São oito as retrosarias que ainda existem na Rua da Conceição, na Baixa Lisboeta. Comerciantes tenazes, que resistiram ao êxodo do centro da cidade e aos novos hábitos sociais e de consumo. Travam agora uma batalha decisiva com a especulação imobiliária. Mas há, entre eles, quem ache que as coisas até não estão assim tão mal. Têm mesmo aparecido novos clientes.

 

 

Texto: Rui Lagartinho            Fotografias: Paula Ferreira

 

 

A 5 de Novembro de 1760, cinco anos depois do grande terramoto de Lisboa, um diploma do rei Dom José define o nome das ruas do quadrilátero que se estende entre a Praça do Comércio e o Rossio, o coração da zona que ficará conhecida como Baixa Pombalina. Sobre a Rua da Conceição determina-se que nela se alojem “os mercadores de logens de retroz”. Foi, por isso, conhecida, durante algum tempo, como “rua dos retroseiros”.

 

Foi o único mester que perdurou. Se hoje já não existem – pelo menos visíveis ao nível das lojas de rua – nem sapateiros, nem douradores, nem correeiros nos arruamentos com o mesmo nome, os retroseiros resistem na Rua da Conceição, dois séculos e meio depois no seu acantonamento.

A hegemonia deste tipo de comércio naquela rua, porém, está já diluída. São menos de uma dezena as retrosarias abertas, entre lojas de recordações, restaurantes e prédios em ruína, alguns entretanto entaipados, para abrirem com a habitual cara lavada a fim de um investidor hoteleiro o comprar.

 

 

É a imagem de marca de toda a Baixa. Mas à Rua da Conceição, também conhecida como “rua dos eléctricos” – por nela passar o icónico 28 -, ainda é possível ir comprar botões, sejam eles “portugueses ou italianos, em pele, plástico, pedras, pérolas”, como exemplifica, numa lista não exaustiva, Alfredo Ricardo, 75 anos, há mais de sessenta a trabalhar na retrosaria Alexandre Bento.

 

 

Enquanto conversa com O Corvo, do outro lado do balcão, é atendida uma cliente habitual, que aqui veio hoje à procura de alamares – um compromisso entre o fecho e o botão – para um sobretudo. “Quando venho à Rua da Conceição, tenho a certeza de que vou encontrar o que procuro”, diz-nos a cliente, satisfeita.

 

Trabalham nesta retrosaria três pessoas, o negócio é familiar e resistir é a principal preocupação. Na semana em que o Corvo foi à loja, o gerente tinha recebido uma carta do senhorio com uma proposta de renegociação da renda. “Veremos até onde posso ir”, conclui, encolhendo os ombros.

 

 

Num passeio pelas retrosarias da Rua da Conceição, tem-se também a sensação de viajar a outra época. As placas art déco com o nome do fundador e a data de abertura poderiam estar num museu de artes gráficas. O mobiliário de madeira escura, com centenas de gavetas onde se guarda aquele botão tão especial que merece quase um cofre forte, também ajuda a construir o charme. “Infelizmente, há gavetas que levamos muitos anos sem abrir e, quando o fazemos, é uma festa”, diz-nos Alfredo Ricardo.

 

Na Arqui Chique, onde Maria Francisco Creces trabalha desde 1981, respira-se ainda o ar de um tempo eternamente feminino, nos remates dos ferros forjados da decoração ou nas cores suaves com que as paredes estão pintadas. O regresso do interesse pelo tricô fez com que as lãs ganhassem espaço de destaque na loja, em detrimento dos acessórios que as modistas cobiçavam.

 

 

Modas, bordados e plumas

 

“A casa que mais barato vende, mais sortido tem e onde toda a gente vem” é, desde 1912, o lema da firma Adriano Coelho. A equipa de seis empregados de Guilherme Pais tenta manter o espírito em alta. Os elásticos e os cordões de seda são os campeões de venda. O facto da loja ter caído no goto das costureiras dos teatros talvez ajude a explicar um ambiente menos soturno que nas suas congéneres. “A crise do teatro de revista levou-nos alguns clientes, mas foi daqui que saíram muitos dos apliques dos vestidos usados shows de travestis do Bar Finalmente”, orgulham-se.

 

 

A chegada de clientes mais institucionais e com grandes necessidades de guarda-roupa, como a Companhia Nacional de Bailado ou o Teatro Nacional Dona Maria II, vieram equilibrar a balança.

 

Carlos Cruz, da retrosaria J. Roda da Silva, está menos optimista. “Não há volta a dar. Com a partida das empresas da Baixa, e agora com a venda de quarteirões inteiros a fundos imobiliários, os tempos não são sorridentes. Somos um lindo museu a céu aberto, os turistas adoram. Entram, fotografam, mas compram muito pouco”, queixa-se.

 

Carlos Cruz, atrás do balcão da retrosaria J. Roda da Silva

 

Uma das peças mais fotografadas nesta rua-museu é, de certeza, a máquina registadora da retrosaria Nardo. Nela, pede-se, delicadamente, ao cliente que verifique o montante que aparece no visor. Hugo Barreiros divide-se entre as duas lojas. Contraria a ideia de haver menos fornecedores nacionais de material, um facto referido por outros lojistas.

 

 

“O que existe é uma mudança na industria tradicional. Podem ter desaparecido grandes firmas, mas surgiram outras com outra dimensão e a apontar a outro tipo de procura, mais artesanal, mais sofisticado. São tempos diferentes. Há um grande interesse por estas lojas, há até novos clientes. Agora, estamos no coração da Baixa, uma zona muito cobiçada pela especulação”, constata.

 

 

 

 

 

  • João Barreta
    Responder

    Comércio e Cultura?
    ou
    Comércio ou Cultura?

  • Tania Fortuna
    Responder

    Para contrariar esta tendência abriu uma retrosaria perto da Praça do Chile, na rua Carlos Mardel 🙂

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