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No seu mais recente livro, “O Olhar e a alma”, lançado durante a Feira do Livro de Lisboa, Cristina Carvalho romanceia a partir de factos reais a vida do pintor italiano Amedeo Modigliani. O Corvo publica aqui um dos capítulos desta obra.

 

 

Ilustração: Sofia Morais

 

 

Le Lapin Agile

 

Nem o fumo nem o calor das conversas poderiam jamais travar a intenção ou o espanto ou o desejo de integração de Modi nos círculos mais intensos, no miolo das conversas mais sanguíneas que se desenrolavam e se estendiam pelos tampos de todas as mesas, em cada noite passada no café de Père Frédé, o pai de todos.

 

Muito para além de todas as novidades que a nova vida iria apresentar‑lhe, a pobreza que sofreu foi humilhante. Em muitos dias de solidão, de esperas e desesperos, teria como único alimento um caldo quente contido numa tigela de metal e pouco mais.

 

Era esta a verdade, agreste e quase miserável, que o aguardava aqui em Paris.

 

Iria peregrinar por hotéis e casas de baixa condição; iria conviver e dividir enxergas e espaços miseráveis com ciganos e refugiados; desenharia centenas de papéis em cima dos tampos das mesas dos cafés, como este onde estava agora; iria dormitar por breves horas nas casas de alguns amigos. Mas esta realidade ele ainda não conhecia.

 

Mas ele estava preparado. Imaginou isto mesmo. Sabia, por bocas várias, que teria a sua luta e que uma luta entre rivais do mesmo ofício era, com certeza, sangrenta e destruidora. Havia de encontrar quem o ajudasse, quem o quisesse conhecer melhor, havia de encontrar até quem o pudesse amar. Isso era uma certeza.

 

Agora, por esta altura, um cenário de café. Uma cadeira perto de uma vidraça a deixar ver uma réstia da luz do dia, uns quantos bêbados, dos verdadeiros, e ali mais ao longe, no fundo do cenário, uns olhos que o fitaram com insistência e interrogações variadas. Vislumbrou uma figura robusta, alargada, sentada também. Na cabeça, um boné a descair para os olhos. E nos dedos da mão esquerda, um charuto. Na direita,

um copo de vinho tinto.

 

«É vinho Andaluz», gritou a figura lá do fundo do espaço. «À vossa, compagnons!» E emborcou tudo num só trago. Num alegre trago! La viecontinue! Je suis presque bien!

 

Pablo Picasso era exuberante. Mas também insinuante e provocador. Daqueles provocadores que, bem sentados, bem instalados numa ampla cadeira, mal mexem uma pálpebra, contudo o mundo pertence‑lhes. Ele era como um grande lobo a dar um sinal de alerta ao resto da alcateia ao avistar um sinal de perigo, de afronta, que tanto podia ser a beleza evidente de quem se aproximava como todas as interrogações possíveis.

Quem era? Donde vinha? Que faz aqui? O que quer? A visão de Modi perturbou todas as mesas, mas especialmente a mesa de Pablo. E todos por ali se agitaram, curiosos.

 

A fumarada no Lapin Agile adensa‑se com o correr do fim da tarde. Para além das mesas com seus tampos de mármore totalmente preenchidos por canecas e copos sempre bem cheios de vinho, murros e socos nos tampos e das cabeças perdidas, umas sonolentas, outras delirantes como cata‑ventos, ouvia‑se uma gritaria estrondosa e eram discussões, conversas em tons exaltados, abafadas, a maior parte das vezes, pelas malgas de sopa que Père Frédé mandava colocar debaixo das narinas dos exaltados artistas. No Lapin, só artistas e dos pobres, dessa gente muito pobre de dinheiro, de vida, de esperança. Gente a pedir festas e atenções como os cães vadios, pessoas esfomeadas já sem graça nem intenção, mantendo, ainda assim, todo o seu porte interessante e diferente.

 

Agora o Lapin recebia Modi, o interessante Modigliani bem vestido de veludo e camisa de fino algodão, as botas ajustadas aos pés, o seu lenço de seda enrolado no pescoço que para já, para já, ainda não apresentava qualquer marca, daquelas marcas sanguíneas, recalcadas pelos beijos das amantes. A cidade era esta. Eis Paris a cidade viva, agitada, contida e afogada em líquidos e paixões, obnubilada por vapores de fumos que poderiam adormecer para sempre, mesmo para sempre, as cabeças mais inspiradas, os mais intensos sopros da vida. A cidade, agora, era Modi e as suas moedas que chocalhavam nos bolsos. Modi que era uma quase alucinação, uma aparição de beleza, o ímpeto aristocrático, as maneiras finas e o som da língua que agora lhe despontava para a aprendizagem que se queria mais ou menos rápida. Esta língua não lhe era nada desconhecida. Lembrava‑se muito bem, lá na sua infância em Livorno, de ouvir a sua mãe a falar com os alunos e também se lembrava dela a recitar‑lhe poemas. Mas uma coisa era lembrar‑se do som, outra coisa falar o suficiente para poder conversar e sentir‑se mais à vontade. Contudo, a fome de viver era imensa e tudo seria rapidamente conseguido. Era uma questão de tempo. Pouco.

 

Assim, ele apresentou‑se no café. Devagar, ondulou como uma sombra sedosa por entre as mesas deitando olhares aqui, ali, mais à frente e na direcção do balcão onde muitas figuras se sentavam. Escolheu, com o olhar, uma mesa recolhida num canto, ao fundo da sala, perto da vidraça maior. Tentou afastar a angústia que sentia – o que eu quero, o que eu não quero, quem eu sou ou quem não sou –, uma imensa angústia, um sentir‑se nu, um solitário, um pobre mendigo de si próprio. Ao pensamento chegavam‑lhe as mais estranhas visões em relâmpagos intensos que se desfaziam nas lembranças mais longínquas. Chegava a sentir a humidade do ar da sua terra, a ouvir os gritos das aves do Inverno, a perceber a luz esmaecida dos candeeiros. Ouviu os seus próprios passos ainda em criança e a voz da sua mãe. Sim, chegou a ouvir com nitidez a voz da sua mãe enquanto varria com o fogo do olhar todo este espaço único que tanto desejou e que agora era sinal de um tão grande sacrifício de vida.

 

Mas havia de vingar e de ultrapassar tudo isto. Até porque não era a primeira vez que se encontrava quase sem dinheiro e num sítio desconhecido. Vinha de Veneza…

 

Sentou‑se. E sentiu que, para pertencer a este mundo que tanto tinha desejado por perceber que o país de onde vinha nada lhe podia dar, teria de despir‑se por completo, entregar a sua alma e todos os seus desejos a alguém. Mas a quem ainda não sabia. Todas aquelas figuras que por ali existiam, a maior parte eram estrangeiras, isso percebia‑se pelos modos, pelos sotaques, pelo à‑vontade que só um estrangeiro sente em outro país. Aí se sentou Modi, na ponta da cadeira, observando. Na ponta de muitas outras cadeiras ele se sentaria por mais alguns anos.

 

Nunca foi capaz de dizer tudo o que queria dizer. No fundo, seria um idiota, um mal‑amanhado, um espírito remediado, um quase velho, sem forças, sem recursos, sem aconchego nenhum. Queria gritar, fazer com que toda aquela gente ainda incógnita percebesse quem ele era, donde vinha, por que estava ali. Mas o cenário, malcheiroso a vinho vomitado, os rolos de fumarada anunciando borrasca, dessa borrasca mais perigosa, a das palavras, fez com que hesitasse. E, olhando à volta, o que via? Uns melancólicos, uns diabos tão tristes como ele, que, sem saber por que sim nem por que não, o contemplavam e admiravam por cortesia ou por compaixão. Uma lástima hipócrita. Um dó de almas tristes, tristes como as trevas mais profundas.

 

A noite atrai as mais variadas sombras, os mais intensos desejos. Todos sabemos disto. E no Verão o Lapin Agile mantinha as portas abertas, muitas vezes a noite inteira até às primeiras labaredas do sol das madrugadas, dessas labaredas que lambem a poeira da noite e de todos os seus fantasmas. Era mesmo para isto que um bom retiro como o Lapin podia servir. Era quase uma instituição de misericórdia, um asilo, um reduto de almas penadas, famintas, desejosas de reconhecimentos e de aplausos. Num canto, lá ao fundo, uma mulher ia tocando num acordeão uns acordes ébrios, tão saturados da vida miserável que se ia levando. E as pessoas olhavam para ela sem a ver e sem a ouvir.

 

Aquela toada fazia parte das paredes da casa, tal como todos os quadros pendurados, e eram dezenas, centenas, pendurados por todos os espaços sem deixar a cal à vista. O som do acordeão convidava a entrar quem por ali fizesse caminho, fosse a que horas fosse. Havia sempre alguém a entrar e havia sempre alguém a sair. E o criado, como uma abelha, zumbia toda a noite à volta das mesas qu’est ce que vous desirez? Un peu

de vin rouge? Absynthe? De l’eau, peutetre…, e dizia esta última frase com certo escárnio nos lábios, onde já se desfazia o sabor amargo de todos os absintos e de todos os abismos do álcool.

 

De repente, o mundo termina aqui por cima destas mesas coroadas de bebedeiras, as vozes deixam de ouvir‑se ou então soam distantes, tão distantes como as nuvens que se afastam por cima de um mar qualquer. A acordeonista, toda torta na cadeira, inclinada sob o peso do seu ganha‑vida, continua a tocar. De vez em quando ergue a cabeça e lança um olhar devastador, no qual já ninguém repara. Ela toca, toca e Modi aproxima‑se. No cenário esmagador ninguém existe. Estão todos por ali adormecidos, de borco por cima das mesas, e o cheiro a álcool é tão intenso que se vomita mesmo sem querer. Ele ainda não percebeu onde está nem o que está aqui a fazer. Nos seus vinte e dois anos acabados de cumprir, não sabe nada. E vai querer continuar a frequentar o Lapin e será aqui que irá descobrir a sua e a vida dos outros.

 

FOTO CRISTINA

 

Cristina Carvalho é escritora. O seu mais recente romance, “O Olhar e a alma”, é publicado pela Planeta.

 

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