As obras em curso na área verde adjunta ao passeio ribeirinho do Parque das Nações, em Lisboa, estão a causar grande descontentamento junto de diversos moradores. Em causa estará o que alguns consideram ser o desvirtuar das características originais de arquitectura paisagística do recinto onde se realizou a Expo 98, com a destruição de um conjunto de “grelhas de arrelvamento” utilizadas como parte dos circuitos pedonais originais do parque. A intervenção começou a ser realizada na semana passada pela Câmara Municipal de Lisboa (CML), foi solicitada pela Junta de Freguesia do Parque das Nações e estará relacionada com a renovação do sistema de rega do relvado e com a própria manutenção do piso, desgastado pelo uso intenso.

 

A obra em causa obrigou à remoção e destruição de uma superfície constituída por lajes de betão que, enterradas e feito o arrelvamento do piso, garantiam que a relva se mantinha sempre intacta, mesmo estando sujeita a pisoteio intensivo. A operação foi realizada com recurso a máquinas, que em pouco tempo destruíram essas área de passagem pedonal – a qual terá cerca de 500 metros, de acordo com o estimado pela junta. A intervenção provocou fortes críticas por parte de diversos moradores de uma área da cidade vista como modelar, mas cuja manutenção do espaço urbano tem sido alvo de contestação por uma parte significativa dos residentes, sobretudo desde que, em 2012, a sua gestão passou da Parque Expo para a responsabilidade da CML.

 

Num post no Facebook intitulado “Parque Tejo! Destruição parcial das grelhas de arrelvamento do corredor exterior ribeirinho”, a 19 de Novembro, o arquitecto paisagista João Castro denuncia a intervenção em curso: “É uma das melhores soluções de desenho que o parque tinha, pois os utilizadores estavam sentados virados para nascente dentro do parque, protegidos das diversas circulações. Estas grelhas de arrelvamento de desenho magnifico, do arquitecto paisagista João Nunes, permitiam manter o relvado verde, até ao lancil, independentemente do uso excessivo junto aos bancos. Agora o espaço à frente dos bancos vai ficar desgastado com terra a descoberto!”

 

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O especialista recorre depois à ironia, dizendo que, “um dia destes, vão chegar o banco à frente para evitar o relvado danificado”. E sugere uma tomada de posição: “Se há um paisagista envolvido nisto, devíamos fazer queixa à Associação Portuguesa de Arquitectos Paisagistas!!! Devia ter a ética de respeitar o conceito e o desenho ‘maior’ de um colega experiente. O Parque das Nações e o Parque Tejo precisam de manutenção e não de alterações avulsas promovidas por ‘gestores’ com pouca (in)formação”.

 

C0ntactado por O Corvo, o presidente da Junta de Freguesia do Parque das Nações – entidade que entrou em funções em Outubro de 2013, na sequência da reforma administrativa da capital, nascendo da desanexação de território da freguesia dos Olivais e de parte do concelho de Loures – diz que as obras em questão “são da responsabilidade da CML, mas feitas a pedido da junta”. José Moreno afirma que a intervenção nasceu da necessidade de proceder à reparação do sistema de rega do relvado, mas também do pavimento, “que estava num estado de conservação lastimável e representava já um perigo para as pessoas”. O autarca considera que, com o uso intenso que aquela área da cidade tem, “é natural que o espaço público se vá degradando e, por isso, seja sujeito a obras de manutenção”.

 

O presidente da junta de freguesia – eleito pela lista independente Parque das Nações Por Nós (PNPN) e que, mais tarde, estabeleceu um “acordo coligatório” com o PS na Assembleia Municipal de Lisboa – garante não existirem razões para temer os resultados desta intervenção no espaço público. “Não íamos deixar as coisas como estavam, pondo em perigo a segurança das crianças, que ali poderiam cair”, afirma José Moreno, assegurando que “depois das obras, as condições voltarão ser como eram, com a colocação de lajes semelhantes aquelas que lá estavam”.

 

O Corvo solicitou esclarecimentos sobre este assunto – nomeadamente a natureza, custos e prazo da obra – ao gabinete do vereador José Sá Fernandes, responsável pela Estrutura Verde, mas não obteve respostas em tempo útil.

 

Texto: Samuel Alemão             Fotografias: Paulo Carmo

 

  • Maria Papoila Silva
    Responder

    excelente artigo, por favor, alterem o texto para “arquitectura paisagista” no primeiro parágrafo 😉

    • Aurélio M
      Responder

      Ainda que não seja o mais importante do texto, a grafia está correcta.

      paisagístico, (paisagista + -ico) adj. Relativo à paisagem.

      paisagista, (paisagem + -ista) s. 2 g. Pessoa que pinta ou descreve paisagens.

      Cf. Dicionário Priberam on line

  • Tuga News
    Responder

    [O Corvo] Obras nos jardins ribeirinhos do Parque das Nações desagradam a moradores https://t.co/vf07YAAoCG #lisboa

  • Henrique Dias
    Responder

    Também já ví e não percebí. E tanta outra intervenção necessária…

  • Julio Lima
    Responder

    Não percebi. No final da reportagem dizem que o previsto é que as lajes sejam substituidas e que depois da obra fique como era até agora, mas em melhores condições. Se é assim, então qual é a noticia o debate ou a polemica? Sinceramente, não percebi.

  • Anónimo
    Responder

    Creio que a polémica seja que nada havia de errado com as lajes e agora não podem ser repostas pois foram destruídas, enquanto isso os passadiços que estão em estado de degradação, a tal ponto que alguém um dia vai cair ao rio, esses não foram substituídos!!!

  • Pedro
    Responder

    Relativamente a outro assunto – O Corvo bem podia investigar o que é que estão a fazer num terreno que está “colado” ao lado das muralhas do Castelo de São Jorge, com entrada pela rua da Costa do Castelo. Demoliram alguns edifícios e está lá um buracão de todo o tamanho. A partir do minuto 0:30 do seguinte vídeo:

    https://vimeo.com/146793831

  • Jose Camilo
    Responder

    Só quem não conhece o local pode ainda duvidar da mentira da incompetência do laxismo a que esta junta chegou Esta gente da J/F é mentirosa e perigosa pois acima de tudo mente e com as suas atitudes vai destruindo o que antes era um exemplo para toda a gente Isto é mau de mais não podemos pactuar com tanta imbecilidade

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