A Mouraria será o território de mais uma experiência no grande laboratório social que é a cidade. Desta vez, patrocinando o projecto Café Suspenso, inspirado numa ideia nascida na cidade italiana de Nápoles, na década de 1990. Em comum com esse caso particular, a nova iniciativa lisboeta tem a intenção de usar a solidariedade como arma de combate aos efeitos de crise económica, sobretudo no que ela tem de mais elementar: o direito à alimentação. Trata-se de ajudar quem precisa, da forma o mais desinteressada possível. Assim, qualquer cidadão poderá pagar uma refeição ligeira aos que dela necessitem, mantendo o seu anonimato.

 

No fundo, trata-se de organizar os ímpetos solidários, que são abundantes e dispersos. E a ideia é muito simples. Com alguma frequência, vê-se gente a pedir que lhe paguem uma sandes ou uma sopa. Por vezes, há quem o faça mesmo – todos já o presenciamos, pelo menos uma vez. Então, um grupo de três amigos “com vontade de fazer algo, mas sem saber bem o quê” achou que seria excelente aproveitar essa boa-vontade e transformá-la num sistema de crédito: quem vai um café ou restaurante pode deixar pago em avanço um sopa, uma sandes, um galão, um café ou outro bem alimentício. Tal contributo é registado numa ardósia para que quem necessite o possa consumir.

 

O projecto de crédito alimentar benemérito, já testado pelos seus dinamizadores num café de Sintra, vai agora começar a funcionar em pleno no coração da capital, na cafetaria da Associação Renovar a Mouraria (ARM) – onde será apresentado oficialmente na tarde de sábado (16 horas). E deverá ser alargado a uma parte significativa dos estabelecimentos que fazem parte da Rota das Tasquinhas promovida pela associação, que rondam as quatro dezenas. “Já tínhamos pensado em fazer algo do género e, por isso, quando nos propuseram esta ideia, aceitámos logo. Penso que a maior parte deverá aderir”, diz ao Corvo Inês Valsinha, presidente da direcção da ARM.

 

E, na verdade, a ideia tem todas as condições para se expandir, pois o Café Suspenso nada mais exige aos estabelecimentos que deixar funcionar a roda solidária. No momento em que recebem o pagamento adiantado de quem o quiser fazer, anunciam-no no quadro que estará à vista de todos. Mais tarde, quem chega sabe o que está disponível para consumir de forma gratuita. “O único investimento que fazemos é no quadro e no giz, mas neste caso da ARM até o estamos a reciclar”, explica Mário Barros, um dos três mentores do projecto e que espera que uma conhecida empresa de cafés venha a oferecer as ardósias para os estabelecimentos que venham a aderir.

 

“Queremos que esta ideia se expanda”, diz, optimista, Mário, informático de 45 anos, que está a implementar esta rede juntamente com a namorada, de 30 anos, professora de inglês e de dança, e uma amiga da mesma idade, formada em direito, mas com mestrado em solidariedade social. “Sempre me interessaram muito as questões sociais, mas tenho algum cepticismo em relação às instituições”, afirma Mário, admitindo, porém, que se o Café Suspenso resultar acabará por se afirmar como algo perene.

 

Parte essencial ao bom funcionamento deste sistema informal de solidariedade é a confiança. Tanto que os seus dinamizadores estarão atentos a quem possa, eventualmente, abusar da boa-vontade de quem está disponível a pagar a refeição do próximo. Mário Barros confia, por isso, no conhecimento que as associações como a ARM têm do terreno para garantir que ninguém coma de borla sem necessitar de tal ajuda. “Conhecemos bem este território e, se alguém o tentar fazer, será avisado que não está a agir de forma correcta”, afirma Inês Valsinha.

 

Texto: Samuel Alemão                 Fotografia: Carla Rosado

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