O espectáculo – multimédia, porque acompanhado de cheiro – oferecido pela generalidade dos ecopontos em Lisboa é deprimente, mesmo nos locais mais emblemáticos da cidade. No Príncipe Real, onde a moda assentou arraiais, o ecoponto é um estendal de imundície ainda mais lamentável do que o existente junto ao ecoponto da Praça da Alegria, constantemente remexido pelos sem-abrigo que ali vivem, em busca de materiais que lhes tornem as noites mais confortáveis.

 

No Príncipe Real, não há sem-abrigo residentes. Os detritos são, na sua maioria, formados por garrafas vazias e contentores de comida, restos dos inúmeros bares e restaurantes em volta.

 

Uma grande parte deste lixo nem chega a entrar nos contentores, cujas aberturas parecem demasiado pequenas para as necessidades. A somar a isto, há o desleixo das pessoas. É vulgar ver enormes sacos de plástico cheios de garrafas que ninguém se deu ao trabalho de abrir ou caixas de pizzas que tinham que ser rasgadas em bocados para poderem caber no ecoponto e foram abandonadas no meio do chão. Quando chega a manhã, os cães das redondezas levados a passear no jardim encarregam-se de desmanchar as embalagens que ainda têm agarrados alguns restos comestíveis.

 

F. passa vezes sem conta junto ao ecoponto do jardim do Príncipe Real e, na maioria delas, faz como toda a gente, desvia simplesmente os olhos da sujeira reinante. Mas nem todos os dias uma pessoa acorda com a mesma disposição. Na manhã de terça-feira de Carnaval, F. irritou-se quando viu que os contentores do ecoponto estavam vazios, enquanto embalagens de cartão, montes de papéis e sacos cheios de embalagens de plástico se acumulavam no seu exterior.

 

Também se sentiu um pouco envergonhado ao ver a cara dos turistas que, saindo dos hostels em volta para tomar o pequeno-almoço, eram obrigados a uma espécie de corrida de obstáculos, à passagem pelo ecoponto.

 

Acometido de um súbito zelo cívico, F. decidiu deitar mãos à obra: rasgou caixas de “pizzas” em pedaços, que enfiou no recipiente azul, ouviu o tlim-tlim das garrafas a partirem-se umas contra as outras no fundo do contentor verde e começou a amachucar os sacos com embalagens de comida encostados ao contentor amarelo. Não ia limpar tudo, isso seria impossível, mas o local ficaria com melhor aspecto.

 

Um desses sacos não cabia na abertura e F., pensando que apenas continha plásticos, dado que era isso o que conseguia ver de fora, decidiu empurrá-lo contentor adentro. Mas, azar dos azares, oculta no meio das embalagens de iogurtes e manteiga, havia uma garrafa partida e F. sofreu um profundo corte na mão.

 

Maldizendo a sua sorte, dirigiu-se ao bebedouro do jardim, a poucos metros do ecoponto, na intenção de lavar o sangue que corria em fio. Mas aí teve que esperar que dois taxistas acabassem de lavar os panos que usam para limpar as suas viaturas. Levaram a tarefa ao fim com toda a calma, indiferentes a uma mão a pingar sangue.

 

F. telefonou à mulher, que o transportou de automóvel ao centro de saúde mais próximo, na Travessa do Noronha. A manhã já ia adiantada, mas a noite, nos bares da zona, ainda não tinha acabado. Afinal, estava-se em pleno Carnaval, e havia quem se passeasse pela faixa de rodagem, de garrafa na mão, obrigando a uma condução cautelosa.

 

Um casal jovem, muito alcoolizado, tombou para cima do carro em que a mulher de F. esperava por ele. Os amigos que ainda se encontravam por perto conseguiram fazê-los entrar num táxi, que ficou alguns momentos parado no meio da rua, só arrancando depois de a janela de trás ter sido aberta e duas garrafas terem voado através dela, estilhaçando-se no chão.

 

Pouco depois, F. saíu do centro de saúde com a mão cosida com três pontos e uma injecção contra o tétano. Regressou a casa com o espírito cívico um pouco abalado.

 

Texto: Isabel Braga           Fotografia: Fernando Faria

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