Os últimos clubes de vídeo de Lisboa

REPORTAGEM
Samuel Alemão

Texto

Paula Ferreira & Samuel Alemão

Fotografia

VIDA NA CIDADE

Cidade de Lisboa

2 Julho, 2015


De ramo de actividade florescente a negócio quase extinto foi um ápice. A evolução tecnológica e o fechar de olhos aos downloads ilegais colocaram os clubes de vídeo no escaparate das coisas obsoletas. Ou quase. São duas as lojas que ainda permitem alugar DVD na capital portuguesa. Uma em Arroios e outra no Parque das Nações. Quem lá vai fá-lo por grande afeição, não apenas ao cinema, mas também ao contacto humano proporcionado por estas lojas. Que são o oposto de uma sociedade cada vez mais online, desmaterializada e impessoal. E, todos os meses, ganham novos sócios.

Está longe de ser agitado o dia-a-dia da Videoteste, loja que é um dos dois últimos clubes de vídeo da cidade de Lisboa e, certamente, também um dos derradeiros do país. Ao final da tarde de uma quarta-feira, Carlos Lima, 52 anos, vai arrumando capas de DVD ou dando uma olhada ao jornal em cima do balcão da loja situada na Rua Cavaleiro de Oliveira, perto da Parça do Chile, em Arroios.

Uma televisão de um canal de cinema passa um filme norte-americano, que muito provavelmente fará parte das cerca de 30 mil referência existentes neste videoclube nascido em 1990. “As perspectivas não são muito animadoras, é verdade. Mas ainda estamos cá, a lutar, até porque temos clientes que nos são fiés, ao fim deste anos todos, e fazem questão de continuar a cá vir”, diz o comerciante.

Ele e a mulher, Isabel, 54, atendem com simpatia e cumplicidade cada pessoa que ali entra. Faz todo o sentido falar de atendimento personalizado, claro está. Afinal, são apenas algumas centenas os clientes – cerca de seis centenas, embora não tenha sido avançado ao Corvo o número de alugueres mensais. Muitos desses são clientes de longa data. Mas outros até aderiram nos últimos anos.

ocorvo_02_07_2015_01

Paula Ferreira, Foto

É o caso de Judite Fortes, 50 anos, que ali entra e se dirige de imediato ao escaparate, onde retira a referência numérica de um determinado filme, como se soubesse de antemão o que pretendia alugar. À vista de todos, os títulos estão organizados por duas categorias principais, os que custam 1,5 euros por aluguer e os de 2,5 euros, para as longas-metragens que são considerados “novidades”.

“Prefiro ver filmes desta forma. Não gosto de descarregar coisas da internet e nem quero pagar aqueles serviços da televisão por cabo. Assim, vir à loja e levantar o filme é que faz mais sentido para mim. Não quero outra coisa”, afirma a cliente da Videoteste, que ali vai há cinco anos. Quando Judite Fortes começou a ser sócia, já os tempos áureos deste ramo de negócio tinham passado e sentia-se uma forte quebra. A partir daí, foi sempre a descer e bem rápido. Tanto que se chegou ao actual cenário, em que os que vão ao clube de vídeo alugar um filme parecem fazê-lo por razões mais próximas de uma militância cinéfila, social e política, escapando à generalização da oferta online e por cabo.

ocorvo_02_07_2015_02

Paula Ferreira, Foto

O ritmo acelerado a que decorreu o declínio e quase extinção dos clubes de vídeo pode bem ser visto como sintomático da rapidez na mudança de paradigma de entretenimento doméstico. Em Portugal e nas sociedade mais desenvolvidas. De repente, o recurso a este ramo de negócio tornou-se aparentemente obsoleto, em virtude das opções à disposição de quem quer ver filmes em casa – que garantem, precisamente, o nem sequer ser preciso sair de casa.

Mais que os serviços de video-on-demand disponibilizados pelas empresas de telecomunicações, foi a net incluída nos pacotes por elas comercializados quem contribuiu para dar o golpe final nos clubes de vídeo. Sobretudo porque o download ilegal de filmes passou a ser, nos últimos anos, o padrão de comportamento generalizado. Tanto que as autoridades parecem ter baixados os braços, impotentes e fingido não perceber o que se passa.

Essa é também a convicção de Carlos Lima, o dono da Videoteste. Foi a partir de 2009 que ele começou a sentir um forte declínio na sua actividade. A razão? “Simples: a internet”. Para o comerciante – que, quando começou o seu negócio, há um quarto de século, havia já trabalhado num estabelecimento semelhante, na zona da Graça -, a internet “é o inimigo público número um”. “Se houver um restaurante que oferece refeições de borla, os outros estabelecimentos vão-se ressentir. E como as autoridades nunca fizeram nada a sério para combater os downloads ilegais, chegámos a este estado”, lamenta.

ocorvo_02_07_2015_03

Paula Ferreira, Foto

Se, antes, o alvo a abater era a pirataria ilegal dos DVD, a partir do momento em que as grandes larguras de banda associadas ao pulular de sítios de partilha de ficheiros tornaram fácil o descarregamento dos mesmos, os esforços do sector para combater uma prática cada vez mais disseminada rapidamente esmoreceram. “O que estava a acontecer tornou-se inevitável, a partir do momento em que se fechou os olhos às partilhas de ficheiros”, desabafa ao Corvo Nuno Pereira, o último presidente da Associação do Comércio Audiovisual de Obras Culturais e de Entretenimento de Portugal (ACAPOR).

A entidade representativa dos interesses dos empresários do sector acabou por cessar a sua existência no Verão passado, depois de se vergar ao peso de uma batalha desgastante e, afinal de contas, infrutífera. No início de 2011, a associação entregou na Procuradoria-Geral da República uma queixa contra dois milhares de internautas que partilhavam ficheiros de filmes e música.

Mas, no ano seguinte, aquele órgão do Ministério Público acabava por arquivar a referida denúncia, considerando que era legal tal actividade. “Torna-se impossível combater contra o gratuito”, considera Nuno Pereira, lamentando o “drama social” provocado pela perda de empregos associada à hacatombe de encerramentos de negócios inviáveis. Também ele teve que fechar o seu, em Santo António dos Cavaleiros (Loures) e dedicar-se por inteiro à advocacia.

Com toda a gente a “sacar filmes da net” ou a vê-los através dos serviços on-demand dos operadores de cabo, poderá assemelhar-se aos olhos de muitos como um exotismo quixotesco aquilo que se observa na Videoteste ou, mais ainda, na Cineteka, no Parque das Nações. Instalado sob o mesmo tecto que um café – com o qual divide as despesas e para onde se mudou no início do ano passado -, este último clube de vídeo tem um actividade que se pode considerar nada despicienda.

ocorvo_02_07_2015_04

Gonçalo Peres e a funcionária Anabela Andrade, da Cineteka

Entre “600 a 700” associados garantem entre três a quatro milhares de alugueres mensais. Algo que Gonçalo Peres, o dono da empresa, explica com a qualidade do serviço da Cineteka, associada a um muito particular gosto dos associados pelo contacto social proporcionado pela ida a uma loja real e não virtual – isto apesar do negócio online, baseado na distribuição postal, também não correr mal.

“Gosto mais de aqui vir, porque os filmes deste videoclube são excelentes e variados, há uma escolha criteriosa e, além disso, aprecio o acto de vir cá e conversar com as pessoas, beneficiar de um atendimento personalizado”, explica Filipa Matos, 38 anos, que ali vai no fim de tarde de uma quente segunda-feira. Associada há muitos anos, diz poder alugar ali obras que não encontra em qualquer outro sítio.

A possibilidade de descarregar filmes na internet ou requisitá-los nos pacotes de cabo são coisas que nada a seduzem. Vai ali com muita regularidade, mesmo para alugar filmes para os filhos. Filipa confessa-se “um pouco supresa” com o facto de a generalidade das pessoas terem virado costas aos clubes de vídeo. No seu entender, trocaram a certeza do contacto pessoal pela indistinta frieza do online.

ocorvo_02_07_2015_05

Pouco depois de Filipa sair, chega Luís Isidoro, 43 anos. Dirige-se ao balcão onde a funcionária dá seguimento ao seu pedido. As razões para continuar a preferir este serviço são semelhantes. “É mais prático assim, gosto mais de ter este contacto pessoal com os funcionários da loja. E, além disso, o catálogo é bastante grande e bom, podemos encontrar aqui filmes que não existem noutros locais”, diz.

Gonçalo Peres, um programador informático rendido à cinefilia, faz ele mesmo a selecção dos títulos a integrar o catálogo. Vai lendo as críticas do que sai para o mercado e tomando decisões de compra. “Por regra, a escolha tem muito que ver com o meu gosto, embora, claro, também tenha que comprar aquilo que as pessoas vão querer ver”.

Surgida em 2003 apenas como um clube de vídeo online, naquilo que foi um modelo de negócio inovador em Portugal, a Cinteka reclama-se um “videoclube de culto para cinéfilos exigentes”. No seu catálogo, existem os grande êxitos de bilheteira, é verdade, mas também o que é procurado por conhecedores e elogiado pela crítica e, muitas vezes, é ignorado pela maioria dos espectadores.

Gonçalo Peres, um programador informático rendido à cinefilia, faz ele mesmo a selecção dos títulos a integrar o catálogo. Vai lendo as críticas do que sai para o mercado e tomando decisões de compra. “Por regra, a escolha tem muito que ver com o meu gosto, embora, claro, também tenha que comprar aquilo que as pessoas vão querer ver”.

Na verdade, algumas vezes – apesar de não muitas -, a Cineteka até diponibiliza filmes de que Gonçalo não gosta mesmo nada. Afinal, isto é um negócio e tem de garantir pelo menos a rentabilidade necessária, cobrindo os salários de duas funcionárias. Mas o empresário prefere destacar “o contacto com o cliente”. Em 2006, com o negócio online a correr bem, surgiu a possibilidade de ter uma loja física. Era materialização de um desejo antigo, de alguém que cresceu afeiçoado aos clubes de video.

A loja, de grandes dimensões, na qual se contava uma cafetaria, abriu a poucas dezenas de metros do Casino de Lisboa. Mas depois de, em 2012 e 2013, se ter começado a sentir um descréscimo, optou-se por se fazer uma mudança para as actuais instalções, mais pequenas e económicas, sobretudo porque são partilhadas com o café Tastyfood.

“A minha ideia, para além de explorar um negócio, foi sempre a de ajudar a promover o comércio local. Porque um negócio deste género dinamiza muito as deslocações dentro do bairro. E isso é muito importante”, salienta Gonçalo Peres. Numa época em que tudo ameaça tornar-se frio, racional, massificado, impessoal, desmaterializado e, se calhar, demasiado eficiente, há quem comece a valorizar o retorno a certas práticas.

Um pouco como as pessoas que continuam a comprar Vinil e até CD, em detrimento do anódino mundo dos ficheiros digitais, quem vai a um clube de vídeo quer sentir um pouco de calor humano. “São rituais que são importantes. Há aqui quase como que um serviço público, até pela qualidade e abrangência da nossa oferta”, diz Gonçalo.

Apesar do decréscimo da actividade causado pela crise, Gonçalo diz que foi a grande mudança de hábitos de consumo dos últimos anos quem alterou tudo. “Houve uma mudança muito grande na forma como as pessoas dispendem o seu tempo. A oferta cultural aumentou imenso e a internet passou a ocupar um papel central. A pirataria também se revelou como uma coisa inevitável. Por tudo isso, o mercado reduziu. Mas há espaço para tudo”, comenta o dono da Cineteka, salientando o facto de, entretanto, algumas das pessoas que se foram afastando nos últimos anos terem começado a regressar ao videoclube.

Para os atender está lá Anabela Andrade, 48, que voltou a ser funcionária num videoclube, após um interregno de muitos anos. Foi em 1989 que ela começou a trabalhar na VideoExpress, clube de video então existente no Centro Comercial das Amoreiras. “Aquilo era uma coisa enorme, tínhamos imensos clientes e até entregávamos os filmes em casa das pessoas através de uma equipa de 12 estafetas motorizados”, recorda. Agora, é tudo mais calmo, o movimento é bem menor, mas quem ali vai terá, com certeza, um espírito de quase militância que não existia noutros tempos.

ocorvo_02_07_2015_06

Mas isso, claro, pode não chegar para manter este negócio. Que o diga Júlia Silva, 70 anos, que criou o clube Duoquatro, na Estrada da Luz, em 1988. Depois de muitos e bons anos, a clientela começou a escassear a meio da primeira década deste século. Mas, ainda assim, dava para aguentar. Até se ter tornado insustentável. A evolução tecnológica aliou-se à crise económica para dar o golpe que a levou a encerrar a actividade em torno do aluguer de DVD, no início de 2014. Desde essa altura, prepara o encerramento de actividade da loja, que também é papelaria. Os DVD têm estado em promoção, numa campanha de “pague um, leve dois”. Há que saldar a existência, para fechar a porta.

“Para tudo há um limite”, desabafa Júlia, cansada de remar contra a maré. Que, no caso, tem muito que ver com a evolução tecnológica, mas mais ainda com a forma como a generalidade das pessoas dela passou a tirar partido. “Aderiu-se a uma certa ligeireza, faz-se tudo de forma imediata, porque está acessível, as coisas são assim”, lamenta, antes de comentar, referindo-se aos smartphones: “As pessoas passaram a ter a sua vida na palma da mão. As coisas passaram a ser imediatas, já não há esmero no que se faz”. O videoclube Duoquatro, que chegou a ter seis mil sócios, orgulhava-se de ter “filmes de qualidade”, como toda a colecção distribuída pela Atalanta Filmes, do produtor Paulo Branco. “Não tínhamos aqui filmes do Steven Seagal”, orgulha-se Júlia.

ocorvo_02_07_2015_07

Talvez não tão criterioso nas escolha do catálogo, mas lutando todos os dias para não ter o mesmo desfecho que o Duoquatro, Carlos Lima, da Videoteste, coincide com Júlia Silva na convicção de que toda esta mudança associada à alteração de paradigmna tecnológico tem muito de questão moral. “Tem tudo a ver com a formação e a educação. Tenho aqui famílias associadas, que cá vêm há anos, e cujos pais transmitem aos filhos a ideia de que isto tem um valor económico”.

Além disso, existe cada vez mais gente, diz Carlos, a aperceber-se da perda de contacto humano, consequência da avassaladora abrangência do online. Talvez por isso, tanto a Videoteste como a Cineteka, os dois únicos videoclubes ainda em actividade em Lisboa, continuam a fazer inscrições de novos sócios, todos os meses. Quem sabe se, qual comércio vintage, também este ramo de comércio não voltará a estar na moda?

Cineteka
Parque das Nações / Alameda dos Oceanos (Largo dos Arautos),
Lote 2.06.05, Loja 6 (Café Esplanada Tastyfood)
Tel: 218947025

Videoteste
Rua Cavaleiro de Oliveira, 39
Tel: 218123582

MAIS REPORTAGEM

COMENTÁRIOS

  • JoãoPedroPincha
    Responder

    RT @ocorvo_noticias: Os últimos clubes de vídeo de Lisboa – http://t.co/lRrt8UHXbs

  • Tania Fortuna
    Responder

    Fazia sentido colocarem os contactos de cada videoclube no final do artigo.

    • O Corvo
      Responder

      Tânia, os links para as páginas dos videoclubes estão no texto, graficamente identificados a azul. Obrigado.

    • Tania Fortuna
      Responder

      Ok. No entanto uma coisa não invalida a outra 🙂

      • O Corvo
        Responder

        Pois não. Pronto, colocámos os contactos no final do artigo. Obrigado

  • Ana Paula Cardoso
    Responder

    Até o próprio hábito de se ver filmes se vai perdendo… São séries, vídeos no YouTube, etc Tudo é bem mais rápido e menos assimilado…

  • Rita Sofia Meneses
    Responder

    Os últimos clubes de vídeo de Lisboa http://t.co/LwWemUc8z3

  • Catarina Banza
    Responder

    RT @ocorvo_noticias: Os últimos clubes de vídeo de Lisboa – http://t.co/lRrt8UHXbs

  • Luis Ferreira
    Responder

    Olá! Vosso artigo está incorreto. Existe uma loja de aluguer de dvd’s em Campo de Ourique,na rua padre francisco. Cumprimentos!

Deixe um comentário.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

O Corvo nasce da constatação de que cada vez se produz menos noticiário local. A crise da imprensa tem a ver com esse afastamento dos media relativamente às questões da cidadania quotidiana.

O Corvo pratica jornalismo independente e desvinculado de interesses particulares, sejam eles políticos, religiosos, comerciais ou de qualquer outro género.

Em paralelo, se as tecnologias cada vez mais o permitem, cada vez menos os cidadãos são chamados a pronunciar-se e a intervir na resolução dos problemas que enfrentam.

Gostaríamos de contar com a participação, o apoio e a crítica dos lisboetas que não se sentem indiferentes ao destino da sua cidade.

Samuel Alemão
s.alemao@ocorvo.pt
Director editorial e redacção

Daniel Toledo Monsonís
d.toledo@ocorvo.pt
Director executivo

Sofia Cristino
Redacção

Mário Cameira
Infografías 

Paula Ferreira
Fotografía

Margarita Cardoso de Meneses
Dep. comercial e produção

Catarina Lente
Dep. gráfico & website

Lucas Muller
Redes e análises

ERC: 126586
(Entidade Reguladora Para a Comunicação Social)

O Corvinho do Sítio de Lisboa, Lda
NIF: 514555475
Rua do Loreto, 13, 1º Dto. Lisboa
infocorvo@gmail.com

Fala conosco!

Faça aqui a sua pesquisa

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com

Send this to a friend