O Palácio dos Condes de Lumiares, também conhecido como Cunha e Meneses, ao Bairro Alto, está há muito em ruína. Mas, em breve, será convertido num empreendimento imobiliário de luxo, oferecendo aos compradores “um retorno garantido sobre o investimento, nos três primeiros anos”. O The Lumiares Luxury Hotel Apartments aproveitará a fachada de um palácio cuja origem remonta ao século XVI. A mesma ainda existe graças à estrutura metálica que a sustenta há mais de uma década, pois o seu interior ruiu em 2003.

 

O projecto, que já se encontra em venda e pertence à empresa Quick&Positive, é da autoria dos arquitectos João Pedras e Hélder Cordeiro. E tem nos requerentes aos vistos dourados a principal clientela. O esqueleto daquele edifício de génese quinhentista – mas cujo essencial remonta ao século XVIII – é bem conhecido de quem costuma passar no troço da Rua de São Pedro de Alcântara compreendido entre o jardim com o mesmo nome e o Largo Trindade Coelho, através dos seus estreitíssimos passeios.

 

Nos últimos anos, as bases de betão dos espigões metálicos de sustentação da fachada têm sido contornadas por milhares de noctívagos, nas noites de sexta-feira e sábado, evitando assim o contacto com os carros que se afunilam naquela estreita artéria. No final do século passado, era ali que funcionava o bar Gingão. Trata-se também do primeiro prédio com que se depara quem suba pela Calçada da Glória, a pé ou de funicular. Um cenário desolador, que deverá mudar dentro de pouco tempo.

 

O projecto agora apresentado, e que está a ser promovido como “um investimento imobiliário seguro” e “adequado para compradores com autorização de residência de visto dourado e outros compradores com residência não habitual”, será constituído por 53 apartamentos decorados e com as tipologias loft, T0, T1 e T2. O conjunto funcionará como um hotel de 5 estrelas, com estacionamento subterrâneo, “spa, ginásio, duas lojas de marcas de luxo e um bar cosmopolita no topo do edifício, o Alto-Bar, com vistas extraordinárias sobre Lisboa”.

 

O The Lumiares – que, de acordo com a informação disponível no sítio da promotora internacional Bridgehead Capital, deverá estar concluído em Janeiro de 2017 – terá em todos os seus apartamentos “uma estrutura de gestão profissional para os proprietários, bem como de comodidades e níveis de serviço da mais alta qualidade para os hóspedes”.

 

Além da garantia de retorno sobre o investimento feito, nos três primeiros anos, e do “pacote de mobiliário” e decoração, os compradores terão ainda a possibilidade de uso pessoal das fracções que adquiriram durante períodos até seis semanas por ano. Trata-se, no fundo, mais do que um local para viver, de um projecto de investimento imobiliário, funcionando como um híbrido de unidade hoteleira de luxo e de apartamentos do mesmo género.

 

No sítio promocional do The Lumiares, é sublinhada a garantia da segurança do investimento, explicando-se que “os fundos dos compradores serão mantidos numa conta de depósito e apenas serão libertados se forem cumpridas as condições de projeto/construção”. Diz-se ainda tratar-se de um negócio “elegível para isenção de IMI e IMT”, sujeito a decisão da administração fiscal de Lisboa.

 

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A estrutura metálica sustentado o palácio já faz parte da paisagem do Bairro Alto.

 

O Palácio dos Lumiares começou a ganhar uma dimensão mais aproximada à volumetria actual depois de ter sido adquirido, em 1703, por Dona Leonor Tomásia de Távora, viúva do Conde de Lumiares, a qual contratou com o mestre de obras Manuel da Silva, responsável pela Igreja de Santa Engrácia. Em 1875, o imóvel foi vendido e saiu da esfera da família. Ao longo do século XX, foi sendo usado para habitação, serviços e comércio, mas sempre em degradação.

 

Na viragem para o actual século, encontrava-se já devoluto, tendo sofrido uma enorme derrocada em 2003, ao ponto de apenas se ter mantido a sua fachada. O projecto de transformação num hotel vem de 2007, mas esbarrou nas dificuldades financeiras dos anteriores proprietários, que o venderam aos novos donos em Abril de 2014. O projecto agora prestes a arrancar recebeu o visto camarário em Setembro passado.

 

Texto: Samuel Alemão

 

  • Tuga News
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    [O Corvo] Palácio em ruína no Bairro Alto será empreendimento para vistos dourados http://t.co/OCzEo5SFDN

    • Antonio
      Responder

      É melhor que seja para vistos dourados do que uma merda podre que ali estava a mil anos e sempre com risco de sermos atropelados.

  • Pedro Osório Graça
    Responder

    Anedótico!

  • Raquel Alves
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    Gingão, Gingão não deixas de ser a p* da confusão!

  • José
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    Fico feliz por esta noticia.
    Seja para quem for, o importante é a sua requalificação.
    A FORMA COMO A NOTICIA É DADA, É MALICIOSA E RACISTA.

  • Carlos Garcia
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    “The Lumiares” Lol. Há mesmo muito acéfalo com dinheiro.

  • Nuno Rebelo
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    RT @ocorvo_noticias: Palácio em ruína no Bairro Alto será empreendimento para vistos dourados – http://t.co/iCZQH98cGV

  • Joao Quadros
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    RT @ocorvo_noticias: Palácio em ruína no Bairro Alto será empreendimento para vistos dourados – http://t.co/iCZQH98cGV

  • Johnny Saraivadas
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    RT @ocorvo_noticias: Palácio em ruína no Bairro Alto será empreendimento para vistos dourados – http://t.co/iCZQH98cGV

  • Nuno Rebelo
    Responder

    esperemos que os míticos Estádio e Esteves não sejam afectados.

  • Natividade Barata
    Responder

    Nasci(foi mesmo a minha maternidade) e cresci no Bairro Alto. Fui criada no meio de Jornais e Jornalistas( Diário Popular/Diário de Lisboa/Século/Republica e por aí fora.Vi-os morrer sem hipóteses de recuperação. Assisti à recuperação de muitos palácios e edifícios`, transformados em condomínios ou hotéis,restaurantes,bares e lojas. Que importa o que importa é não deixar arruinar o Bairro o “Meu Bairro”. Tinha colegas de escola que moravam nesse “Palácio” e por essa razão sei como se foi degradando (começou nos anos 60). Por isso meus senhores já que as Câmaras Municipais não têm força monetário para isso, que haja alguém que o faça. “senhores das Câmaras” isenção de IMI e IMT? São concessões que não entendo! Mas… quem não sabe fazer concessões , vai vendendo o património aos estrangeiros e criando mais impostos para os Nacionais “até dói ler estes disparates feitos por grandes economistas”.
    Já agora só uma pergunta, o “gingão” bar? aquilo sempre foi uma “bar/tasca” da mais velha profissão do mundo e no seu aspecto mais degradante. Cuidado com os pontos de referência!

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