Parque das Nações é a “melhor freguesia” para se viver na Grande Lisboa, mas nem todos o sentem

REPORTAGEM
Sofia Cristino

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URBANISMO

Parque das Nações

23 Novembro, 2018

A proximidade com o rio Tejo, as vastas áreas ajardinadas, a segurança e os bons acessos colocaram a freguesia do Parque das Nações no primeiro lugar das melhores freguesias para se viver na Grande Lisboa, num estudo feito recentemente por um portal imobiliário. O aumento do turismo e a consequente degradação das zonas verdes, porém, estarão a prejudicar o quotidiano dos moradores. Com mais gente a circular no bairro, os habitantes exigem mais limpeza e policiamento, duas áreas que apontam como deficitárias. E há problemas mais antigos. As escolas públicas são insuficientes e a construção de um centro de saúde, prometido há vinte anos, continua por cumprir. Na zona de habitação municipal, os moradores sentem-se isolados e dizem que não está a ser dada a mesma atenção a toda a freguesia. “Apesar de pertencermos a uma freguesia de ‘bem’, nem tudo está bem”, observa uma habitante. O presidente da Junta de Freguesia promete requalificar as ruas, plantar árvores e instalar ciclovias nos bairros camarários. O autarca assegura ainda que, no próximo ano, o Parque das Nações contará com mais equipamentos de limpeza.

Quando decidiu viver em Lisboa, Alexandre Firmino, 62 anos, não ponderava comprar casa noutra zona da cidade. “Vivo na Avenida D. João II, onde há muito movimento, e a 300 metros de casa tenho grandes áreas relvadas, um autêntico oásis. Viajo muito e esta comunhão, entre a agitação da cidade e a tranquilidade da natureza, encontra-se em poucos lugares do mundo”, elogia o brasileiro a morar no Parque das Nações há quatro anos e meio. A observação faz jus à conclusão de um estudo recentemente realizado pelo portal imobiliário Imovirtual, segundo o qual o Parque das Nações é a melhor freguesia para se viver na Grande Lisboa. De acordo com a pesquisa, a segurança, os acessos, as lojas e os restaurantes são os principais pontos fortes desta zona. E a maioria dos habitantes ouvidos por O Corvo concorda.

 

Num passeio junto ao rio Tejo, não é difícil perceber porque esta parte da cidade é tão procurada para morar. Vê-se muitas pessoas a correrem e a caminharem, outras a observar a imensidão do rio ou a fazerem meditação nos jardins, e muitos casais jovens a passearem com os filhos recém-nascidos. Além dos moradores, todos os dias, passam por ali milhares de pessoas, vindas do Aeroporto Humberto Delgado para visitarem a capital e outras para trabalharem nas centenas de empresas instaladas na freguesia. Apesar da movimentação, os habitantes dizem encontrar sempre privacidade e momentos a sós com a natureza, tal é a densidade da área verde. “Vieram para cá várias empresas e há muito interesse das imobiliárias por esta zona, a mais cara de Lisboa. Recebo cartas em casa a proporem-me valores pelo meu apartamento. Apesar do excesso de pessoas, o som difunde-se, parece que está sempre silêncio e consegue-se um alheamento que não se alcança em mais nenhum sítio da cidade. Adoro viver aqui”, diz Carla Teixeira, 48 anos, moradora desde 2000, a meio de uma caminhada.

A quietude de que muitos moradores falam confirma-se ao longo do passadiço, até à Ponte Vasco da Gama, e pelos vários jardins que compõe uma grande parte do Parque das Nações. Há zonas onde se consegue ouvir apenas o som das gaivotas, isolado do restante ruído urbano, ficando para trás o reboliço sentido na zona comercial do Centro Vasco da Gama, nas esplanadas dos restaurantes junto ao rio, e nas grandes empresas tecnológicas e hotéis. Os habitantes elogiam ainda a proximidade dos serviços públicos, de espaços comerciais e de outras infra-estruturas fundamentais ao dia-a-dia. “Está tudo concentrado aqui, é muito fácil fazermos a vida só na freguesia. Se quisermos sair, também estamos muito bem servidos de transportes”, diz Lenea Campinho, 65 anos, moradora há oito anos no Parque das Nações. Alexandre Firmino tem opinião similar. “Passo muitos dias sem sair daqui, porque tenho tudo o que preciso em poucos metros”, conta o residente na Avenida João II. Os habitantes, que não se inibem de passear a qualquer hora do dia, elogiam ainda a segurança.

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Alexandre Firmino preza a rara "comunhão entre a agitação da cidade e a tranquilidade da natureza"

Há vinte anos, onde hoje vemos construções novas e condomínios privados, existia uma zona industrial abandonada. Nestes terrenos onde aconteceu a Expo 98 e nasceu uma parte nova de Lisboa, é difícil encontrar alguém que queira viver noutra parte da cidade. As únicas queixas apontadas estão relacionadas com a falta de manutenção dos espaços verdes e o aumento do turismo. A fruição do espaço público não é tão agradável, dizem, e piora aos fins-de-semana, com a chegada de mais turistas portugueses e estrangeiros. Alexandre Firmino diz partilhar o prédio com muitos apartamentos inscritos em Alojamento Local. “Preocupa-me muito a avalanche de turistas. Há imenso alojamento local no meu prédio e perturba-me no meu dia-a-dia, ao não conseguir entrar no elevador por estar lá um carrinho com toalhas de hotel, por exemplo”, critica.

 

Os moradores mais antigos, que se instalaram na freguesia após o fim da exposição mundial, dizem que a dissolução da Parque Expo, empresa criada em 1993 para organizar a Expo 98 e explorar a zona durante os anos seguintes, contribuiu para a degradação do espaço público. “A Parque Expo investiu muito na limpeza e, quando foi extinta, sentimos que não valeu de nada o esforço, piorou imenso. Há pouco tempo, o chão, em frente a uns restaurantes, abateu, e caiu uma árvore, mais à frente. As esplanadas dos restaurantes estão sempre sujas”, critica Lenea Campinho. A falta de limpeza das águas do rio e dos repuxos da Expo 98 também é reprovada por muitos residentes. “Foram detectadas bactérias nos vulcões de água e há pais muito preocupados porque os filhos brincam lá. Há muita poluição no ar e as águas paradas, como as da marina, e o próprio rio Tejo têm de ser limpos. Algumas pontes de madeira caíram, mas já compuseram”, conta Carla Teixeira.

 

Atrás da Gare do Oriente, construída na altura da Expo 98, umas escadas escondidas por muros altos levam-nos a várias habitações municipais. Ali, não se tem o Tejo aos pés, nem extensas áreas relvadas, e há um contraste bem visível entre as construções mais antigas e as surgidas depois da Expo 98. A freguesia mais recente do país, nascida a 8 de Novembro de 2012, juntou as novas urbanizações de classe média alta e alta com os bairros municipais, na zona poente. Criada de raiz, no âmbito da reorganização administrativa da capital, é filha de dois concelhos, Lisboa e Loures, e de três freguesias, Santa Maria dos Olivais, Moscavide e Sacavém. A mudança, relativamente recente, ainda leva alguns moradores a confundirem a designação da freguesia onde residem. “Para mim, é Santa Maria dos Olivais, vivo aqui há 52 anos, eu e a minha filha casámos na mesma igreja, são muitas recordações ainda associadas ao nome da antiga freguesia”, conta Aurora Leitão, 78 anos, moradora junto ao bairro de habitação social Quinta das Laranjeiras.

 


 

A também proprietária de uma mercearia inaugurada no mesmo ano em que se mudou para Lisboa, em 1966, viu a zona ribeirinha transformar-se à sua volta, embora considere que pouco se terá alterado nesta parte da cidade que pertencia à antiga freguesia de Santa Maria dos Olivais. “A freguesia está mais bonita, mas deste lado quase nada mudou. Os passeios só são limpos quando chove, podia estar mais asseada. Há restaurantes a fechar e muitas lojas abrem e encerram. Apesar de pertencermos a uma freguesia de ‘bem’, nem tudo está bem”, observa.

 

Uns metros acima, Graça Azevedo, 62 anos, reage, agitada, quando interpelada por O Corvo. “Para os ricos, a freguesia é melhor, certamente”, comenta, prontamente. A morar na Quinta das Laranjeiras há 24 anos, diz que a zona poente da freguesia não tem tido a mesma atenção que outras partes do Parque das Nações. “Não conheci realidades muito diferentes, por isso não posso criticar muito. No último ano, começaram a requalificar os jardins e as ruas, espero que continuem”, diz, enquanto toma café na Associação de Amigos e Idosos da Quinta das Laranjeiras.

 

Maria da Conceição Esgueira, 63 anos, moradora há 37 anos na Quinta das Laranjeiras, sente-se esquecida. “Esta freguesia tem muito prestígio, mas continuamos a viver isolados. A estrutura das portas da entrada, em rede, faz-nos sentir que vivemos em prisões. Até no jardim zoológico as jaulas são mais bonitas”, aponta. Dentro do prédio onde vive, diz que um homem faleceu num elevador, por este se encontrar avariado, há obras por terminar, canalização à vista e o pavimento está esburacado. “Disseram-nos que iam colocar um revestimento no chão, mas até hoje não fizeram nada. Sinto-me insegura. Por outro lado, também há pessoas que não estimam o que a Câmara de Lisboa lhes deu”, critica.

 

 

Conceição Dias, 72 anos, vive há 46 anos no bairro camarário e não está surpreendida com os resultados do estudo do Imovirtual. “É uma zona sossegada, nunca tive problemas. Toda a transformação, em volta, foi óptima, porque os jardins estão mais arranjados”, diz. Irina de Fátima, 68 anos, mudou-se para aquela parte da cidade há três décadas. “Quando vi o meu prédio em construção, tive logo vontade de morar aqui, e quando soube que vinha fiquei muito feliz. Temos transporte à porta de casa, muito comércio, enfim, tive muita sorte”, suspira. Vitória Silva, 44 anos, moradora desde 2012, partilha o mesmo sentimento. “Temos tudo aqui e ainda temos o rio Tejo a poucos metros, os portugueses queixam-se muito”, diz.

 

A presidente da Associação de Moradores A Cidade Imaginada – Parque das Nações (ACIPN), Célia Simões, diz não ter dúvidas da qualidade de vida da freguesia, mas afirma que ainda há muito a fazer para o Parque das Nações ser uma zona de excelência. “É o melhor bairro para se viver, sem dúvida, porque também teve, durante muitos anos, uma gestão privada e ainda estamos a beber um bocadinho dessa administração. Mas temos imensos problemas e, se não forem resolvidos, rapidamente torna-se um dos piores sítios”, diz. A falta de um centro de saúde, prometido há duas décadas, a carência de escolas públicas, a fraca manutenção e limpeza do espaço público e a degradação das zonas verdes são as principais queixas dos moradores. “Esta freguesia foi pensada de raiz, só tem vinte anos e, por isso, tem obrigação de ser a melhor. Há muita coisa, porém, que estava planeada que ainda não foi feita, o que está a estrangular a vida das pessoas”, critica.

 

A freguesia é uma das mais jovens de Lisboa, mas o crescimento da natalidade não tem sido acompanhado por um aumento dos equipamentos de ensino e de saúde. “Cada vez que nasce uma criança, é preciso registá-la num centro de saúde e há imensa gente que não tem os filhos inscritos porque esta valência não existe. Devemos ser das poucas freguesias do país onde existem mais escolas privadas e com mais falta de escolas públicas”, diz. A construção da segunda fase da Escola Básica do Parque das Nações é esperada desde 2010, e, segundo os moradores, continuam a haver muitos alunos a não conseguirem entrar neste estabelecimento de ensino. “Temos a empreitada de uma escola pendurada há anos. As escolas não dão respostas às necessidades que os pais consideram mínimas, e temos de recorrer aos privados”, diz Célia Simões, também mãe de uma criança que acaba de entrar no ensino primário. “No ano passado, na Escola Básica Vasco da Gama houve uma turma inteira que não teve aulas de inglês e chegou ao final do ano sem nota a esta disciplina, é gravíssimo”, conta.

 

 

A dirigente associativa considera que não tem sido dada a devida atenção ao espaço público e que, apesar de a freguesia ser considerada uma das mais seguras, evidencia sinais de vandalismo. “O Parque das Nações recebe eventos todos os dias. Se há mais gente a circular, deveria haver mais pessoas a limpar, mas também mais policiamento. Se a segurança não for garantida, vai haver uma maior degradação do espaço público. E há mobiliário urbano a ser vandalizado por falta de policiamento”, alerta. Há pouco tempo, a moradora também assistiu a um furto de bicicletas por um grupo de adolescentes perto do Altice Arena. “A polícia até foi rápida, mas não o suficiente para os apanhar. Se houvesse mais policiamento num sítio onde passa imensa gente, se calhar, teria sido evitado, a zona deveria ser mais vigiada”, sugere.

 

Figueiredo Costa, presidente da Associação de Moradores e Empresários do Parque das Nações, está preocupado com a falta de limpeza do espaço público, mas reconhece que o orçamento da Câmara de Lisboa é exíguo para responder à necessidade de manutenção da freguesia. Sem descurar os principais problemas do bairro, como a falta de escolas públicas e de um centro de saúde, o dirigente considera que as preocupações dos habitantes deveriam ser outras. “Na zona ribeirinha, está tudo por fazer. Já sinalizamos casos gravíssimos de falta de manutenção, no percurso da Torre Vasco da Gama ao Trancão. Se houver uma cheia, que medidas estão tomadas pela Protecção Civil? Não vejo ninguém a tomar as rédeas disto”, critica.

 

Ouvido por O Corvo, o presidente da Junta de Freguesia do Parque das Nações, Mário Patrício (PS), reconhece que a falta do centro de saúde e a paragem das obras na Escola Básica do Parque das Nações são problemas da freguesia, mas, adianta, as duas empreitadas deverão estar concluídas nos próximos dois anos. O Parque das Nações terá, ainda, uma nova escola do 1º ciclo, com jardim de infância, da responsabilidade da Câmara Municipal de Lisboa (CML), no início do próximo ano.

 

 

A Junta de Freguesia do Parque das Nações acaba de lançar um concurso internacional para uma empresa de higiene urbana, que deverá começar a exercer funções no início de Janeiro do próximo ano. O autarca quer aumentar os meios mecânicos de higiene urbana, o número de equipamentos de aspiração dos passeios e espaços públicos e a limpeza de calçadas. “Queremos adoptar um serviço que se quer de excelência. Demos privilégio a mais equipamentos e mais modernos. Vamos ter uma freguesia mais limpa e mais bonita, dentro das nossas competências”, promete.

 

Mário Patrício considera que a freguesia à qual preside “é um lugar de eleição para se viver em Lisboa”, mas não deixa de tecer algumas críticas ao aumento do número de visitantes da cidade. “O lado negativo do turismo é sermos constantemente assediados por visitantes que vêm a concertos ou ao Oceanário de Lisboa, um dos equipamentos mais visitados da cidade. Tudo isto traz mais tráfego e a necessidade de reforçarmos equipas de higiene urbana, mas é a contingência de Lisboa estar na moda e ser um dos principais pontos turísticos da Europa”, diz. Se antes era fácil encontrar casa na freguesia com o metro quadrado mais caro de Lisboa, agora há cada vez menos imóveis desocupados. “É mais difícil encontrar um apartamento vago ou uma loja para alugar, é sinal que este território começa a estar consolidado”, afirma.

 

O autarca avança ainda que faz parte dos planos da Junta de Freguesia do Parque das Nações levar ciclovias à zona poente da freguesia, onde se encontra a habitação municipal do bairro, e plantar mais árvores. ”Vamos arranjar espaços há espera de intervenções há algum tempo e instalar um centro comunitário na Quinta das Laranjeiras, um projecto ganho no orçamento participativo do ano passado. Iremos concluir também uma intervenção começada no mandato anterior, na Rua Conselheiro Lopo Vaz”, promete.

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