Movimento “Ouvi na Freguesia” acaba de nascer nas Avenidas Novas para pôr lisboetas a debater problemas da cidade

REPORTAGEM
Sofia Cristino

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VIDA NA CIDADE

Avenidas Novas

12 Novembro, 2018

Três moradores das Avenidas Novas juntaram-se para criar o movimento cívico “Ouvi na Freguesia”. Querem dar mais voz aos habitantes de uma parte nobre da cidade que, apesar da sua localização central, consideram ser pouco ouvida. Por isso, vão realizar debates a cada dois meses. Ambicionam, todavia, chegar a todas as freguesias da capital. O primeiro encontro acontece na próxima terça-feira, 13 de Novembro, e é sobre prostituição, que dizem ser um dos maiores problemas do bairro. “Preferimos fingir que não vemos o que se passa ao nosso lado, mas, com estes debates, queremos ‘tocar na ferida’, falar do que ninguém tem coragem”, diz um dos responsáveis pela criação do movimento.

No bairro residencial Alto do Parque, junto ao Parque Eduardo VII, em pleno coração de Lisboa, há cada vez mais mulheres e homens a prostituirem-se, durante todo o dia. Os turistas que por ali passam queixam-se de serem assediados e até evitam percorrer algumas ruas. Mas “ninguém quer falar sobre isso”, diz Catarina Pinheiro, 37 anos. Inconformada, a moradora, juntamente com Luíza Cadaval e Pedro Félix, 61, também habitantes das Avenidas Novas, criaram o movimento cívico Ouvi na Freguesia, para que se comece a discutir mais este e outros “assuntos tabu”. Nesta fase, fá-lo-ão em debates bimensais. “Preferimos fingir que não vemos o que se passa ao nosso lado, mas, com estes debates, queremos ‘tocar na ferida’, falar do que ninguém tem coragem. Não vamos arranjar a solução para os problemas de Lisboa, mas vamos habituar as pessoas a ouvirem mais, a formarem uma opinião e a difundi-la”, explica Catarina.

O movimento nasce numa freguesia de Lisboa que, apesar da sua centralidade, na opinião de quem lá vive, não tem tido muita atenção. O primeiro encontro é sobre prostituição e acontece no próximo dia 13 de Novembro, pelas 20h30, na Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho. De forma a conhecer melhor as necessidades do bairro, o Ouvi na Freguesia vai organizar, de dois em dois meses, conferências com intervenção de vários oradores e especialistas em vários temas, que serão intercalados pela participação do público. A ideia é pôr toda a cidade a falar e a reflectir sobre os temas que inquietam a comunidade, no dia-a-dia, perceber quais os problemas transversais a cada freguesia e de que forma se podem ajudar.

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O objectivo é começar nas Avenidas Novas e alargar o debate ao resto das freguesias

Os três amigos, que se conheceram em reuniões descentralizadas da Câmara Municipal de Lisboa (CML), não precisaram de pensar muito para decidir o primeiro tema da conferência – Prostituição e Impacto Social. “É o maior problema da freguesia há algum tempo, mas tem vindo a agravar-se. Sendo mulher, custa-me muito ver estas mulheres a serem tratadas como mercadoria. Chegam aqui carrinhas e deixam-nas às dezenas, todos os dias, até no dia de Natal”, conta Luiza Cadaval. A também presidente da Associação de Moradores do Alto do Parque, bairro situado entre o Parque Eduardo VII e Campolide, diz que tem havido “um grande desleixo” dos órgãos de poder local. “Todos os homens com quem lido, na polícia e nas autarquias, são insensíveis ao problema. Como podem fechar os olhos a um crime que está a ser cometido todas as noites na cidade que governam?”, questiona.


 

Com o primeiro encontro do Ouvi na Freguesia, os responsáveis querem não só perceber o impacto que a prostituição tem em quem é “obrigado a partilhar aquele espaço de trabalho diariamente”, mas também na vida da mulher ou do homem prostituído, e dos clientes.  “Trabalhei aqui entre 2006 e 2012, não conhecia a zona na altura e não percebia porque estava sempre uma senhora na esquina. Quem vem para aqui só trabalhar não percebe logo o que se passa. A legalização da prostituição poderá causar confusão para alguns. Mas esta estranheza surge porque não temos uma opinião formada sobre isso, e um debate poderá ajudar-nos”, acrescenta Catarina.

 

Os habitantes dizem que esta é “uma prostituição bem diferente daquela que existia há 40 anos”, que deixou de existir. Agora, vêem-se mais travestis e as prostitutas mudam de três em três meses, o que os leva a acreditar tratar-se de uma rede internacional. “Passam a noite inteira à conversa e mesmo por baixo das nossas portas, ouvimos tudo. Numa rua pacata de um bairro residencial, todas as noites é um vaivém de carros, mulheres a rirem-se, violência e ninguém dorme. E é um problema que vem de fora, nenhum deles mora cá”, conta Luiza Cadaval. Pedro Félix, morador no Bairro Azul, considera que “há um grande problema diante dos nossos olhos” e não se está a fazer nada para o resolver ou compreender. “As próprias reuniões da Câmara e as sessões da Assembleia Municipal são insuficientes, muitas pessoas não conseguem falar, podemos colmatar essa lacuna com os debates”, diz.

 

 

Há seis anos, abriu um bar de alterne no bairro, frequentado por prostitutas de toda a cidade. A partir daí, o tráfico e o consumo de droga começaram a ficar descontrolados, dizem os responsáveis do Ouvi a Freguesia. “Ficámos chocadíssimos, aquele bar tornou-se um antro de prostituição e de tráfego de droga. Felizmente, já fechou. Mas a prostituição não acalmou. Voltou tudo à estaca zero e há uma impunidade total. O problema não se resume a estarem cá umas horas, mas a tudo o que fazem e deixam visível no dia seguinte”, diz Luiza Cadaval. A moradora refere-se ao lixo acumulado na via pública, proveniente do material utilizado durante a noite, muito largado no meio da rua. “Como elas e eles não têm casa de banho, fazem as necessidades no passeio”, comenta.

 

Os responsáveis pelo Ouvi na Freguesia dizem que a Câmara de Lisboa e a Junta de Freguesia das Avenidas Novas não têm conseguido acompanhar o aumento do volume de lixo nas imediações do Parque Eduardo VII, nem discutido um problema que atormenta os moradores, todos os dias, há vários anos. Os debates bimestrais também servirão para alertar as entidades competentes do seu papel. “A junta não consegue resolver o problema da prostituição, mas tem a competência da higiene urbana. É necessário reforçar os meios no dia seguinte”, diz Catarina Pinheiro.

 

Os próximos debates organizados pelo movimento cívico ainda não estão definidos, mas já há algumas ideias em cima da mesa. “Queremos começar a ouvir ecos e, só depois, avançar com novos temas. Por exemplo, o envelhecimento da população, a mobilidade e a higiene urbana, são temas que, não tendo conhecimento directo sobre os mesmos, não tenho como opinar. Faz sentido todos ouvirem o que especialistas têm a dizer sobre isso. Só assim se consegue formar uma opinião concreta sobre temas transversais à cidade”, explica Catarina.

 

 

Um dos temas do próximo debate poderá ser o envelhecimento e a solidão no Bairro de Santos ao Rego. “Avenidas Novas é a freguesia central de Lisboa, muito conotada com uma classe média alta, mas tem zonas mais pobres. É difícil chegar a estas pessoas, porque também existe uma pobreza muito escondida. O Bairro de Santos ao Rego é altamente fustigado, a população está mais envelhecida e isolada, e queremos chegar a eles”, diz Catarina.

 

A falta de uma alternativa ao encerramento, a 25 de Dezembro de 2016, da única esquadra da Polícia de Segurança Pública (PSP) que existia na freguesia continua a preocupar estes moradores. “Desde que a esquadra fechou, o bairro nunca mais foi patrulhado. Nunca houve tantos assaltos, há prédios onde todos os andares já o foram. É uma sensação de insegurança permanente. E isso acontece na rua, também. A polícia aparece duas horas depois de ter acontecido o crime”, conta Luiza. Num edifício, já foram mudadas todas as fechaduras e instalou-se videovigilância, mas muitos já optaram por vender as suas casas e ir embora. “O bairro sofreu uma grande alteração, as casas foram recuperadas e a população começou a renovar-se, mas as famílias com crianças não gostam deste ambiente e saem”, assegura.

 

Este primeiro debate contará com a presença da associação O Ninho, da Plataforma Portuguesa dos Direitos das Mulheres, da Comissão Nacional Justiça e Paz, do antropólogo Luís Figueiredo e da jurista Sofia Vala Rocha. “Não queremos ter uma sala cheia e aplausos, queremos uma plateia que esteja disposta a dar ideias. Queremos ter várias vozes a obrigarem-nos a reflectir e acredito que há temas que não se vão fechar num só debate. Se alguém os replicar ainda melhor”, frisa Catarina Pinheiro. Com estes encontros, o Ouvi na Freguesia também quer chegar às pessoas mais isoladas, que acabam por não perceber o que se está a passar à porta de sua casa. “Há muita informação a circular na internet, mas também há muita gente info-excluída. Chamar as pessoas para terem acesso a mais conhecimento é muito importante. Grande parte da comunicação é feita pelas redes sociais e muitos não as utilizam”, conclui Pedro Félix.

 

Mais informações: www.facebook.com/ouvinafreguesia/

 

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COMENTÁRIOS

Comentários
  • Afirma Pereiraa
    Responder

    Excelente iniciativa!
    Numa época em que se vive no faz-de-conta, para a imagem, numa redoma de mentiras, surge gente que tem a coragem de apontar o que está mal. Porque sabem que só assim as coisas podem realmente melhorar.
    Espero que o exemplo se espalhe para as outras freguesias.

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