A sede da Casa dos Açores na capital, instituição que hoje celebra 90 anos de existência, tem muito mais vida do que a sua aparência austera possa deixar adivinhar à primeira vista. Situada num edifício numa pacata rua da Lapa, acolhe actividades diversas, como saraus de poesia, música e conferências, que servem como um apelo à comunhão comunitária dos açorianos em Lisboa. Mas, mais que isso, é uma casa onde cabem todos: ilhéus e continentais.

 

Texto: Rui Lagartinho               Fotografias: Paula Ferreira

 

É uma casa vetusta e com ar respeitável, ou não nos encontrássemos no coração do bairro da Lapa. Nem de propósito, estamos na Rua dos Navegantes. Uma escada de madeira imponente, retorcida, conduz-nos às salas principais. Poderia ser o acesso às divisões privadas de um clube inglês. É a sede da Casa dos Açores de Lisboa desde 1970. Sensivelmente metade da vida da instituição, que nesta segunda-feira (27 de março) cumpre 90 anos.

 

Desde a sua criação, a 27 de Março de 1927, numa cerimónia na Sociedade de Geografia – inicialmente sob a designação “Grémio” -, os açorianos andaram com a casa às costas, passando, sucessivamente, pela Avenida da Liberdade, pelo Largo do Camões, pela Rua Castilho e pela zona do Príncipe Real, até chegar onde estão hoje.

 

Miguel Loureiro, faialense, é o presidente da Casa dos Açores há mais de trinta anos. É o nosso cicerone por todos os recantos desta ilha açoriana no meio de Lisboa. De uma sala a outra, mudamos de registo: a biblioteca está carregada dos vultos em fotografia dos homens que fizeram a casa, mas a sala ao lado pode exibir fotografias da caça ao cachalote, de bustos de Vitorino Nemésio ou de Natália Correia.

 

Outra divisão pode guardar espólio que interessa a quem tem curiosidade pela história da região, os corredores podem ter aguarelas de luz variada, estandartes, bandeiras, onde lá está o açor que, se calhar, graceja Miguel Loureiro, “até deveria ser um milhafre, pois essa é a ave que abunda. Mas, oficialmente, é um açor”.

 

Não há uma parede vazia. “Faz parte da filosofia desta casa guardar memórias que façam a ligação com o presente”, resume Miguel Loureiro. E alguns segredos e saudáveis conspirações, acrescentamos nós. O espaço convida.

 

 

Para o presidente, a missão desta casa assenta em “promover e organizar actividades de carácter cultural, desenvolver o interesse pela realidade açoriana e estreitar relações entre as comunidades açorianas fora dos Açores.”

 

É nesse âmbito que as comemorações dos 90 anos incluem o lançamento do livro “Açores no Mundo.” Nele, o jornalista açoriano José Andrade faz um retrato das 15 Casa dos Açores espalhadas pelo mundo. “É uma rede espalhada pelos Estados Unidos, Canadá, Brasil, Uruguai e Bermuda. Tentamos encontrar-nos, todos os anos, para trocar experiências e vivências”, conta o presidente.

 

A diáspora está sempre presente, onde houver açorianos, mas, entretanto, cada casa reflecte a vida dos que estão ancorados em cada porto.

 

No mês em que se comemoram nove décadas de existência – o programa termina a 31 de Março, com a eleição dos orgãos sociais para o biénio de 2017/2018 -, discutiu-se o mar na cultura portuguesa, falou-se da plataforma continental, evocaram-se as memórias dos fundadores, houve uma gala de aniversário.

 

Em Lisboa, são 800 os associados da Casa dos Açores e é a partir deles que a dinâmica da instituição se constrói. Com gentes originárias de todas as ilhas. As divisões e as nuances entre os naturais de cada ilha – tal como os diversos tipos de queijo que se agrupam sobre a designação de queijo da Ilha – ficam no arquipélago. Aqui em Lisboa, todos são ilhéus.

 

“Temos aqui todo tipo de actividades. Saraus de poesia, música, conferências. E até já houve um funeral, o de Natália Correia, que teve uma logística complicada. Durou três dias. Todos eram amigos da Natália, mas nem todos eram amigos entre si. Foi preciso tacto político para que, por exemplo, o então presidente Mário Soares não se cruzasse com o antigo presidente Ramalho Eanes”, recorda Miguel Loureiro.

 

 

Para além do natural rebuliço dos sócios que frequentam as actividades da Casa, o segundo andar alberga algumas salas afectadas à delegação do Governo Regional Açoriano. O lobby que inclui os deputados eleitos pela região encontra condições para se reunir dentro de paredes que sabem guardar segredos.

 

Esta parceria revelou-se essencial desde o final dos anos setenta, como forma de viabilizar economicamente a instituição. A residência universitária que também aqui funcionou já não existe. Hoje, a casa é um ponto de convívio e de afirmação política na defesa do interesse dos Açores.

 

E se pensa que esta casa é uma ilha seca, desengane-se. Peça para subir ao terraço – é um segredo bem guardado, mas não está fechado a sete chaves – e mergulhe no azul do Tejo. Seguindo o rio, lá onde o olhar não chega, mas onde o horizonte se distende e convida à viagem, pode-se alcançar os Açores.

 

Mais informações:

casasdosacores.org/casas-dos-acores/lisboa/

facebook.com/casadosacores.lisboa

 

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