Sempre tive uma reacção muito variável em relação aos pedintes com quem me cruzo na cidade e agora que eles regressaram em força à minha porta, ao meu bairro e aos mais variados locais de Lisboa por onde ando, deu-me para pensar mais no assunto e nas oscilações de humor que me despertam. O dar ou não dar, no meu caso, depende muito dos dias, se tenho ou não disponibilidade mental para pensar mais nos outros, se tenho dinheiro e verdadeira vontade de ajudar o próximo… e sobretudo depende, e muito, deles próprios. Porque há alguns que me irritam solenemente, com o à vontade com que nem pedem, exigem logo. Foi o caso da rapariga que há poucos dias me abordou, estava eu na caixa multibanco a levantar dinheiro e insistentemente perguntava “posso falar consigo?”. Como eu não lhe desse troco, além de um mero “agora não dá jeito”, já ela reclamava, ali à porta da Padaria Portuguesa: “Pronto. Dê-me só um euro”.

Só um euro…que lata, pensei com os meus botões. E, no entanto, é essa a moeda que, se tiver, eu dou, em dias felizes. Mas coitado do homem que veio logo a seguir, pedir também, ainda eu estava a guardar o dinheiro que levantara. Levou uma grande corrida: “Dois de uma só vez é demais. Não tenho que chegue para tanto”, disse-lhe logo. Mas estes eram ambos uma espécie de súbitos profissionais da pedinchice, que, até parece, de repente se lembraram que é mais fácil pedir do que fazer qualquer outra coisa. Ontem não levaram nada. Já hoje, na Avenida de Roma, foi uma mulher que me abordou, a pedir. E mal se apercebeu que eu estava a considerar, começou em pranto a mostrar-me a caixa de remédios que, dizia, acabara de comprar na farmácia, para o marido doente. Será verdade, não será? Algo me levou a acreditar que ela merecia algum apoio. Mas “não vale a pena chorar”, disse-lhe eu, ao mesmo tempo que lhe dava uma moeda. De um euro, claro.

Bem diferente é a atitude do homem que diariamente cruzo, mal saio de casa, porque ele passa todas as manhãs à minha porta. Não é novo nem velho, deve ter uns quarenta. Está sempre apoiado numa bengala e com uma mochila a tiracolo. Há dois anos já que o vejo aqui e durante muito tempo nem percebi que pedisse dinheiro às pessoas. A mim, aliás, nunca pedira dinheiro. Um dia pediu-me antes um favor. Que lhe marcasse um número de telefone, na cabine telefónica que ainda existe na minha rua e que eu nem sabia se ainda estava a funcionar. Estendeu-me um papel onde tinha o número escrito e disse-me: “moedas não é preciso que eu tenho”. Fiquei um pouco sem perceber o que faltava então aquele homem grande mas com um ar ingénuo que se pode confundir com atraso mental. Mas não questionei. Marquei-lhe o número e deixei-o, a falar com quem quer que estivesse do outro lado da linha.

O favor foi agradecido, uns dias mais tarde, à minha porta, onde o encontrei outra vez. Mas lá chegou o dia em que ele ousou ir mais longe. E então pediu-me, sim, alguma coisinha. “É que com esta chuva toda, olhe, ninguém me deu nadinha, nadinha, nadinha” disse, mostrando-me pela primeira vez um copo de plástico onde recebe os contributos de quem passa na avenida. E eu acedi ao pedido.

No dia seguinte o sol brilhou e ele já se ensaiava, mas travei-lhe o ensejo, explicando que não posso ajudá-lo todos os dias. “Pois, que isto está mau para todos”, concedeu ele de imediato. Mais adiante, surgiu-me uma imagem que me lembrou a infância em Alvalade. Ao sol, um velho cego tocava concertina enquanto um outro homem, igualmente velho, em seu nome pedia a quem passava. Foi nesse momento que me lembrei dos pedintes que antigamente havia em Alvalade. Que não se ficavam pela porta da rua. Subiam as escadas até cada um dos andares onde lhes davam esmola.

Num bairro da classe média, Alvalade tinha então os seus pedintes de estimação, que eram uma espécie de “avençados”. A minha mãe teve durante muitos anos uma velhinha a quem dava dinheiro ou alguma coisa de comer, quando ela nos batia à porta, o que acontecia todas as semanas. Mas só dava àquela velhinha, que era a escolhida, a pobre eleita. Não sei bem por que razão, mas os pedintes daquele tempo pareciam ter mais dignidade na sua pobreza. Porque pedir custa. Hoje, acho que é mais pela desfaçatez de alguns que o meu espírito católico se esfuma e a dureza de um não vem frequentemente à tona.

 

Texto: Fernanda Ribeiro        Ilustração: João Concha

  • Luís Paixão Martins
    Responder

    RT @ocorvo_noticias: O regresso dos pedintes – http://t.co/Uhw9bLNod6

  • Miguel Louro
    Responder

    É complexo. Tanto o texto como o contexto.

  • Jun Itabashi
    Responder

    Artigo bem escrito. E gosto do desenho. Bravo.

Deixe um comentário.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

O Corvo nasce da constatação de que cada vez se produz menos noticiário local. A crise da imprensa tem a ver com esse afastamento dos media relativamente às questões da cidadania quotidiana.

O Corvo pratica jornalismo independente e desvinculado de interesses particulares, sejam eles políticos, religiosos, comerciais ou de qualquer outro género.

Em paralelo, se as tecnologias cada vez mais o permitem, cada vez menos os cidadãos são chamados a pronunciar-se e a intervir na resolução dos problemas que enfrentam.

Gostaríamos de contar com a participação, o apoio e a crítica dos lisboetas que não se sentem indiferentes ao destino da sua cidade.

Samuel Alemão
s.alemao@ocorvo.pt
Director editorial e redacção

Daniel Toledo Monsonís
d.toledo@ocorvo.pt
Director executivo

Sofia Cristino
Redacção

Mário Cameira
Infografías 

Paula Ferreira
Fotografía

Margarita Cardoso de Meneses
Dep. comercial e produção

Catarina Lente
Dep. gráfico & website

Lucas Muller
Redes e análises

ERC: 126586
(Entidade Reguladora Para a Comunicação Social)

O Corvinho do Sítio de Lisboa, Lda
NIF: 514555475
Rua do Loreto, 13, 1º Dto. Lisboa
infocorvo@gmail.com

Fala conosco!

Faça aqui a sua pesquisa

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com