Na esquina da rua Tomás Ribeiro com a Filipe Folque, um prédio que já é um risco para os escassos inquilinos está a tornar-se um perigo para os peões.A sua degradação tem sido acelerada pela abertura de janelas e portadas às intempéries por parte do proprietário. Que não acata as intimações da CML para obras e se recusa a explicações.

 

Texto: Francisco Neves    Fotografias: João Paulo Dias

 

Adquirido há anos pelo Hotel Turim Lisboa, que lhe fica ao lado, na Filipe Folque, no local do prédio onde viveu Humberto Delgado, o edifício em causa é um exemplo de degradação propositada: há danos evidentes e aparente risco de colapso de algumas varandas das traseiras, a fachada está descascada em vários pontos, havendo vizinhos que se queixam da queda de “pedras” e pedaços de reboco sobre o passeio adjacente.
Este perigo para os transeuntes, disse um inquilino, levou a uma intervenção dos bombeiros –  removeram uma pedra de uma varanda das traseiras – que ali deixaram um gradeamento amovível da Câmara Municipal de Lisboa. As barreiras, no entanto, não exibem qualquer sinal que indique por que razão empurram os peões para a faixa rodoviária, nem que o perigo, por assim dizer, vem do alto…. Talvez por isso, o Corvo testemunhou há dias um morador de uma rua vizinha usar o passeio por dentro da vedação, alheio ao perigo de algo lhe poder cair em cima. Era estrangeiro e pensava que os passeios são para os peões.
Mas o que é mais notório neste prédio escalavrado são as janelas e portadas das varandas abertas, como se o proprietário tivesse interesse em danificá-lo. “É para meter medo às pessoas”, diz um dos actuais inquilinos do prédio da Tomás Ribeiro. Tem aqui a sua minúscula oficina de sapateiro há 46 anos e paga a renda, que já foi actualizada, à Caixa Geral de Depósitos. “Andam a abrir as janelas para correr eles [os últimos residentes]”, disse o artesão, sem querer identificar-se. “A seguir a ter morrido o inquilino do primeiro andar, vieram cá abrir as portadas da varanda dele. A Câmara devia apertar com os donos, que isto não se faz”, comentou.

 

 

Predio 2

É melhor manter a distância, pois não se sabe o que vem lá de cima.
Nelson Antunes, o social-democrata que preside à Junta de Freguesia de São Sebastião da Pedreira, conhece este prédio do início do século XX e acrescenta que “o interior está uma desgraça”. “O proprietário foi, por várias vezes, notificado pela câmara para fazer reparações, mas sem resultado. Já antes a CML quis fazer obras coercivas, mas o dono do prédio faleceu, o prédio foi vendido e voltou tudo à estaca zero”, contou o autarca. Segundo ele, o edifício está nas mãos do grupo proprietário do vizinho Turim Lisboa Hotel (e de várias outras unidades hoteleiras do país), que pretende torná-lo numa extensão desta unidade.

 

É o que afirma uma brochura promocional onde se anuncia que, em 2015, o Turim Lisboa Hotel conhecerá “significativas obras de ampliação, passando a disponibilizar 180 quartos e várias salas para eventos e reuniões”. Nesse folheto vê-se o edifício pintado de azul com uma garagem para a Tomás Ribeiro e as janelas do rés-do-chão rasgadas até ao solo, mas no restante mantendo o desenho exterior.
Com a morte recente da antiga porteira, o prédio ficou com quatro inquilinos: o sapateiro do nº48, uma galeria de arte no 42, um escritório de uma empresa no segundo andar e um particular no último. A explicação para a situação anómala, que põe em risco moradores e transeuntes, estará no facto de o hotel querer construir aqui uma extensão sem ter chegado ainda a acordo com todos os inquilinos para que estes saiam.
Valdemar Teixeira, dono da galeria “Antigo q.b.” foi, no ano passado, levado a tribunal pelo senhorio, a Sociedade de Construções Quinta do Bispo, com sede em Portimão, detentora de vários hotéis e apartamentos. “Chegámos a acordo quanto à indemnização para eu sair, mas passados uns dias eles deram o acordo como nulo, alegando que o advogado deles não estaria mandatado para tal. Deram o dito por não dito. E agora não há acordo”, resume o negociante de arte, sentado entre uma pintura de Silva Porto e outra de João Hogan. “Passados uns meses, aparceram aí os Sapadores Bombeiros que tentaram fechar a entrada da galeria com a vedação que aí está, mas eu não os autorizei. Ameacei logo deitar a grade abaixo e o comandante da Polícia Municipal, que cá veio, concordou que eu tenho todos os direitos a exercer o meu comércio”.
“Não faço acordo nenhum, porque já sei que não vão cumprir”, afirma o comerciante. Valdemar também diz que os donos do prédio já foram “não sei quantas vezes ameaçados com obras coercivas, mas nunca passaram cartão à Câmara. Não sei como é que a Câmara aceita esta situação com a maior das naturalidades”.
Este inquilino conta que, há dias, encontrou o dono do hotel e das Construções Quinta do Bispo, o sr. Martins. “Disse-me que vendera umas quotas a uns espanhóis.” Agora, quem aparece como proprietário do prédio e do hotel é a Imobimacos, Sociedade de Administração de Imóveis SA, que tem escritório no Alameda Turim Hotel. Contactada pelo Corvo, Rita Martins, um quadro desta empresa, recusou-se peremptoriamente a comentar o assunto.

  • Paulo Ferrero
    Responder

    Isto é tudo muito bonito mas a CML tem aqui uma oportunidade de ouro para mostrar o que vale, ou seja, se o que diz sobre ‘amar’ as Avenidas Novas é verbo de encher em ano de eleições ou é mesmo um desiderato com resultados práticos. Ou seja, ainda, é tempo da CML tomar posse administrativa deste imóvel e fazer obras coercivas. De seguida apresenta a factura ao dono. Caso contrário toma ela em mãos a venda/arrendamento dos andares. Ponto. Além do mais, o projecto de hotelzinho é mais que mau, consentâneo aliás com os exemplos na vizinhança…

  • Francisco Neves
    Responder

    Estou de acordo consigo. A CML lava as mãos de um caso de ameaça à segurança pública. A barreira que lá colocou é ridícula e ineficaz.

  • José
    Responder

    Mais um predio que não é arranjado ,PELA TEIMOSIA DO PROPRIEATÁRIO E INQUILINOS.
    A GANACIA DE AMBOS.

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