A história de Diogo Alves, o bandido que aterrorizou Lisboa nos anos 30 do século XIX, cujas sinistras façanhas ainda hoje permanecem no imaginário colectivo dos portugueses, é contada, em forma de romance, por Anabela Natário, em “O Assassino do Aqueduto”.
Portugal estava a sair de uma guerra civil sangrenta e, nas ruas de Lisboa, imperava a miséria e a anarquia, para a qual muito contribuiam os soldados das duas facções que, desocupados, se organizavam em grupos de guerrilha, vivendo do que roubavam. A capital portuguesa, apesar de pobre, era, então, uma terra de oportunidades para a gente que chegava da Galiza, fugindo de uma miséria ainda maior. Entre esses, contava-se Diogo Alves, natural de Lugo, que emigrou para Portugal aos dez anos, tendo começado por servir como criado, antes de se dedicar ao crime.

 

Anabela Natário consegue, com bastante sucesso, recriar o ambiente da época, recorrendo a diálogos em que os personagens falam dos acontecimentos da actualidade, numa linguagem colorida e com recurso a termos e expressões hoje caídos em desuso – que ela foi buscar aos numerosos documentos da época que consultou, designadamente jornais e peças do processo judicial contra Diogo Alves.

 

O livro abre com o relato do assalto – que aconteceu de facto – à casa de um médico conhecido e abastado, na Rua do Alecrim, durante o qual Diogo Alves matou quatro pessoas. O caso indignou a população, havendo, da parte das autoridades, a necessidade imperiosa de demonstrar que, nas ruas de Lisboa, mandava lei e não os bandidos à solta.

 

O mais famoso e temido era Diogo Alves, que tinha como um dos seus locais de assalto favoritos o estreito caminho que, no alto do aqueduto das Águas Livres, ligava Benfica a Campolide. Quem não conseguia fugir-lhe, era atirado para o abismo, 65 metros em queda livre, e nem as crianças eram poupadas.

 

O juiz Bacelar assume como missão prender e condenar Diogo Alves, acabando por consegui-lo, usando métodos inovadores para o seu tempo, no que toca à investigação criminal. Este juiz é um dos personagens principais do romance. Os restantes são Gertrudes Maria, a Parreirinha, taberneira em Palhavã, amante, cúmplice e instigadora de muitos dos actos do assassino, mas também os comparsas de Diogo Alves e os receptadores dos seus roubos.

 

“O Assassino do Aqueduto” não será um romance perfeito, há hiatos narrativos e faltam elementos sobre muitas das personagens envolvidas, mas Anabela Natário tenta compensar essas falhas, recorrendo à imaginação e conferindo vivacidade e colorido aos diálogos. Nem todos serão necessários, mas, através deles, a autora confere consistência a personagens sobre as quais falta informação.

 

Tal como a autora – jornalista de profissão, além de escritora – já explicou em entrevistas, Diogo Alves não era um “serial killer”. Este é um tipo de homicida movido por impulsos internos, que executa as suas vítimas segundo rituais próprios, aparentando ao mesmo tempo ser uma pessoa normal, sociável, até. Diogo Alves, pelo contrário, nada tinha de sociável, matava para eliminar os obstáculos ao seu principal desígnio, o roubo. Era um ladrão, em primeiro lugar, mas matava sem hesitações e ao menor pretexto, intrigando os cientistas pela sua crueldade.

 

Para esclarecer o mistério deste homem, depois de ele ser enforcado – a 19 de Fevereiro de 1841 -, a sua cabeça foi cortada, para estudo, encontrando-se ainda hoje conservada em formol, no Teatro Anatómico da Faculdade de Medicina de Lisboa.

 

Texto: Isabel Braga

 

“O Assassino do Aqueduto”

Anabela Natário

Esfera dos Livros

296 pp.

PVP: 16  €

 

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