Os habitantes de Lisboa cabem todos num palco e querem contar a história de uma cidade em mudança, na Culturgest

REPORTAGEM
Sofia Cristino

Texto

Vera Marmelo

Fotografia

CULTURA

Cidade de Lisboa

1 Fevereiro, 2019

Cem pessoas, uma amostra dos 500 mil moradores da cidade, vão representar a cidade, partilhar as suas crenças e preconceitos, mas também explicar como se combatem os problemas da falta de acessibilidades na capital, a solidão e os despejos. As temáticas escolhidas para abordar em palco vão desde banalidades – como quantas pessoas já caíram na calçada portuguesa -, a questões mais íntimas, como quem fez um aborto, sofreu uma violação ou violência domestica, ou até quem já foi alcoólico. Combater estigmas e dar a conhecer a população, tal como ela é, assume-se como um dos principais objectivos da peça, organizada pela companhia Rimini Protokoll, desde 2008 a passar por várias cidades do mundo. O espectáculo “100% Lisboa” estreia esta sexta-feira (1 de Fevereiro), na Culturgest, e pode ser visto até ao próximo dia 10 de Fevereiro.

Cem habitantes de Lisboa – cada um em representação de 1% dos 500 mil moradores da cidade – pisam, esta sexta-feira (1 de Fevereiro), o palco da Culturgest. Os participantes, 54 mulheres e 46 homens, com idades entre um e 88 anos, vão partilhar as suas vivências, crenças, ideologias, mas também a forma como se vive com mobilidade reduzida ou deficiências visuais, na cidade. “Temos uma pessoa em cadeira de rodas e outra cega, no palco, para debater a questão das acessibilidades. A cega consegue deslocar-se facilmente e entrar dentro do grupo, mas a de cadeira de rodas acaba por ocupar mais espaço e tem de dar muitas mais voltas do que o resto do grupo, para conseguir estar dentro dele. O que é muito revelador da forma como essas pessoas passam completamente despercebidas no meio da multidão”, explica Patrícia Carvalho, uma das responsáveis do processo de selecção dos participantes.

O espectáculo, intitulado “100% Lisboa”, é produzido pela Culturgest em conjunto com a companhia de teatro alemã Rimini Protokoll, em parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos e com o apoio da base de dados Pordata, com estatísticas de 2017 e 2018, e do Goethe Institut Lisboa. Trata-se da replicar localmente um espectáculo que já esteve em países tão diferentes como Japão, Austrália, Alemanha, Brasil e Coreia do Sul. A ideia é sempre a mesma: representar a diversidade de uma cidade em palco. “Há pessoas que nunca foram à escola, que não sabem ler nem escrever, e pessoas com o grau académico de pós-doc, que acabam por não se misturar. Este espectáculo promove essa mescla de uma forma muito natural. Cada uma tem as suas dificuldades, o não saber ler é uma limitação, mas o não saber onde se colocar em palco, para uma pessoa muito letrada, também pode ser uma dificuldade”, explica Leonor Cabral, também membro da equipa de casting, envolvida no processo de selecção dos participantes da peça de teatro, ao longo de seis meses.

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Lisboetas: são pessoas, são números e têm histórias para contar.

O “100% Lisboa”, explica,“procura as caras que estão por detrás das estatísticas oficiais da cidade”, dividas em categorias como género, idade, nacionalidade, agregado familiar e área de residência. “É um espectáculo que fala sobre a cidade e sobre os cidadãos. E, através de vários dispositivos, tenta espoletar a discussão sobre a cidadania, sobre um perfil dos habitantes de Lisboa e a maneira como as pessoas gerem as suas opiniões, desejos e o seu dia-a-dia”, diz. As temáticas escolhidas vão desde banalidades – como quantas pessoas já caíram na calçada portuguesa -, a questões mais intimas, como quem fez um aborto, sofreu uma violação ou violência domestica, ou até quem já foi alcoólico.

 

Combater estigmas e dar a conhecer a população da capital, tal como ela é, assume-se como um dos principais objectivos do espectáculo, que estará até ao próximo dia 10 de Fevereiro na Culturgest. “Muitas vezes, as pessoas associam os nepaleses a pessoas que têm lojas de roupa ou trabalham num restaurante. O nosso participante nepalês era jornalista no Nepal. Veio para Portugal e abriu um restaurante nepalês e italiano. Tem uma filha que nasceu cá e a vida dele foi construída aqui”, explica Leonor.


 

Em Lisboa, caracterizada por uma população muito envelhecida, há cada vez mais pessoas a viverem sozinhas, mas também famílias a partilharem a mesma casa, por falta de opções a preços acessíveis no mercado de arrendamento. Uma realidade “cada vez mais comum”. Há mais estrangeiros a viverem na capital, mas também uma maior aceitação das comunidades imigrantes. E, entre 2011 e 2017, há menos 10 mil pessoas com 30 anos a viver em Lisboa. “Há mesmo muita gente a viver sozinha e, ao longo da preparação do espectáculo, percebemos a importância dos centros-de-dia na vida destas pessoas. Algumas,não tinham um contacto de emergência em casa. Para nós foi uma surpresa, numa cidade tão cheia, haver pessoas que não têm ninguém para convidar para assistir ao espectáculo, por exemplo. Foi muito chocante”, conta Patrícia Carvalho.

 

 

Quando se pensa em Lisboa, normalmente esquecemo-nos das zonas limítrofes, onde mora a maioria. “A população lisboeta é extremamente envelhecida. Apesar dos meios de comunicação social falarem mais da parte central da cidade, a maior parte da população vive na zona fronteiriça. Essa população vive num registo até bastante rural, com hortas, quintais e zonas até de extrema dificuldade de acesso em termos de transportes. E essas também estão representadas neste espectáculo”, explica. O ‘boom’ turístico e a vinda de mais estrangeiros para habitarem na cidade também foram factores tidos em conta na preparação da pela.

 

Muitos dos participantes foram afectados directamente pelo turismo, despejados das habitações para estas darem lugar a alojamento local, mas também há aqueles que estão a adaptar-se positivamente às transformações da cidade. “No espectáculo, perguntámos se o número de emigrantes deveria aumentar, diminuir ou permanecer o mesmo, e a maioria disse que devia aumentar. Sentimos que há  cada vez um maior diálogo com as comunidades emigrantes e aceitação dessas culturas diferentes”, diz Leonor Cabral.

 

As duas conclusões “mais surpreendentes”, para as responsáveis pela selecção dos participantes, estão, porém, relacionadas com o elevado número de praticantes católicos e pessoas com doenças do foro psicológico. “Ainda há muita gente a ir à igreja e com práticas religiosas activas, de todas as faixas etárias. Há também um grupo enorme de pessoas que se encontram, ou já se encontraram, em estados depressivos. Foi muito importante as pessoas darem a cara e falarem abertamente sobre o tema, pois ainda é um tabu. O que me choca mais é a transversalidade de idades, ter uma pessoa de 18 anos e outra de 60 a dizer que sofre de depressão é preocupante”, diz Patrícia Carvalho.

 

 

Ao longo dos seis meses de casting, e de duas semanas intensivas de ensaios, as duas responsáveis acreditam que também conseguiram combater a solidão sentida por muitos lisboetas. “Criam-se ligações entre as pessoas muito improváveis, e até de pessoas que moram na mesma rua e não sabiam”, explica Patrícia. Em palco, vão estar residentes austríacos, brasileiros, búlgaros, moçambicanos, romenos, cabo-verdianos, italianos, chineses ou nepaleses. De acordo com os dados, mais de 54% da população da cidade são mulheres, 25% tem mais de 65 anos e um em cada dez tem nacionalidade estrangeira.

 

No ano passado, 6,2 milhões de turistas visitaram Lisboa e diariamente 450 mil pessoas entraram na cidade para trabalhar ou estudar. Mas muitos dados, avançam ainda, acabam por ficar de fora. “Há 11% de população estrangeira em Lisboa, pessoas com dupla-nacionalidade, mas há muitas mais pessoas, para além daquelas que estão representadas estaticamente, porque estão ilegais. As pessoas com deficiência, a partir de 2011, deixaram de ser contabilizadas por tipologia e deixámos de perceber quantas pessoas em cadeiras de rodas e cegas, por exemplo, existem em Lisboa. Mas o ‘100% Lisboa’ tentou representá-las“, garante Patrícia Carvalho.

 

 

O colectivo Rimini Protokoll, constituído em 2000, é reconhecido internacionalmente como criador do movimento teatro da realidade. Em entrevista a O Corvo, Stefan Kaegi, um dos membros do Rimini Protokoll, diz que a cidade, como  a vemos, não corresponde ao perfil das estatísticas por haver muitas pessoas a entrarem e a saírem de Lisboa, todos os dias, para trabalhar ou visitar. Nesta pequena amostra, conseguimos, contudo, perceber traços de uma cidade que muitos desconheciam. “Nunca pensei que houvesse tantas pessoas sozinhas em casa, mas, como não saem, não as vemos. Não se percebe que pertencem, pelo menos em tão grande número, à nossa cidade. Surpreendi-me, também, por haverem tantas pessoas religiosas e mais pessoas a confiarem nos militares do que nos políticos”, conta, entre risos.

 

Dar um retrato o mais fiel possível da forma de pensar e sentir dos habitantes de Lisboa, “sem filtros”, é um dos principais objectivos da peça, que estará em exibição na primeira semana do mês de Fevereiro. “Há pessoas que já pensaram em suicidar-se, há pessoas que não pagam impostos, há quem ande de transportes sem pagar, há quem apoie a construção de salas de chuto e outras que não, e nesta peça não têm medo de expor isso”, explica Stefan Kaegi. “A beleza deste espectáculo é que não há só uma resposta, há cem respostas diferentes. Não podemos dizer que Lisboa é melancólica, por exemplo, porque há uma grande diversidade de opiniões. No fundo, vamos perceber o que acontece entre quatro paredes”, conclui.

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COMENTÁRIOS

  • Afirma Pereira
    Responder

    Faltam os lisboetas que vivem e trabalham nesta cidade linda.
    Que pagam os transportes públicos onde circulam.
    Que pagaram a casa onde vivem.
    Ou renda ao seu senhorio. A tempo e horas.
    Com família constituída e filhos na escola.
    Que pagam impostos. Muitos impostos…
    Sem necessidade aparente de apoio psiquiátrico.
    Que se alguma vez escorregaram na calçada se levantaram e prosseguiram sem fazer disso alarde.
    Em suma: faltam aqueles que fazem a cidade funcionar.
    Mas demasiado cinzentos para um espectáculo tão exuberante.
    E que de resto, por trabalharem e darem assistência à sua família, nunca teriam tempo para os ensaios desta coisa.
    De qualquer forma, parabéns pelo esforço. Uma imagem colorida em tons garridos e espampanantes, a transbordar de correcção política, era mesmo o que nos fazia falta. A sério…
    E permitam-me um aparte: quando a sra jornalista fala de diálogo com as comunidade emigrantes está a referir-se aos diálogos dos lisboetas com os familiares espalhados por esse mundo fora, não está? Porque se se refere aos estrangeiros aqui estabelecidos talvez fosse mais correcto falar em comunidades IMIGRANTES…

    • O Corvo
      Responder

      Tem razão, o texto refere-se a “imigrantes”. O erro foi corrigido. Obrigado pela chamada de atenção.

      • vitor
        Responder

        Fale por si e de si, e não do que desconheçe! Fazendo juízos errados sobre o que se passa na vida dos que estão em palco!

    • vitor
      Responder

      Fale por si e de si, e não do que desconheçe! Fazendo juízos errados sobre o que se passa na vida dos que estão em palco!

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