Pecado Capital

 

Detesto quando me fazem isto. É quase tão mau como atendermos o nosso telefone e, do outro lado, uma voz questionar: “Quem fala?” Mas como “quem fala”?! Afinal, de quem foi a iniciativa de estabelecer contacto? A quem é que cabe a responsabilidade de se identificar? Poucas coisas me deixam epidermicamente furioso como essa entrada a pés juntos a abrir a conversa… Poucas, mas há algumas. E uma delas é a velha frase dos agentes de segurança na estrada quando nos abordam num jeito inquisitivo/taxativo. “O senhor condutor sabe por que o mandei parar?…”

 

Juro que, na maior parte das vezes, nem consigo perceber o ponto de interrogação. Fixo-me naquelas reticências maquiavélicas, na convicção profunda de que todos carregamos culpas e a visão de uma farda nos levará a confessar de imediato o que quer que seja que nos pesa na alma. É claro que, salvo alguma cavalada monumental praticada nos últimos 30 segundos, nenhum condutor faz a mínima ideia das razões que levaram o agente a mandar parar a sua viatura. Muito menos quando o carro da frente – por acaso, um táxi – também encostou.

 

Desta vez, reconheça-se, a introdução não teve o tom melífluo de outras no passado. Ou será a idade que nos ensina a levar as coisas menos a peito. Talvez. Achei que era uma operação Stop e, desta vez, calhara-me na rifa a gincana de mostrar documentos (uma gincana, sim, porque nunca me lembro onde tenho a papelada e acumulo no porta-luvas envelopes da seguradora com vários anos…) e, eventualmente, soprar para um alcoolímetro.

 

Há quem diga – para meu espanto e alguma consternação – que nunca soprou “no balão”. Como é possível? Pela minha parte, creio-me merecedor de uma estátua à porta das instalações do fabricante… Já fui controlado de madrugada, depois do almoço, durante a tarde, depois de jantar. Escapei uma vez porque, sendo 7h00 da manhã e estando o meu cabelo ainda molhado do banho, o agente optou por me mandar seguir. Durante anos, não havia operação Stop em que não me mandassem soprar no balão. E, já agora, aproveito para avisar que dispenso as piadas fáceis sobre as eventuais características etílicas do meu “fácies”…

 

Entretanto, os anos foram passando e a tendência atenuou-se. Não só passei a ser menos vezes parado, como os contactos com a autoridade se viraram mais para questões legais como: “Por que é que não tem o selo do carro colado no pára-brisas?” A passagem de um mini-desportivo para uma carrinha (e com cadeirinha no banco de trás) poderá explicar muita coisa. Mas, ainda assim, não é antídoto cem por cento eficaz:  as raquetas de STOP, os apitos e as mãos enluvadas continuam a sair-me ao caminho com inusitada regularidade.

 

Sim, longe vão os tempos em que uma paragem junto ao jipe da GNR para perguntar o caminho terminou com a inevitável apresentação de documentos (foi em Mértola), ou uma inversão de marcha às duas da manhã numa estrada deserta acarretou inibição de conduzir (Estádio Nacional). Mas não perdi completamente o jeito para o contacto regular e interactivo com os agentes da autoridade rodoviária.

 

Ainda assim, não estava preparado para isto. “O senhor condutor sabe por que o mandei parar?” Não, imagino que seja uma operação de rotina. “Nada disso. O senhor virou à direita na Tomás Ribeiro para a avenida Fontes Pereira de Melo e isso é uma manobra proibida.” Não, desculpe, viu mal; eu virei no semáforo abaixo, na Andrade Corvo. “Não foi isso que eu vi…”

 

Mau. Palavra contra palavra é coisa muito vista no trânsito. Mas aqui não é uma questão de vir a seguradora e resolver… Então em que é que ficamos? Noto alguma hesitação. O jovem agente está em Lisboa há pouco tempo. Consulta uma colega, que confirma a minha versão. Sou dispensado de outras formalidades e sigo. Tinha acabado de jantar. Acho que duas cervejas não é coisa que ultrapasse o limite legal. Mas, pelo menos desta vez, não tive de estar a soprar para um tubinho no meio da estrada.

 

 

Texto:  Luís Francisco       Ilustração: João Concha

 

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