O plano de recuperação do velho edifício está atrasado mais de um ano. Não se sabe ainda quando abrirá o “território experimental” junto da Almirante Reis. Algumas das alterações projectadas foram vetadas pela Direcção-Geral do Património Cultural, o que obrigou a uma “alteração de fundo no projecto”. A Estamo, dona do imóvel, decide hoje o que fazer.

 

Texto: Samuel Alemão

 

A reabilitação do antigo convento e hospital do Desterro, comportando valências comerciais e culturais, prevista no protocolo assinado pela empresa detentora do imóvel, a Estamo, a promotora imobiliária Mainside e a Câmara Municipal de Lisboa, em Maio de 2013, está num impasse. Ano e meio depois, o que era para durar seis meses ainda não passou do papel. E continua sem prazo de conclusão. As obras que a empresa queria levar a cabo foram travadas, após intervenção da Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC), por colocarem em perigo a preservação de património classificado. Isso obrigou à revisão do projecto inicial por parte da Mainside.

 

Esses planos vão ser escrutinados, nesta quarta-feira (29 de Outubro), pelo conselho de administração da Estamo – empresa encarregue da valorização do património imobiliário do Estado –, que reunirá especialmente para “analisar as alterações de fundo ao projecto de reabilitação do antigo Hospital do Desterro”. A informação foi dada ao Corvo, no final da tarde desta terça-feira, por um responsável pelo gabinete de comunicação da Parpública, entidade que gere as participações estatais. Em causa, sabe o Corvo, estará também o funcionamento de antigos espaços comerciais existentes no interior do antigo complexo hospitalar.

 

A informação surge no momento em que a Mainside diz estar a aguardar a resposta da Estamo relativamente às mais recentes versões dos planos que tem desenvolvido para a antiga unidade hospitalar, encerrada em 2006. A promotora reconhece um impasse na prossecução do projecto, por lhe faltar uma resposta concreta da entidade proprietária sobre o que fazer com o edifício situado no centro de Lisboa. Além disso, o mesmo teve de ser repensado, após o parecer negativo da DGPC à alteração dos vãos que comportam as janelas do edifício.

 

Após as primeiras operações de limpeza e demolições levadas a cabo, ainda no ano passado, a promotora terá querido realizar uma intervenção de fundo que incluiria a alteração dos vãos e a retirada da caixilharia em madeira das janelas do grande edifício. Um plano que foi recusado pela entidade encarregue de zelar pela classificação patrimonial. Tal facto obrigou a uma grande alteração de planos. “Temos estado a desenvolver o projecto, que teve de ver algumas das suas componentes repensadas e refeitas”, disse ao Corvo, na semana passada, Filipa Baptista, responsável da Mainside. “Estamos agora a aguardar a resposta da Estamo”, afirmou.

 

Um compasso de espera que vem sublinhar o atraso, face ao inicialmente previsto. Quando, em Maio de 2013, a Mainside tornou pública a sua intenção de transformar o antigo convento e hospital num “território experimental aberto a Lisboa e ao mundo” – no qual seria possível “habitar e trabalhar numa cela, cultivar uma horta urbana, frequentar um clube, almoçar num refeitório ou assistir a uma aula, entre muitas outras experiências desenvolvidas por várias empresas e organizações” -, apontou o “final do ano” como prazo para abertura ao público. Estamos quase no final de outro ano e ainda se desconhece quando isso vai acontecer.

 

“Não é um atraso, é uma evolução do projecto”, afirmou Filipa Baptista ao Corvo, na semana passada, encontrando uma possível razão para a alegada delonga na resposta da Estamo nas recentes alterações ocorridas ao nível da estrutura dirigente daquela empresa.

 

Na altura em que foi conhecido o projecto da Mainside, a ideia que a ele se associou foi a de vir a ser uma réplica da “fábrica criativa” LX Factory, por si explorada em Alcântara, desde 2008. Ou seja, no Desterro nasceria um espaço de cultura, com hortas urbanas e locais onde se poderia assistir a workshops ou almoçar em espaços comunitários. Algumas dessas valências estarão presentes, garante Filipa Baptista, mas “este trata-se de um conceito completamente diferente do criado na LX Factory”.

 

“Aquele edifício [no Desterro] foi um mosteiro, e depois um hospital, pelo que a ideia é tirar algum partido desses usos”, afirma a responsável, que destaca os principais quatro eixos a oferecer pelo projecto: “alojamento; restauração; um centro de produção com oficinas; e um local para a prática de terapias alternativas”. Uma das novidades passará pela abertura de uma entrada principal no muro que dá para a Avenida Almirante Reis, num local que agora serve como parque de estacionamento improvisado.

 

Na semana passada, o sítio da Câmara Municipal de Lisboa ainda alojava uma notícia, publicada a 27 de Maio de 2013, relativa à assinatura do protocolo e explicando o projecto. Ontem, porém, e após a publicação de uma notícia da agência Lusa, dando conta do atraso no avanço dos trabalhos, deixou de ser possível consultar essa mesma informação. A mesma voltou a ser disponibilizada online, já após a publicação deste artigo.

 

* Texto actualizado às 13h de 29 de Outubro, com as informações do último parágrafo. 

 

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