O ambiente está a tornar-se caótico na área do Mercado da Ribeira não abrangida pela renovação. As obras que a Time Out está a fazer, e deviam estar prontas em Janeiro, pararam por alegadas dívidas ao empreiteiro. Nem o bar, nem o restaurante abriram ainda no primeiro piso. E, no piso térreo, os vendedores que foram deslocados dos seus postos desesperam por melhores condições. A Time Out e a Câmara Municipal de Lisboa nada esclarecem. O empreiteiro opta também pelo silêncio.

 

Texto: Fernanda Ribeiro

 

“Não vamos comentar”. Foi desta forma que o empreiteiro das obras de renovação do Mercado da Ribeira, a empresa de construção Neocivil, do grupo MSF, reagiu às questões colocadas pelo Corvo relativas à suspensão dos trabalhos, verificada já há mais de dois meses, por alegada falta de pagamento por parte da Time Out.

 

As obras de renovação do Mercado da Ribeira deveriam ter terminado em Janeiro de 2015, como anunciou o vereador José Sá Fernandes, em finais de 2014. Mas, afinal, estão paradas. O que adiou, para já, a abertura de um bar e de um restaurante no primeiro piso.

 

Num dos estabelecimentos previstos para o primeiro piso, que terá também uma sala multiusos e uma loja, está interessado o dono do Lux, Manuel Reis. O empresário tem um projecto para desenvolver na Ribeira, a título individual.

 

Contactado pelo Corvo, Manuel Reis escusou-se, porém, a falar sobre qualquer impacto resultante dos atrasos nas obras, a cargo da Time Out, a quem a câmara concessionou o Mercado da Ribeira. Já quanto ao tipo de estabelecimento a abrir no primeiro piso, Manuel Reis quis manter a expectativa: “É muito cedo para avançar com a comunicação de um projecto que está ainda a ser amadurecido”, disse.

 

Mas, além de adiar a abertura de novos negócios, a suspensão dos trabalhos está a perturbar em particular o negócio dos vendedores tradicionais, instalados no piso térreo. Foram mais de duas dezenas os comerciantes que, para permitir que as obras se realizassem, tiveram de se mudar “transitoriamente” para zonas sem as condições apropriadas.

 

Alguns permanecem, há já mais de um ano, fora dos seus locais habituais e não vêem a hora de voltar a ser adequadamente instalados. É o caso de, pelo menos, cinco peixeiras contactadas pelo Corvo, temporariamente instaladas num espaço onde lhes disseram que deveriam permanecer apenas 15 dias – mas onde permanecem desde aquela altura, sem condições.

 

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Paredes semi-pintadas e outras deixadas em reboco, lajes de lioz removidas e à espera de serem de novo colocadas, bancadas de pescado sem caleiras para escorrer as águas e peixe exposto ao sol e aos dejectos de pombo são cenários comuns a algumas dessas vendedoras.

 

“As obras pararam e o que nos dizem é que não havia dinheiro para pagar ao empreiteiro e ele foi-se embora. E nós para aqui andamos, a reboque, sem saber mais nada”, disse ao Corvo Ana Emília, peixeira instalada na Ribeira há mais de 50 anos – os últimos dos quais passados a deambular pelo mercado, atrás de uma banca que já mudou quatro vezes de poiso, consoante as necessidades ditadas pelos trabalhos de renovação.

 

Actualmente colocada na área central de venda das frutas e legumes, junto a uma parede, a banca de Ana Emília não dispõe das condições mínimas para a venda de peixe. No chão não há qualquer caleira para escorrer as águas da banca.

 

“Nunca estive tão mal, aqui na Ribeira. Quando está sol, o peixe, que aqui não está resguardado, fica a assar e perde qualidade num instante. E, de manhã, quando cá chego, isto está cheio de porcaria de pombo. Tenho de limpar tudo com cuidado, antes de pôr o peixe na bancada”, também ela exposta – ao contrário da que tinha antes de se iniciarem as obras, que era coberta e situada num corredor lateral.

 

“Isto é só perder clientes”, queixa-se a peixeira. “Agora, o lugar que me está reservado {no corredor lateral, onde estão a maioria das peixeiras} está quase pronto, só falta colocar lá uma bancada, que diz que desapareceu. Mas, como as obras pararam, nem posso ir para lá. Neste lugar sem condições – que é já o quarto por onde passei nos últimos anos – estou há perto de um ano”, acrescenta Ana Emília.

 

“É verdade que, na parte em que já fizeram obras, isto está muito mais bonito, mas para nós está muito pior. Quando veio para cá a Time Out, diziam que ela é que pagava tudo. E a câmara garantiu-nos que não entrava nenhum produto cá dentro que não fosse aqui do mercado, mas, afinal, não é nada disso que está a acontecer. A mim, nem uma escama me compraram”, afirma, por seu turno, Fernanda Maia, outra das peixeiras antigas da Ribeira.

 

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Por causa das obras, foi colocada num corredor que está para lá da zona renovada, onde só vai quem saiba que ali existem ainda vendedores. “É como se estivéssemos escondidos aqui neste corredor, onde já quase ninguém vem. E somos 18 pessoas aqui”, queixa-se Fernanda Maia, que começou a trabalhar na Ribeira aos 13 anos e conta agora 59.

 

Desolado também está António Vieira, o mais antigo cortador de carnes do Mercado da Ribeira, onde é vendedor há 59 anos. Tem um talho, que durante muitos anos funcionou onde actualmente está A Marisqueira Azul, um dos novos espaços renovados da Ribeira. Mas, há cerca de um ano, foi deslocado para o corredor onde está também Fernanda Maia e outros 16 vendedores.

 

Também ali as obras estão interrompidas. E António Vieira não se conforma. Acha mesmo que a renovação tem incluído “uma série de obras mal feitas” para quem, como ele, vende ali produtos alimentares.

 

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“Eles dizem que estão a arranjar isto. Mas a arranjar o quê? Se chove, a água entra cá dentro. Caleiras, só depois dos nossos reparos é que começaram a fazê-las. E, agora, as obras pararam e ninguém quer falar sobre o assunto”, remata.

 

Dificuldade em obter esclarecimentos sentiu também O Corvo, que, ao longo de uma semana, tentou falar com a Time Out, sem, porém, obter qualquer resposta. Pelo silêncio optou igualmente o gabinete do vereador José Sá Fernandes, não respondendo a qualquer das questões colocadas, nomeadamente se houve alguma diligência feita pela autarquia para obviar aos prejuízos causados pela suspensão das obras – em particular aos que há muitos anos ali têm o seu posto de trabalho.

 

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