O Ebano Collective está a intervir na Graça, com o objectivo de dar um sentido artístico a paredes degradadas e homenagear os vultos literários do bairro que viveram, deram o nome a ruas ou animaram o espírito do bairro com a sua presença.

 

Texto: Rui Lagartinho         Fotografias: David Kong

 

O Beco dos Peixinhos é um atalho para quem quer sair do bairro da Graça sem ter de se acotovelar no passeio estreito da rua principal que o cruza, com eléctricos à pinha de turistas e pequenas lojas que regurgitam os habituais fregueses, a um ritmo constante, de manhã cedo até ao entardecer.

O beco é, em contraste, um oásis de silêncio: um local de casas térreas velhas, prédios com fachadas degradadas, que se atravessam de forma anónima.

Este mês, porém, há obras no beco. Em cima de um andaime, a artista plástica Leonor Brilha cria numa parede um rendilhado semelhante ao dos lenços de namorados de Viana do Castelo, mas a preto e branco. A frase inscrita conta que “A casa não passava de uma gaiola e, ao bordar, a mulher portuguesa tecia as teias do silêncio.”

Leonor diz que se inspirou nas mulheres fortes que estão ligadas à história do bairro, a feminista Angelina Vidal, as poetisas Florbela Espanca, Sophia de Mello Breyner Andresen e Natália Correia, entre outras, para escrever “este manifesto que conta uma história de silêncios, que procura reflectir sobre a condição da mulher que se esconde atrás destas paredes.”

 

graáa (11)

 

Leonor Brilha foi um dos sete artistas convidados pelo Ebano Collective para intervir no Passeio Literário da Graça, de um projecto que, explicam, pretende que “as fachadas degradadas sejam transformadas em páginas públicas, fragmentos de crónicas da comunidade, memória dos seus artistas e poetas, das suas vivências presentes e passadas, deixando à etnografia e portanto à comunidade voz protagonista na narrativa destas histórias colectivas. “

Por isso, não se surpreenda se, de repente, as popularmente denominadas patas de elefante – as plataformas de cimento que costumam impedir o estacionamento anárquico – se encherem de palavras de Sophia, entre outros exemplos.

 

graáa (7)

 

O projecto da Ebano, financiado pelo programa municipal BIP ZIP, que intervém em bairros e zonas prioritárias da capital e que conta com o apoio da Galeria Municipal de Arte Urbana, estará concluído neste início de Junho, a tempo das festas da cidade.

Uma das suas principais intervenções está, no entanto, já finalizada. E, ao contrário das outras, por estar mais exposta, tem uma visibilidade mais imediata. Assistimos aos retoques finais do trabalho da dupla de grafiteiros Pariz e MrDheo, que se inspiraram nos murais revolucionários e nas imagens clássicas de líderes de massas como Estaline ou Mao Tsé Tung, aqui mascarados de heróis de banda desenhada.

 

graáa (29)

 

“Estamos numa travessa atravessada por centenas de crianças que estudam na Voz do Operário ou crescem no jardim infantil em frente. Pareceu-nos óbvio que seriam eles o nosso público mais fiel para esta ideia de revolução através do imaginário clássico dos heróis da Banda Desenhada”, dizem.

 

graáa (28)

 

Quando trabalham juntos, Pariz e MrDheo dão a essa associação o nome de ARMU-YAMA, uma expressão que aprenderam na Serra Leoa e que significa caminhar juntos – e que inclui o trabalharem em equipa, do princípio ao fim. Deixamo-los entregues às suas tarefas: “Enquanto um traça, o outro enche”.

  • Luís Paixão Martins
    Responder

    RT @ocorvo_noticias: Papel de parede nas ruas da Graça – http://t.co/QACnkszOxq

  • Hugo Adelino
    Responder

    Carlos Santos

  • Antonio Pinto Rodrigues
    Responder

    Não consigo ver as fotos

  • Nuno Nunes
    Responder

    Também não. As imagens não estão a abrir.

  • Um Graçista
    Responder

    As intervenções estão muito boas, mas numa delas, podiam ter recolhido as latas de tinta utilizadas na criação da mesma, e não tê-las deixado no espaço verde por baixo, encostadas à parede, ou farão parte da obra?

Deixe um comentário.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

O Corvo nasce da constatação de que cada vez se produz menos noticiário local. A crise da imprensa tem a ver com esse afastamento dos media relativamente às questões da cidadania quotidiana.

O Corvo pratica jornalismo independente e desvinculado de interesses particulares, sejam eles políticos, religiosos, comerciais ou de qualquer outro género.

Em paralelo, se as tecnologias cada vez mais o permitem, cada vez menos os cidadãos são chamados a pronunciar-se e a intervir na resolução dos problemas que enfrentam.

Gostaríamos de contar com a participação, o apoio e a crítica dos lisboetas que não se sentem indiferentes ao destino da sua cidade.

Samuel Alemão
s.alemao@ocorvo.pt
Director editorial e redacção

Daniel Toledo Monsonís
d.toledo@ocorvo.pt
Director executivo

Sofia Cristino
Redacção

Mário Cameira
Infografías 

Paula Ferreira
Fotografía

Margarita Cardoso de Meneses
Dep. comercial e produção

Catarina Lente
Dep. gráfico & website

Lucas Muller
Redes e análises

ERC: 126586
(Entidade Reguladora Para a Comunicação Social)

O Corvinho do Sítio de Lisboa, Lda
NIF: 514555475
Rua do Loreto, 13, 1º Dto. Lisboa
infocorvo@gmail.com

Fala conosco!

Faça aqui a sua pesquisa

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com