A Rua Áurea perdeu o brilho de outras eras, quando os ourives dominavam o negócio na artéria que liga o Rossio ao rio. Obras de repavimentação, com duração prevista até finais de Agosto, aconselham os automobilistas a procurar alternativas para chegar ao Castelo ou ao Chiado

 

Texto e fotografias: Luís Filipe Sebastião

 

O ourives faz palavras cruzadas, a fila de carros avança devagar na Rua Áurea. “As pessoas acham que é por apitarem que vão mais depressa. Há alturas em que já não os oiço”, desabafa Vítor Salgado, 81 anos. O comerciante convive, desde sexta-feira, com a barulhenta procissão de buzinas na artéria da Baixa, cortada parcialmente para repavimentação.

 

Dois dias antes do Mega Pic-Nic no Terreiro do Paço, a Câmara de Lisboa avançou com obras na também conhecida como Rua do Ouro. Na sexta-feira da semana passada, o caos instalou-se na principal ligação do Rossio para o Castelo ou para o Chiado. A via “bus” foi tomada de assalto por automobilistas. Um trajecto de táxi de breves minutos passou a demorar mais de três quartos de hora. O táximetro triplicou o custo da “corrida”.

 

Muitos amaldiçoaram a iniciativa de uma marca de supermercados, que se realizou no sábado. Mas os constrangimentos na circulação continuam após o fim do festival campestre. A demora para percorrer cinco quarteirões, da Praça D. Pedro IV à Rua da Conceição, deve-se ao corte do troço nos últimos três quarteirões, até ao entroncamento com a Rua do Arsenal.

 

Uma nota camarária explica que a obra, em três fases, “inclui a repavimentação da faixa de rodagem, remoção dos antigos carris dos eléctricos e reparação de alguns troços de lancis e passeios”. A segunda fase de obra decorrerá entre as ruas da Conceição e da Assunção. Para o fim são deixados os dois restantes quarteirões mais perto do Rossio. Os automobilistas devem evitar atravessar a Baixa. Em caso de necessidade podem optar pela Avenida Almirante Reis, Martim Moniz e Rua dos Fanqueiros. No sentido sul-norte mantém-se o acesso pelas ruas da Prata e da Madalena.

 

A maioria dos automobilistas, no entanto, teima em perder tempo em frente à Ourivesaria Salgado. “Há mais de 40 anos que não passam aqui eléctricos”, recorda o ourives. Uma imagem antiga, no interior da loja, atesta a passagem deste tipo de transporte nesta rua. O comerciante começou a trabalhar em 1956 no estabelecimento em frente à sede do Totta&Açores (actual Santander Totta). “Tivemos aqui cinco pessoas a trabalhar e atendíamos mais estrangeiros do que portugueses”, recorda o proprietário, que sobrevive com pequenas reparações, da mudança de pilhas e braceletes para relógios. As montras quase vazias exibem relógios de colecção mecânicos e singelas medalhas e fios.

 

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 Os trabalhos de repavimentação deverão decorrer até ao final de Agosto.

 

“Os carris que vão tirar daí ainda rendem bom dinheiro, para a câmara ou para a Carris”, comenta Vítor Salgado, habituado a dar valor a metais preciosos. Para o octogenário não faz sentido manter os vestígios dos eléctricos no subsolo, quatro décadas após terem sido substituídos por autocarros. As portas ao lado estão fechadas ou entaipadas e o ourives lamenta que a recuperação da Baixa pombalina não passe por mais habitação e comércio tradicional: “Agora isto é só hotéis e chineses”.

 

Outro comerciante, próximo da Rua do Ouro, admite que “as obras são sempre péssimas para o comércio”, mas reconhece que as ruas da Baixa precisavam há muito de novo pavimento. “Vai incomodar uns meses, mas depois fica em condições”, acrescenta o filho. Também pede para não ser identificado, para “não ter chatices”, e avança a razão para os trabalhos no Verão: “Só agora é que desbloquearam as verbas e a câmara não queria perder os fundos”. Na Rua do Comércio, um lojista que também quer ficar anónimo critica a forma como esta artéria foi repavimentada: “Puseram um piso novo por cima do antigo e, em algumas zonas, o alcatrão ficou mais alto do que o passeio. Quero ver quando vier chuva a sério…”

 

Fase com pouco comércio

 

No troço em obras, uma retroescavadora rasga o solo, deixando à mostra carris e canos de outras infra-estruturas. Operários acompanham os trabalhos e cortam os fios que aparecem. As barras de ferro enferrujado que suportavam os rodados dos eléctricos vão sendo libertadas com a ajuda de um martelo pneumático. Uma vedação metálica protege os peões nos passeios. Para já, os trabalhos decorrem apenas junto a entradas secundárias de edifícios de instituições bancárias ou do Ministério da Justiça. Na segunda e terceira fases haverá mais comércio afectado.

 

 

“Esta obra só podia ser feita com tempo seco”, explica a O Corvo o vereador da Mobilidade na autarquia lisboeta, Fernando Nunes da Silva. Em tempo de chuva, acrescenta, o prejuízo para o comércio seria maior. Consciente do incómodo para moradores, comerciantes e turistas, o autarca defende, porém, que este período é aquele em que os trabalhos têm menor impacto nesta zona da cidade. A última fase, que deve demorar três semanas, foi programada para o termo da obra, prevista até final de Agosto, “se não ocorrerem imprevistos”.

 

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Os carris que agora estão a ser retirados estavam soterrados há quatro décadas.

 

A degradação e inclinação do pavimento no meio da faixa de rodagem aumentava a percepção de insegurança para os automobilistas, que se aproximavam demasiado dos passeios. Esta situação levou a câmara a considerar a obra como prioritária. “O sistema de exploração dos eléctricos na cidade está consolidado e não fazia sentido manter os carris” na Rua do Ouro, esclarece o autarca.

 

Além de muito deteriorados, a manutenção dos carris só se justificaria numa eventual reposição dos eléctricos na Avenida da Liberdade. Nunes da Silva considera que isso não faz sentido, quer pelo valor elevado da construção de uma nova linha, quer pela sobreposição com o trajecto do metropolitano.

 

Aos automobilistas resta procurarem alternativas à Baixa. E deixarem de buzinar, pois, como aponta Vítor Salgado, não será por isso que avançam mais depressa na ratoeira em que se meteram.

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