São cada vez mais os quadros qualificados e a trabalhar para multinacionais a escolher a capital portuguesa para viver. Mesmo em tempo de crise. Os novos imigrantes vêm sobretudo de países da Europa Ocidental, como aqueles com quem o Corvo conversou.

 
Texto: Sérgio Alves  Ilustração: João Concha

 
Com a revolução de abril de 1974, a integração europeia e o desenvolvimento do país no final dos anos 80 e ao longo da década de 1990, Lisboa tornou-se um destino escolhido por jovens oriundos de diversos países europeus. Ora no âmbito do programa Erasmus, ora para trabalhar e viver, a cidade viu chegar, entre outros, jovens espanhóis, italianos, ingleses, interessados na cultura e língua portuguesa ou disponíveis para uma experiência profissional num pequeno, mas histórico, país do continente europeu.

 
É o caso de Elena Valentini, 30 anos, italiana de Riccione, na costa adriática. Com uma primeira experiência positiva na cidade, regressou pouco tempo depois para se fixar na zona de Santos. “Passei quatro meses. A primeira vez que estive cá foi com uma bolsa de um programa europeu – Leonardo-, para estagiar no Centro Português de Refugiados. Depois, voltei para Itália. Seis meses depois, voltei cá e, no final de Abril do ano passado, fixei-me aqui”, diz.

 
Raquel Toribio, espanhola de Guadalajara, 31 anos, recorda com emoção o primeiro contato com Portugal: “Conhecia, já tinha passado dois verões aqui. Tinha aprendido a língua, conhecia um pouco da literatura portuguesa e fiquei apaixonada pela cidade”.

 
O desejo de sair e mudar de vida é um aspeto comum, mas a escolha de Lisboa tem motivações distintas. É o caso de Bruno Reynolds, 34 anos, inglês de Sussex, Sul de Inglaterra. Mudou-se para Lisboa, há quatro anos, por razões passionais, como ele explica com um sorriso largo. Curiosamente, Raquel pôs a hipótese de ir para Londres, mas optou pela calma e qualidade de vida da capital portuguesa. Elena, com uma experiência anterior no Brasil, aliou a vontade de sair de Itália à intenção de viver numa capital. E Lisboa pareceu-lhe, concluída a universidade, a opção natural.

 
Pelos dados da Pordata, base de dados estatísticos, verificamos um ligeiro decréscimo do número de estrangeiros residentes na Grande Lisboa. Entre 2008 e 2011, houve menos 2294 estrangeiros com estatuto legal de residente. Verifica-se, no entanto, um aumento dos cidadãos do Reino Unido (637) e de outros países europeus (3414). Por outro lado, verificamos a diminuição dos estrangeiros oriundos dos países de leste europeu, como a Ucrânia e a Moldávia e dos países africanos de língua portuguesa, ou seja, mão-de-obra pouco qualificada, na ordem das dezenas de milhares.

 
Podemos concluir que o quadro da população estrangeira na cidade está em transformação desde o início da crise de 2008, com a saída de uma mão-de-obra ligada à construção e a entrada de jovens quadros para empresas e serviços com sede em Lisboa. Elena refere que há cada vez mais italianos a escolher Lisboa por motivos profissionais, pois os serviços ao cliente de algumas multinacionais deslocaram-se de Itália para Portugal. E o pensamento de Raquel Toribio vai no mesmo sentido: “Acho que sim, há uma tendência de querer voltar e de querer viver aqui, mas depois depende de haver trabalho ou não”.

 
A qualidade de vida, a localização geográfica e um ritmo de trabalho mais equilibrado são as aspetos mais positivos da estadia numa das mais belas e atrativas cidades europeias, segundo estes “novos alfacinhas”. Bruno Reynolds lembra, com satisfação, “a possibilidade de estar, num final de tarde, a beber uma cerveja, de forma tranquila, depois do trabalho”.

 

Raquel confirmou as expetativas que tinha de visitas anteriores à cidade e lembra a forma acolhedora como foi recebida e o “calor humano” da cidade, bem como o lado estético: “A cidade é bonita, tem muita luz, tem o rio, é encantadora”. Elena Valentini, há menos tempo na cidade, aponta como principais vantagens: “A localização geográfica, no delta entre o Tejo e o Oceano Atlântico, é a primeira cidade da Europa; é a cidade que tem o maior número de horas de luz e, finalmente, existe a sensação de vida em comunidade apesar de ter uma energia de uma cidade moderna, cosmopolita, multicultural …”

 
Mas nem tudo é perfeito e todos apontam alguns problemas ao quotidiano lisboeta. Bruno assinala “a burocracia e a forma como as coisas funcionam. É muito mais simples em Inglaterra.” A espanhola Raquel destaca o mau funcionamento dos transportes públicos, “lentos e atrasados”, e Elena, ciclista habitual, aponta o piso das ruas, “cheios de buracos”.

 
Observação comum a todos é a relativa ao lixo e à sujidade. Em Lisboa desde 2011, Elena diz que a cidade “está a ficar um pouco suja, há muito lixo e está a aumentar.” Raquel compara Lisboa com Madrid, onde viveu: “Madrid é muito mais limpa, porque os serviços públicos de limpeza funcionam melhor e também por motivos culturais – ao Domingo, não há recolha, não podes pôr o lixo na rua e isso não acontece”.

 
Apesar de tudo, Lisboa é, nas palavras de Bruno Reynolds, uma excelente escolha para iniciar a vida ativa: “Acho que é a qualidade de vida que nos faz gostar desta cidade para morar, uma vida mais calma, com praias perto e um bom clima”. Elena destaca as vantagens de Lisboa em relação a outras cidades europeias:  “Um ritmo de vida calmo, o Sol, estar perto do mar e do Tejo e o ar que se respira aqui”.

 

 

Para Raquel, a opção é clara em relação a outras cidades europeias: “Acho Lisboa uma cidade linda! Não trocava por mais nenhuma. Vivi em Paris e optava por Lisboa. Paris tem uma beleza demasiado perfeita, tudo estruturado e planeado até ao mais pequeno detalhe. Aqui, as pequenas imperfeições fazem a diferença. É uma beleza mais real e humana”.

 
A questão decisiva é a existência ou não de oportunidades de trabalho, pois todos destacam a importância de ter ou não trabalho para escolher Lisboa como destino, como defende Bruno: “O problema é o trabalho. Se houver trabalho, é atrativa, se não, não é. Acho que os estrangeiros gostam de viver aqui, mas caso tenham trabalho.”

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