A área das telecomunicações é uma das poucas que ainda oferece oportunidades de trabalho em Portugal. Os anúncios costumam ser aliciantes, especialmente para os estrangeiros que queiram passar algum tempo no país. E há muitos que, apesar da precariedade, ficam por Lisboa a trabalhar em call centers. O Corvo foi falar com alguns e ouvir as suas motivações para tal opção de vida.

 

 

Texto e Fotografias: Daniele Franco e Sofia Minetto

 

 

Lisboa atrai cada vez mais estrangeiros. Graças ao destaque que tem atingido a nível internacional – não terá sido por acaso que a Ryanair aqui abriu recentemente uma das suas bases -, a cidade não pára de receber visitantes, sejam eles turistas, estudantes em mobilidade ou mesmo profissionais.

 

É opinião partilhada entre muitos estrangeiros que na capital é possível ter um bom nível de vida: os custos são contidos, quando comparados com os de outras cidades europeias; o clima é agradável; os eventos culturais e as diversões abundam. Tendo em consideração todos estes aspectos, não são raros os casos de estrangeiros que decidem prolongar a sua estadia e de procurar aqui emprego.

 

Quem tenha tido contacto com o mercado do trabalho em tempos recentes, de certeza reparou que muitas das ofertas estão relacionadas com a área das telecomunicações – uma realidade incontornável no contexto português. Os custos destes serviços são tão competitivos que numerosas empresas de fora acabaram por deslocar os seus departamentos de apoio ao cliente para Portugal.

 

De facto, este mercado está a crescer de modo consistente e parece mesmo ser um dos poucos que continua a precisar de trabalhadores. Para além de habilitações literárias mínimas e de uma boa fluência verbal, as competências linguísticas são os requerimentos sempre mais valorizados no perfil dos candidatos. Dada a disponibilidade de pessoas competentes a nível linguístico e profissional, e o valor modesto do ordenado mínimo português, há também quem fale de Portugal como “nova China”.

 

Consultando rapidamente alguns anúncios online, percebe-se que a maioria das empresas oferece “contrato de trabalho, formação inicial, integração em equipa jovem, dinâmica e internacional, possibilidades de carreira e prémios adicionais”. Em alguns casos, até o “bom nível de vida em Portugal” faz parte das condições que as empresas garantem aos potenciais candidatos.

 

Mas como é, de facto, trabalhar num call center? Qual é a visão de quem tem este emprego? O Corvo conversou com alguns jovens estrangeiros que, por razões diversas, se instalaram em Lisboa e que atualmente trabalham nesta área.

 

Aida F. (fotografia de abertura), espanhola de 25 anos, decidiu ficar aqui depois de ter acabado o seu Erasmus: gostava da cidade e queria conhecer ainda melhor a língua e a cultura portuguesas, mas a sua escolha foi influenciada também por razões de amor. Licenciada em Economia e Gestão pela Universidade de Oviedo, estava a procura de emprego na sua área e começou a trabalhar num call center, até encontrar outra solução.

 

Como não surgiram outras oportunidades, acabou por ali ficar. Desde há dois anos, dedica-se principalmente a tarefas de back-office da linha outbound para Espanha – ou seja tem de ligar os clientes para verificar o estado dos serviços oferecidos pela empresa. O seu contrato de trabalho é baseado na fórmula dos “falsos recibos verdes”: o trabalhador passa recibos como se fosse independente, mas de facto é contratado pela empresa.

 

A segurança social e o IRS ficam a seu cargo. Além disso, não tem ordenado fixo, mas é ela própria que vai fazendo o seu salário de cada mês, dependendo das tarefas que consegue completar. Como ela explica, cada tarefa tem determinada retribuição, que varia entre 0,45 cêntimos e 1,10 Euros, independentemente do tempo que demora cumpri-la. Portanto, embora não tenha horário fixo, trabalhando 8/9 horas por dia, consegue ganhar em média 650 Euros.

 

O problema é que as tarefas diárias podem não ser suficientes e ela tem que pedir mais trabalhos para alcançar mais ou menos o seu salário médio mensal. Ainda por cima, acontece que os sistemas informáticos podem falhar, deixando os trabalhadores como Aida numa situação de espera pouco profícua.

 

Manuel S., rapaz colombiano de 29 anos, poupou dinheiro para vir estudar Marketing na Europa. Também ele escolheu Lisboa, porque a cidade não é cara e o estilo de vida aqui parecia-lhe agradável. Há três meses, começou a trabalhar na linha inbound de um call center – serviço em que atende os telefonemas dos clientes. Entretanto, está a acabar o curso no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG). Trabalha por turnos, podendo escolher entre o horário das 11h às 20h ou o das 7h às 15h.

 

Ao contrário de Aida, o contrato de Manuel prevê um ordenado fixo mensal de 525 Euros, com a possibilidade de ganhar prémios colectivos – quando o grupo de trabalho consegue atender 90% das chamadas -, no valor de mais ou menos 100 Euros. Por isso, a sua visão do trabalho resulta um bocado diferente, não tendo de se preocupar com a execução de tarefas adicionais para construir o seu salário.

 

 

manuel

Manuel trabalha no atendimento telefónico a clientes, enquanto finaliza os estudos no ISEG. 

 

“Embora seja cansativo e haja uma grande pressão, para mim este trabalho é óptimo, porque sei que é temporário e permite-me ganhar o dinheiro suficiente para cobrir os meus gastos”, confessa. Ele já está a pensar no futuro após completar o curso e planeia procurar oportunidades na sua área, talvez noutras cidades europeias.

 

Erik E. é de origem peruana e tem familiares em Lisboa. Por isso, resolveu mudar-se para aqui há dez anos. Agora, está a completar a Licenciatura em Informática e Gestão e começou a trabalhar na linha inbound de um call center, no ano passado. Tem horário fixo das 8h às 17h e turnos rotativos com dois dias de folga por semana. Ele também tem um contrato com “falsos recibos verdes”: chega a atender entre as 80 e as 100 chamadas por dia, alcançando assim um salário que varia entre os 800 e os 1000 Euros.

 

Considera-se competente no que faz porque consegue ser eficiente e rápido ao mesmo tempo. Está satisfeito com o seu ordenado, que lhe permite sustentar-se. Porém, após os estudos, tenciona voltar para o seu país natal e procurar um emprego que seja mais gratificante, possivelmente na sua área.

 

Apesar de terem condições contratuais e situações pessoais diferentes, os jovens com os quais O Corvo falou partilham algumas opiniões sobre este tipo de emprego. Todos mencionaram o problema da formação inicial, que às vezes falta ou não é completa. Manuel trabalhou com um salário inferior durante os dois meses de formação previstos no contrato, mas, de facto, já depois de três dias, estava a receber regularmente chamadas.

 

Aida acha que a formação inicial é necessária para garantir um bom serviço – sobretudo porque a valência de apoio ao cliente é hoje fundamental para as empresas, pelo que a falta de uma formação adequada prejudica a qualidade do atendimento.

 

Todos concordam também que é preciso lidar com situações de enorme pressão. Os clientes têm todo o tipo de problemas a resolver. Por isso, comunicar com eles não é, à partida, uma coisa simples. E as suas reacções, às vezes, podem ser difíceis de aguentar.

 

Eis um caso extremo: uma jovem acabou por se despedir do trabalho por causa dos comentários ofensivos que recebeu por parte de um cliente na página Facebook da empresa. Em geral, os contratados sentem que não recebem comentários úteis para melhorarem e que, às vezes, faltam mesmo as condições de base para executar o trabalho: nem sempre há computadores ou equipamento para todos.

 

Uma realidade bem familiar a Sara Simões, ativista da associação Precários Inflexíveis e especialista em matéria de call centers, área na qual trabalhou durante oito anos. Confirmou que, nestes ambientes, há um clima de grande pressão, o qual torna o trabalho bastante cansativo. Sara conta o caso de uma rapariga que não aguentou o stress e abandonou o local de trabalho logo depois do primeira pausa para almoço, sem nem sequer pegar na sua mala.

 

 

sara sim_es no mob, rua dos anjos

Sara Simões diz que os estrangeiros não conhecem bem as leis laborais portuguesas.

 

“Há diferença entre o que se promete nos anúncios e a reais condições do dia-a-dia”, sublinha Sara. Os anúncios online podem ser aliciantes, especialmente para os estrangeiros. De facto, o ambiente multicultural das empresas é considerado como um aspecto positivo e faz com que eles fiquem. Porém, às vezes, desconhecem a lei portuguesa e, neste sentido, a associação Precários Inflexíveis intervém para ajudar os trabalhadores a obterem as condições contratuais às quais têm direito.

 

Apesar das dificuldades e da possível competição criada pelas condições contratuais diferentes – pode acontecer que, na mesma sala, haja pessoas contratadas a “recibos verdes” e a salário fixo -, as relações entre colegas parecem ser, sobretudo, de solidariedade.

 

Os trabalhadores vêem este emprego como uma solução temporária que lhes permite sustentar-se por algum tempo, antes de se projectar em planos futuros mais satisfatórios, seja a nível pessoal ou profissional. No entanto, como refere Aida, tentam não ficar atrapalhados na rotina quotidiana para poderem aproveitar as novas oportunidades que Lisboa talvez lhes possa oferecer.

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