A contestação promete voltar, depois de enterrada por mais de uma década. Começaram esta semana os trabalhos de sondagem dos terrenos da Praça do Príncipe Real, com o objectivo de preparar o projecto de construção de um parque de estacionamento subterrâneo naquela zona – que deverá ter quatro pisos e capacidade para 300 viaturas. As máquinas de uma empresa especializada em estudos geológicos têm estado a fazer perfurações em três pontos distintos da praça, nos limites do jardim, tendo-se mesmo deparado com cablagens enterradas. Mesmo ao lado da área a ser avaliada, sob o espaço verde, encontra-se o Reservatório de Água da Patriarcal.

O grupo Amigos do Príncipe Real já manifestou, no seu blogue, o forte descontentamento pelo aparente regresso de um projecto surgido em 2001, era João Soares (PS) o presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Na altura, a ideia de construir um parqueamento debaixo do chão – com um formato em L para assim evitar danos de maior no jardim e suas árvores, bem como no reservatório, onde existe uma galeria de exposições – foi bastante contestada por moradores e grupos ambientalistas. O que, juntamente com um parecer negativo do então Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR), que alegava potenciais riscos ambientais e patrimoniais durante a obra, contribuiu para suspender a sua execução.

Meses depois, João Soares – que garantira não querer avançar contra a vontade dos moradores – perderia as eleições autárquicas para Pedro Santana Lopes (PSD). Mas o intento de prosseguir com o projecto da empresa Esli, pertencente ao grupo Emparques, manter-se-ia. Tal era assumido publicamente, em Agosto de 2002, pelo então novo vice-presidente da autarquia, Carmona Rodrigues. “A obra não toca em nada, nem no reservatório, nem nas árvores, nem sequer na praça. E hoje em dia há formas de executar este tipo de obras sem afectar as imediações”, dizia Carmona, na altura, ao jornal PÚBLICO. A contestação popular, porém, manteve-se e não se avançou com o planeado.

Certo é que a liderança social-democrata da autarquia acabou em 2007, com a convocação de eleições intercalares e a chegada de António Costa (PS) à presidência da câmara. E já em Julho de 2012, o então vereador da Mobilidade, Nunes da Silva – que cessou funções em Outubro passado -, admitia também em declarações ao PÚBLICO vir a repescar o projecto abandonado uma década antes. Hipótese que decorreria da constatação da necessidade de suprir a falta de estacionamento na zona compreendida entre São Bento e o Princípe Real. Se, afinal, se optasse por construir neste local, Nunes da Silva assegurava que o jardim seria integralmente preservado. Mais nada foi dito sobre o projecto, entretanto. Até que agora, tudo leva a crer, se prepara para ser retomado.

Uma possibilidade recebida como “um choque” por aqueles moradores, como José Calisto, que no incío da década passada se mobilizaram contra o projecto. A confirmar-se a construção do parque, diz o membro do grupo Amigos do Príncipe Real, trata-se de “um enorme desrespeito pela vontade das pessoas que lutaram contra a construção do estacionamento”. “Na altura, conseguimos uma forte mobilização, fizemos inúmeros debates e iniciativas com grande participação, lançámos um abaixo-assinado subscrito por mais de duas mil pessoas. É óbvio que as pessoas não querem o parque ali”, diz José Calisto, lembrando as características únicas do espaço verde.

O morador lamenta mesmo que se persista em fazer obras que põem em perigo a conservação do mesmo. Não esquece os “maus-tratos a que o jardim tem sido sujeito”, nos últimos anos, nomeadamente “o arranque de cerca de 60 árvores, no âmbito da intervenção patrocinada pelo vereador dos espaços verdes, Sá Fernandes”. Por isso, José Calisto promete retomar a luta do início deste século, caso se avance mesmo com a construção do parque de estacionamento. “Se insitirem em ir contra a vontade das pessoas, trata-se de uma atitude vergonhosa. É claro que nos vamos mexer”, promete, sem concretizar ainda quais as acções de protesto a encetar.

Num artigo colocado, na quarta-feira, no blogue dos Amigos do Príncipe Real, escreve-se que tal projecto “significaria o golpe de misericórdia no já tão degradado e enfraquecido jardim, além de fazer perigar, senão destruir, o valiosíssimo e único património mundial da rede da Mãe d’Água que, partindo do reservatório central, estende os seus braços subterrâneos para as vertentes Norte e Sul do então Alto da Cotovia, actual Praça do Príncipe Real”. Intitulado “Deixem o Príncipe Real em Paz!”, o texto diz que a construção “é um absurdo contra-producente na medida em que ao oferecer mais lugares de estacionamento tal irá atrair ainda mais veículos para a já tão congestionada zona, num ciclo vicioso imparável”.

 

Texto: Samuel Alemão

  • Paulo Bastos
    Responder

    Para dar cabo do resto.

  • JoãoPedroPincha
    Responder

    Buraco a buraco, Lisboa melhora? http://t.co/y74DsV2cA1

  • Rosinda Carvalho
    Responder

    Não !!!!!! Please !!

  • Claudia Arriegas
    Responder

    CONTRA

  • simao
    Responder
  • Joaquim Figueiro
    Responder

    Porque não a criação de uma petição publica que fosse definitivamente contra mais este disparate?

  • Manuel Ferreira C
    Responder

    CONTRA!!!

  • Jorge
    Responder

    Vergonha!!!
    Se a requalificação fez o o que fez então nem quero imaginar o que poderá acontecer ao que resta!

  • Cíntia Diná R. Abreu
    Responder

    Mas esta gentalha não pára?

  • Gonçalo Freitas
    Responder

    Este António Costa é uma autêntica vergonha como presidente de câmara!!!
    Já não basta o que está a fazer na zona d cais do sodré, agora vem destruir o príncipe real…

  • José
    Responder

    Sou a favor, do novo parque de estacionamento.
    Sou contra o lixo nas ruas.
    Sou contra aos buracos na estrada.
    Sou contra á calçada solta.
    Sou contra aos graffitis, tags.
    ETCCCC

    • filipe
      Responder

      apoiado,o resto é conversa….e falta de visão.

  • oliveira martins
    Responder

    A Praga automóvel/imobliário

  • oliveira martins
    Responder

    Sempre a praga imobiliário, automóveis e eventos e muito barulho…para disfarçar a solidão…

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