Parque infantil construído por privados gera desconfiança em São Domingos de Benfica

REPORTAGEM
Sofia Cristino

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VIDA NA CIDADE

São Domingos de Benfica

18 Maio, 2018

A creche Academia dos Miúdos vai construir um parque infantil num jardim público a poucos metros das suas instalações, em São Domingos de Benfica. Uma decisão que tem gerado várias críticas dos moradores, receando que o espaço verde se transforme num “recreio de uma escola particular”. Os habitantes da freguesia queixam-se ainda de não terem sido ouvidos pela junta de freguesia, de o projecto não ter sido levado a consulta pública e não perceberem em que condições foi realizada esta parceria público-privada. O mais surpreendente, dizem, é já existirem dois parques infantis nas redondezas “raramente utilizados”. Já a Junta de Freguesia afirma não entender a polémica gerada e garante que o projecto foi aprovado com “total transparência”. Acrescenta que vai ser a creche a financiar o equipamento de usufruto público. A obra avança este Verão e deverá estar concluída em Setembro. A directora da creche diz-se “estupefacta” com a reacção dos moradores.

“O que estão a fazer é completamente antidemocrático e uma gravíssima ofensa aos moradores, que deveriam ter sido consultados. O espaço público é dos cidadãos, não é propriedade de privados”, diz Miguel Pacheco, referindo-se à recente celebração de um protocolo entre a creche Academia dos Miúdos e a Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica para a construção de um parque infantil. Tal como este morador, são vários os que dizem não haver necessidade de mais um equipamento destes na freguesia, por já existirem dois, um no Largo de Bonfim e outro junto ao café Califa, “raramente utilizados”. Há também quem lance dúvidas sobre as condições em que foi realizada esta parceria público-privada. O equipamento vai ser construído, este Verão, no jardim localizado a meio da Rua Mariano Pina, em frente ao Centro Social Paroquial Calhariz de Benfica, e será custeado pela creche. Terá aproximadamente 220 metros quadrados e será aberto a toda a comunidade. Mas há quem não esteja convencido quanto à utilidade do mesmo.

As queixas começaram a surgir no passado dia 7 de Maio, quando a junta de freguesia anunciou na sua página do Facebook que São Domingos de Benfica ia ter um novo parque infantil. Nos comentários deixados na rede social, é visível a indignação dos moradores. “Algum esclarecimento sobre o que querem dizer com parceria? Assim à primeira vista mais parece que é o recreio da creche”, escreve Miguel Vasconcelos Rodrigues. “Parece-me que é uma parceria que só vai beneficiar a escola privada, com falta de espaço e que já em muito atrapalha a vida dos moradores. Vamos transformar este espaço verde no recreio de uma escola particular? “, questiona Margarida Lopes.

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É neste recanto verde que deverá nascer o parque infantil

Ouvido junto ao jardim por O Corvo, António Carvalho diz que “o verdadeiro problema” não está na construção deste equipamento, mas no autor do mesmo – uma entidade privada. “Não é normal, porque não é a creche que gere o espaço público e não sabemos que protocolo assinaram. Será que o contrato é perpétuo? Senão for, quais serão as consequências, quando acabar?”, questiona. Uma vez que a manutenção e a limpeza desta infraestrutura serão da responsabilidade da Academia dos Miúdos, os moradores sentem os seus espaços comuns “invadidos”. “Voltámos ao tempo do salazarismo, as cidades do Norte da Europa pertencem aos cidadãos e aqui são da câmara municipal e dos privados e os cidadãos que se lixem”, acrescenta Miguel Pacheco.




 

Luís Pinto Sousa, 54 anos, ex-morador de São Domingos de Benfica, acusa a junta de freguesia de não estar a fazer “uma boa avaliação” das necessidades daquela zona. “A Junta devia ter uma maior percepção da população que existe aqui. O parque não é uma grande ideia porque não há casais jovens com filhos”, diz. Eduardo Amaral, 52 anos, a viver numa das torres de prédios que circunda o jardim, partilha a mesma opinião. “Não chegam a viver dez miúdos nestes prédios, a maioria das pessoas são idosas. Não se justifica a construção de um parque porque não há crianças, é uma despesa que não faz sentido”, considera.  Já António Amaro, 79 anos, diz que as crianças só aparecem quando vêm visitar os avós, como é o caso do seu neto, sublinhando, também, que não se vê miúdos por ali durante a semana.

 

 

Outro dos lamentos de quem por ali passeia é o estado de abandono do jardim e a existência de muitos dejectos de cães. “Isto é um sanitário. Há muitas pessoas a passearem os cães e ninguém limpa o cocó dos próprios animais. Hoje, só está limpo porque a junta de freguesia esteve cá ontem a limpar”, conta Eduardo, enquanto chama o seu companheiro de quatro patas. Também Óscar Fernandes, 73 anos, sente que o espaço verde poderia estar melhor cuidado. “É um sítio de dejectos e as crianças não vêm para aqui brincar, porque está tudo sujo. O jardim está mal estimado e não sei se o parque é boa ideia, porque as crianças já não vão para a rua”, observa.

 

Rosa Lopes, habitante na zona, diz que a utilização dos dois parques infantis já existentes na freguesia “está longe de estar esgotada”. “São muito pouco frequentados, é raro ver lá alguém. O grosso dos moradores da zona são pessoas de meia idade”, explica. Rosa Lopes acredita, ainda, que esta intervenção vai contribuir para a “destruição de um espaço de respiração entre prédios com o argumento de servir uma creche privada, maioritariamente frequentada por crianças que não residem na zona”. “Decidir levianamente sobre alterações em espaço público, sem atender a especificidades locais, não me parece a melhor forma de agir”, critica.

 

O proprietário de um café ali perto, que não quis ser identificado, assiste ao movimento do jardim todos os dias e diz não ter dúvidas. “Esta zona é muito calma e está completamente abandonada, quando vejo lá alguém são moradores a passear os cães, normalmente de meia idade ou idosos”, explica, acrescentando que entram muitas folhas para dentro do seu estabelecimento e, por isso, receia que, com a construção do parque infantil, a limpeza seja “ainda mais” descurada.

 

Helena Barros, eleita pela CDU para a Assembleia de Freguesia de São Domingos de Benfica, diz que não se opõe à construção do parque infantil desde que este seja de usufruto público. O membro da assembleia considera, ainda, que esta não é uma prioridade da freguesia. Mas, uma vez que não vai ser a mesma a financiar o projecto, não vê entraves à sua concretização. “Nos outros dois parques, no Califa e em Bonfim, as crianças têm de atravessar a estrada para irem brincar. A Academia dos Miúdos considerou que este seria um parque mais seguro por estar a poucos metros da creche”, explica.

 

João Dias, com o pelouro do Espaço Público na Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica, diz, em declarações a O Corvo, não entender a polémica gerada em torno da construção da infraestrutura infantil. O membro da junta garante que nenhuma árvore vai ser abatida, adaptando-se os vários equipamentos à organização arbórea do local. “Foram os próprios moradores que se queixaram do estado de abandono deste lugar. Houve muita gente a pedir um chamariz para o jardim ter mais vida”, garante. O membro da Junta de Freguesia assegura, ainda, que o projecto foi aprovado em Assembleia de Freguesia, a 20 de Março, numa sessão pública com “total transparência”. “A creche vai apenas financiar um equipamento que vai ser de usufruto público, não vimos necessidade de levar o projecto a consulta pública”, afirma.

 

 

Relativamente ao facto de já existirem dois parques infantis na freguesia, João Dias diz que estes são insuficientes, porque existem muitas crianças em São Domingos de Benfica, onde existe um grande número de escolas básicas. Além disso, salienta, “nos outros parques, as crianças têm de atravessar a rua e o parque vem, assim, responder a mais uma necessidade que não está colmatada”. Quanto à possibilidade de o parque infantil vir a ser ocupado por adolescentes e jovens à noite, como alguns moradores se queixaram, João Dias diz que esse argumento não faz sentido, uma vez que, se não foram para o jardim até agora, não irão quando houver um parque infantil. “Com este parque, os moradores terão oportunidade de encontrarem-se e conviverem mais. Quanto mais conseguirmos pôr as pessoas na rua, melhor”, conclui.

 

Também a directora da Academia dos Miúdos, Magda Paulino, diz estar “estupefacta” com as reacções dos moradores. “A nossa ideia sempre foi criar um espaço para as famílias conviverem. A necessidade de construir um parque infantil surgiu depois de constatarmos que, em dias de muito sol, os avós e os pais das crianças tinham de ficar com elas dentro das nossas instalações a brincar. Não vemos nenhum problema nisso, mas achamos que devem ir para a rua e estar em contacto com a natureza”, explica.

 

Além disso, diz ainda, há avós que não conseguem deslocar-se até aos outros dois parques infantis circundantes. “Muitos não atravessam a Estrada de Benfica até ao parque junto ao Califa, é muito longe para eles. O outro parque infantil está muito degradado”, esclarece.

 

Magda Paulino diz que a ideia de financiar a infraestrutura decorreu da constatação da incapacidade da Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica de assumir esse encargo. “A junta não tinha orçamento e oferecemo-nos para custear o parque, porque já é uma vontade de há muito tempo”, explica. A Academia dos Miúdos existe há 16 anos naquela freguesia e, neste momento, tem 150 crianças, sendo que “120 a 130 são, seguramente, da freguesia”. “99% dos pais das nossas crianças moram cá”, garante.

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COMENTÁRIOS

  • Antipedofilo e São Domingos não quer corruptos
    Responder

    Nunca mais se vai embora esses nojentos da junta freguesia de São Domingos de benfica

  • carlos dias
    Responder

    “não vimos necessidade de levar o projecto a consulta pública”, afirma.”

    Claro que não viram porque essa canalha acha que é dona de tudo e que a opinião de quem vota neles não merece ser levado em conta…

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