O Corvo convidou um cidadão com mobilidade reduzida a passear pelas ruas recentemente remodeladas do bairro. É verdade que as zonas históricas são, por regra, tortuosas. Mas seria de esperar que obras agora feitas tivessem em consideração as dificuldades das pessoas em cadeiras de rodas. E não as agravassem. Na verdade, há ali locais em que até a passagem no passeio de alguém sem problemas é impossível.

 

Texto: Samuel Alemão    Fotografias: Luísa Ferreira

 

Há mais de duas décadas que Carlos Dias, de 50 anos, não vinha ao miradouro de Santa Catarina. Desde que um acidente de trabalho, aos 26, o obrigou a sentar-se numa cadeira de rodas. Por breves momentos, detém-se a observar a paisagem, a partir do recentemente remodelado lugar de vistas privilegiadas. “Às vezes, vou para ali pescar”, diz, depois de confirmar que o trecho de zona ribeirinha lá em baixo é aquele mesmo a que se refere, junto do Cais do Sodré. Deslocar-se até junto do Tejo em automóvel, se bem que adaptado à condição de pessoa com mobilidade reduzida, é, todavia, muito mais fácil que mover-se em cadeira de rodas no histórico bairro de Santa Catarina. Apesar das recentes, e polémicas, obras de remodelação do espaço público ali feitas. De acordo com a opinião de alguns, as condições até pioraram para essas pessoas.

Em muitos locais, Carlos ou qualquer um com semelhantes necessidades de mobilidade não podem deslocar-se no passeio. Sobretudo porque a intervenção concluída, no verão passado, pela Câmara Municipal de Lisboa, parece ter esquecido muitos dos pressupostos das modernas cartas de acessibilidade: as barreiras para quem tenha dificuldade de locomoção não apenas se mantiveram, como, em alguns pontos do bairro, acabaram por ser consideravelmente agravadas. O aumento de dificuldade deve-se, sobretudo, à colocação de pinos metálicos em cima dos passeios remodelados. A ideia subjacente à instalação desses elementos de mobiliário urbano é a de impedir o estacionamento de automóveis em cima dos passeios. Mas tal missão viu-lhe ser acrescentada o papel de barreira a quem se mova em cadeira de rodas.

 

SANTA CATARINA

 

Se já não bastava o facto de, por regra, a circulação nos passeios da generalidade dos bairros históricos estar longe de ser tarefa fácil, alguns engulhos mantiveram-se em Santa Catarina. E outros surgiram agora, contra o que seria expectável. Ignorando a oportunidade proporcionada pelos recentes trabalhos de remodelação do miradouro e dos arruamentos em redor – que tanta polémica geraram, sobretudo junto de grupos de moradores que constestaram a retirada da calçada, além da alteração da sua tipologia -, os passeios não foram rebaixados. Continua a ser difícil fazer um normal atravessamento de rua, subindo e descendo a calçada com uma cadeira de rodas. “Nas zonas históricas, podiam rebaixar os passeios”, comenta Carlos Dias, que aceitou o repto do Corvo para dar um passeio pelo bairro, a fim de experimentar as condições de circulação nas ruas reabilitadas.

Carlos vive em Odivelas e costuma vir até Lisboa, em especial até ao Estádio Universitário, onde treina duas vezes por semana na equipa de basquetebol em cadeira de rodas da Associação Portuguesa de Deficientes (APD), na qual joga. O automóvel adaptado é, por isso, uma peça essencial do seu quotidiano. É com ele que realiza todas as deslocação, seja ir às compras ou tratar de um qualquer assunto burocrático. O problema maior, afinal, acabam por ser os pequenos percursos, sobretudo em zonas mais antigas, como a de Santa Catarina. Se na maior parte dos arruamentos das áreas mais recentes, as deslocações são complicadas, devido à profusão de barreiras arquitectónicas, então os bairros históricos revelam-se um pesadelo para qualquer cidadão portador de deficiência.

 

SANTA CATARINA

 

E aqui os problemas começam logo à entrada, junto ao Largo do Calhariz. A Rua Marechal Saldanha liga ao miradouro, lá ao fundo. Uma artéria sempre movimentada, portanto. Por estar sujeita a condicionamento de trânsito, devido ao sistema de controlo de entradas dos automóveis, quase todos os peões circulam pela faixa de rodagem, de sentido único. Solução pouco segura para quem se desloca em cadeira de rodas. O problema é que o passeio se revela uma fraca solução para Carlos, devido às variadas barreiras nele existentes: sinais de trânsito, degraus de acesso a prédios alteados, caixas de operadores de electricidade, pilaretes metálicos ou até a sua acção conjugada com a estreiteza dos próprios passeios. Uma dor de cabeça. Tal obriga Carlos a oscilar entre os passeios e a faixa de rodagem.

Já no Alto de Santa Catarina, mesmo em frente ao Museu de Farmácia, onde antes havia um parque de estacionamento sempre repleto e caótico, a amplitude do espaço agora delimitado por pilaretes convida a antecipar a sensação de espanto ante a vista do rio. Mas quem projectou o local esqueceu-se que a pedra irregular lá colocada é uma tortura para quem se desloca em cadeira de rodas. Por isso, a passagem tem de ser feita, outra vez, pela faixa de rodagem. O novo piso do miradouro, cuja conversão à pedra lioz foi muito contestada por moradores do bairro, acaba por ser solução amiga da cadeira de rodas, que ali rola com facilidade. Pena ser uma ilha num mar de acessos tortuosos.

 

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Decidimos ajudar Carlos Dias a descer connosco a Rua de Santa Catarina, até à esquina da Travessa da Condessa do Rio e da Rua dos Ferreiros. Como já verificáramos antes, nada de piso rebaixado para garantir o atravessamento dessas artérias. Ao contrário do que seria de supor numa obra bem recente. Mas o atravessamento tinha que ser feito, de qualquer forma. A solução passou por inverter a posição da cadeira de Carlos e galgar o lancil do passeio, com ele de costas. Fez-se a passagem para o outro lado, mas, depois, surge outro problema: devido ao estreitamento de passeio e à colocação dos referidos pilaretes metálicos, a utilização do passeio revela-se impossível. Aliás, até para um peão sem qualquer problema se torna difícil ou mesmo impossível usar o passeio, em certos pontos.

É certo que o pinos metálicos têm uma função. Foram ali instalados para acabar com a situação de estacionamento abusivo em cima do passeio – como era frequente naquele bairro, e à imagem do que sucede ainda em muitos locais da cidade -, mas os mesmos acabaram por criar uma outra barreira à circulação. Este género de obstáculos, encarado pelos responsáveis municipais como um “mal menor” , como reconhece o Plano de Acessibilidade Pedonal de Lisboa – actualmente em consulta pública -, agudiza a corriqueira situação de incumprimento relativo à largura mínima dos passeios dentro de um bairro habitacional, que é de 1,2 metros. Pior, no caso de Santa Catarina, a recente obra veio estreitar alguns deles, como é o caso da Travessa da Condessa do Rio.

 

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Carlos saiu de Santa Catarina com a sensação de que, apesar de se terem passado mais de duas décadas desde a sua última visita ao bairro – onde chegou a vir distribuir grades de cerveja -, o desrespeito pelos cidadãos com mobilidade reduzida é o de sempre.

 

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  • pedron
    Responder

    RT @ocorvo_noticias: Obras em Santa Catarina travam cadeiras de rodas – http://t.co/6m5X2FhJSo

  • João Ferreira
    Responder

    RT @ocorvo_noticias: Obras em Santa Catarina travam cadeiras de rodas – http://t.co/6m5X2FhJSo

  • Olga Velez
    Responder

    Uma vez mais está demonstrado que os Engºs de secretária, deveriam sair à rua e perceber o que estão a fazer. Nem todos os cursos superiores se compadecem com as 8 horas de trabalho sentado. Vistam o fato-macaco; calçem as botas de biqueira de aço, coloquem o capacete e trabalhem na realidade da cidade ded Lisboa!
    É por estes espíritos pequeninos, que o País não consegue evoluír!

  • Paulo Alegre
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    Em alguns casos será fácil de resolver se passarem os pilaretes para a via e encostá-los ao lancil.

  • abelhinha
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    Numa palavra: vergonha

  • Fernando Cardoso
    Responder

    Os nossos autarcas, os nossos arquitetos e engenheiros civis superam as Entidades Fiscalizadores ou então, estas entidades, por razões muito particulares fecham os olhos. Falar em acessibilidades e não ser hipócrita é dizer: em Portugal não há. Quando uma criança com cinco anos quer ir ao circo, numa cidade em que o circo não está montado, não vale a pena criar expectativas falsas e dizer-lhe que só há bilhetes para a semana! O INR,Instituto Nacional para a Reabilitação, ex-SNRIPD, que fica na Av. Conde Valbom, 63,não é acessível a pessoas deficientes motores e por isso não permite o acesso a uma grande maioria daqueles que serve. Está tudo dito.

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