Nova do Desterro que já antes tinha muitissmos prblemas de estacionamento devido à proximidade dos Hospitais existentes na zona. Com a implementação dos Parquimetros nas cercanias toda a gente que tinha carros que não utliza mudou-os dessas ruas para estas e quem vem trabalhar para a zona passou a procurar incessantemente as zonas n~

  • JAL
    Responder

    Acresce a isso lugares de cargas e descargas que são atribuídos sem limites de horas, vi o meu carro ser rebocado às 7:30, num lugar onde as lojas abrem ás 9 ou 10 horas, é mesmo andar á caça…, nem estes lugares os desgraçados dos moradores têm direito.

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