É nas ruas estreitas do Chiado e nos recantos da Baixa que mora grande parte dos alfarrabistas da cidade, espaços repletos de livros e vazios de presença humana. Ainda assim, na Lisboa das aventuras amorosas de Bocage, das tragédias de Eça e da dor existencial de Pessoa começam a surgir modos alternativos de aceder a livros em segunda mão. E estão a conquistar leitores de todas as idades.

 

Texto: Rita da Nova

 

Cenário pouco comum numa livraria: uma jovem de 19 anos entra, dá uma volta junto às prateleiras, passeia os olhos pelas lombadas, chega-se ao balcão, tira um exemplar intacto de “O Grande Gastby” da mala e, com algum embaraço na voz, pergunta: “tenho aqui este livro que comprei o ano passado na Feira do Livro, mas não gostei dele. Posso vender-vos? Ou trocar por outro?”. A presença por detrás do balcão diz que sim, “claro que sim”. É certamente um cenário pouco comum, mas não na Fyodor Books, onde episódios destes acontecem várias vezes ao dia.

 

Joana Cidades decide então trocar F. Scott Fitzgerald por um livro de Doris Lessing, um presente para a irmã, “que gosta assim de livros românticos com fins trágicos e de pessoas a morrer por amor”, explica a estudante, com um ligeiro revirar de olhos. O preço dos livros é o que mais a atrai nesta loja, onde vem quando não sabe bem o que ler a seguir. “Por 5€ podemos levar dois livros, quando numa livraria normal um livro não nos fica por menos de 15. Conseguimos tanto títulos novos como clássicos que já nem se vendem nas livrarias”, conclui.

 

A fórmula é mais ou menos constante: um livro custa 3€, se levarmos dois pagamos 5 e se optarmos por levar cinco, a conta fica por 10€. Contudo, há alguns exemplares à venda por 50 cêntimos ou 1€. Não interessa quantas mãos já gastaram as folhas destes livros ou quantos pares de olhos lhes consumiram as palavras. Aqui o objectivo é mesmo esse: pô-los a circular, dar-lhes o máximo de leitores possível.

 

“Abrimos a Fyodor achando que havia por aí milhares de livros parados que podiam ser vendidos, trocados e lidos”, explica Paulo Ferreira, de 29 anos. Mais do que um dos mentores do projecto, é também ele um leitor compulsivo. Querem tirar os livros do pedestal de objecto sagrado e intocável e consideram que “temos o direito de experimentar livros, de não gostar deles e de os trocar por outros”. Por isso, Paulo acha que os leitores devem entrar na Fyodor como quem vai a uma loja de roupa: sem nenhum título em mente, sem listas de livros que não encontram em mais lado nenhum; apenas com vontade de pesquisar, folhear e descobrir.

 

“As pessoas perceberam logo que não somos um alfarrabista normal e isso vê-se porque a malta nova não vai a alfarrabistas, mas aqui vem”, acrescenta. O próprio espaço difere muito daquilo a que estamos habituados quando vamos comprar livros usados: a luz entra generosamente na Fyodor e, nas estantes brancas, apenas as lombadas dos livros servem de decoração – um padrão de cores que muda consoante os exemplares que vão sendo trazidos para a loja.

 

Fyodor4

 

O projecto só arrancou em Julho do ano passado, mas esta – na Avenida Óscar Monteiro Torres, no Campo Pequeno – é já a segunda casa da Fyodor Books. “Antes, estávamos na Calçada Nova de São Francisco e, embora fosse no Chiado, não era central e era muito escondido”, diz Paulo, adiantando que nesta zona entra mais gente e há mais pessoas a querer vender ou trocar livros.

 

Sara Rodrigues, de 27 anos, é a outra cabeça por detrás deste estabelecimento, cujo conceito foi inspirado naquilo que viram em viagens pela Europa e Estados Unidos. Juntos, Sara e Paulo percorrem feiras, vão a outros alfarrabistas e a casas de particulares, colocam anúncios nos jornais e na internet – tudo para arranjar livros sobre “todos os assuntos e mais alguns” com os quais possam revestir as paredes da loja. “E depois há histórias engraçadas, de gente a dizer que tem mil livros para vender e depois nem meia dúzia. Uma vez fomos até Carcavelos ter com um senhor que disse ter quinhentos livros. Arranjámos uma carrinha de mudanças e depois ele veio de lá com uma caixa de sapatos com meia dúzia lá dentro”, conta Paulo.

 

“Não enriquecemos com isto, mas calculo que, a longo prazo, possamos ter algum lucro”, diz, e adianta que, para além da vontade de se expandirem para outras zonas do país e para o estrangeiro, arrancaram recentemente com um projecto comum: uma editora com o mesmo nome da livraria.

 

 

Uma biblioteca “num sítio inusitado”

 

Foi durante um dos passeios matinais na companhia da cadela Xica que Alexandra Guedes, de 55 anos, reparou que haviam colocado uma cabine telefónica “daquelas vermelhas à antiga” na Praça de Londres. “Estava cá uma senhora a explicar como é que isto funcionava e comecei logo a ser uma utilizadora assídua”, revela com algum entusiasmo.

 

Mas não julgue o leitor que o Corvo voltou atrás no tempo, para noticiar o aparecimento da cabine telefónica. É que esta cabine em particular funciona como biblioteca e não como telefone público. “Queríamos uma biblioteca num sítio inusitado, que provocasse uma reacção nas pessoas”, explica Carlos-Moura Carvalho, do movimento de comerciantes da Avenida Guerra Junqueiro, Praça de Londres de Avenida de Roma, de quem partiu a iniciativa.

 

Objectivo cumprido, pelo menos a julgar pelo modo curioso como os transeuntes se aproximam do gigante vermelho que, por ser feito de pedra, precisou da ajuda de uma grua para ali ser posto. A biblioteca está aberta todos os dias entre as 9h e as 20h, sem que haja alguém a controlar a troca de livros. “Em Abril, quando expliquei que queria que fosse assim mesmo, para lançar o desafio de responsabilizar as pessoas e de promover a partilha, disseram-me logo que estava louco e que dali por uma semana os livros estavam todos desaparecidos”, conta.

 

Até agora, acrescenta Carlos, tem acontecido precisamente o contrário. “Os livros têm circulado imenso e cada vez temos mais. Tanto que, no feriado de dia 10 tivemos de fechar a cabine para podermos carimbar e seleccionar uma catrefada de livros que ainda estavam guardados.” Todo o trabalho relacionado com a manutenção deste depósito de livros – entre limpar, inventariar e organizar – está a cargo de quatro voluntários.

 

Alexandra Guedes troca livros pelo menos uma vez por semana e garante que o procedimento é “extremamente fácil”. Primeiro deixa-se um livro dentro de uma caixa assinalada com a etiqueta “depósito de livros” e só depois se deve escolher um outro exemplar que esteja nas prateleiras. Por fim, o leitor aponta o nome, contacto e os títulos dos livros (do que deixou e do que levou consigo) num caderno de registos, no qual já sobram poucas páginas em branco. “Sou muito curiosa, mas acontece que por vezes não leio os livros até ao fim. Quando gosto, chego a ficar com eles um mês. Não temos uma data limite para os devolver, mas temos de os trazer de volta”. Alexandra fecha a porta, como que para indicar que, pelo menos por enquanto, está despachada.

 

Cabine2

 

Carlos-Moura Carvalho estima que sejam cerca de cem os leitores assíduos, fazendo com que a cabine compense, em parte, o facto de não existir uma biblioteca municipal na freguesia do Areeiro. Na sua maioria são pessoas idosas e crianças, até porque nas prateleiras há dezenas de livros infantis. “Depois há dois utilizadores especiais que costumam vir aqui de óculos escuros e camisa às riscas, parecem mesmo os irmãos Dalton. Vêm cá buscar livros para vender na internet, por isso decidimos começar a carimbar todos os exemplares que aqui disponibilizamos”, conta.

 

Travar este tráfico paralelo de livros talvez não seja o desafio mais importante que o movimento de comerciantes tem de enfrentar em relação à cabine de leitura. É preciso manter os leitores interessados, arranjar livros que os cativem e tornem a biblioteca cada vez mais apelativa. “Queremos que as pessoas doem livros, claro, só pedimos que não tragam os livros que não querem ter em casa, mas sim aqueles de que gostam e querem partilhar.” Carlos considera que a maioria percebeu a mensagem, e é isso que permite que os livros continuem a circular.

 

 

Na demanda dos livros com pó

 

Sofrer de vista cansada não é o único problema que atormenta os amantes da leitura. Há pelo menos outro, que promete ser mais inquietante: o de não encontrar um livro em particular. Correm-se alfarrabistas, livrarias, navega-se na internet, pergunta-se aos amigos se não o terão lá por casa, mas não há modo de o dito aparecer.

 

Foi precisamente para acalmar os leitores mais desesperados que a livraria Pó dos Livros, situada na Avenida Marquês de Tomar, criou uma espécie de departamento vintage. “Começou tudo pela procura que tivemos, a satisfazer pedidos de clientes que não encontravam determinado livro em lado nenhum”, diz Isabel Nogueira, livreira neste estabelecimento desde a abertura, em 2007.

 

Só o nome da livraria indicia que ali podemos encontrar livros em segunda mão. É que o espaço, amplo e com grandes estantes negras, mais facilmente nos transporta para uma livraria londrina moderna do que para um alfarrabista escondido. O espaço funciona também como cafetaria, com pequenas mesas onde sentar e beber qualquer coisa que acompanhe bem um livro.

 

Po2

 

É atrás do balcão de pagamento, no chão, que se acumulam pilhas de livros manuseados e já quase todos têm novo dono. São encomendas de clientes, os tais exemplares desaparecidos que os livreiros da Pó dos Livros tudo fizeram para encontrar. “Vamos a feiras e temos uma rede de contactos com alfarrabistas. Raramente desistimos de procurar”, explica Isabel.

 

Já nas prateleiras da loja, há poucos livros usados a fazer vizinhança àqueles que acabaram de vir das editoras e ainda têm o cheio particular da tipografia. “Não temos capacidade de compra para explorar demasiado essa parte, preferimos fazer uma selecção dos livros usados que temos”. A livreira acrescenta que é por isso que o comércio de livros em segunda mão é feito essencialmente pela internet: um blogue e a página de Facebook são as plataformas que utilizam para anunciar os títulos que vão chegando e receber encomendas específicas.

 

Isabel nota que, nos últimos anos, o interesse em relação aos livros em segunda mão tem aumentado. “Acho que há uma geração nova que gosta bastante de livros usados e procura edições especiais, coisas mais raras que até para nós são difíceis de encontrar”, diz. Mas ressalva: “não estou a falar de miudagem muito nova, que esses, infelizmente, já cresceram com os computadores e não com os livros.”

  • pedron
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    RT @ocorvo_noticias: Os livros usados renasceram e andam por aí a circular – http://t.co/jEazsDHp2Z

  • Rita da Nova
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    RT @ocorvo_noticias: Os livros usados renasceram e andam por aí a circular – http://t.co/jEazsDHp2Z

  • Pedro Paiva Sousa
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  • João Lisboeta
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    TivÉmos? Por favor…

    • Rita da Nova
      Responder

      Estimado leitor João Lisboeta,

      Muito obrigada pela chamada de atenção: erro reconhecido e, mais importante, corrigido.

      Como – infelizmente – uma licenciatura em comunicação não nos coloca numa posição sobre-humana (nem nos torna impermeáveis ao erro, tão característico da condição humana), é bom saber que podemos contar com leitores tão assíduos e atentos como o João para nos alertar para estas pequenas distracções.

      Relativamente ao seu outro reparo, contudo, não posso dar-lhe razão, já que o verbo está perfeitamente concordante com o sujeito da frase, que é “grande parte”. Embora se refira a um conjunto de alfarrabistas, a expressão é, em si, singular. Neste caso, “alfarrabistas” será aquilo a que, na gramática antiga, se dava o nome de “complemento directo”.

      Muito obrigada pelos seus comentários,

      Rita da Nova

      • João Lisboeta
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        Cara Rita da Nova,

        Gostei de ler o seu comentário, e, mais ainda, gostei que tivesse corrigido o lapso (repetido num outro texto que aqui já escreveu).

        De facto, errar é humano, mas parte-se do pressuposto que alguém licenciado em comunicação não dê erros gramaticais básicos (mais ainda quando se trata de uma peça publicada na internet).

        Mais ainda, quando, aliás, penso ser seguro afirmar que escreveu o texto ao abrigo do corrector do Word.

        No tocante à segunda questão, parece-me que o sujeito na frase são “os alfarrabistas”, sendo que “grande parte” é uma expressão partitiva (i.e. quantificador que designa parte de um todo, podendo ser constituído por numerais, pronomes indefinidos ou expressões nominais).

        Talvez (re)ver a gramática que apelida de ‘antiga’ porque “grande parte” nunca será – nem seria – tido como sujeito da frase em apreço.

        Subscrevo-me com os melhores cumprimentos,

        João

        • João Lisboeta
          Responder

          *gramaticais/ortográficos

  • João Lisboeta
    Responder

    “mora grande parte” ou “que moraM”? pessoas licenciadas em comunicação sem saber escrever. ainda por cima considerando-se que a peça trata de livros.

  • Teresa Guerreiro
    Responder

    Dicas sempre oportunas:)

  • Diogo Laranjeira
    Responder

    Olha a @RitaDaNova a escrever cenas sobre a interessante Fyodor http://t.co/rLYe3LPZRJ

  • Rui Barradas Pereira
    Responder

    RT @ocorvo_noticias: Os livros usados renasceram e andam por aí a circular – http://t.co/jEazsDHp2Z

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