Uma exposição patente no primeiro andar do Teatro Nacional Dona Maria II, até 25 de Julho, evoca o incêndio que há cinquenta anos destruiu a mais importante sala da capital. Mais que uma digressão pelo passado, constitui-se como exercício de memória sobre um acontecimento com forte simbolismo, por muitos visto como “o fim de uma época”. Uma porta aberta para a última década do Estado Novo. E para a Lisboa da década de 60.

 

Texto: Rui Lagartinho

 

Arminda Fernandes lembra-se de, naqueleInverno, o primeiro em que trabalhava na moderna Camisaria Cisne, ter alterado as suas rotinas da hora do almoço. Ela, e as suas colegas, balconistas e costureiras, almoçavam mais depressa.

 

E depois: “Subíamos a Rua Augusta, para vir ver o movimento à volta do Teatro Nacional. Havia sempre polícias, bombeiros a recolher e limpar entulho, jornalistas, actores e populares como nós. O incêndio do teatro foi mesmo um acontecimento nas nossas vidas. E, apesar de muitos de nós nunca termos posto os pés no Nacional, a tragédia foi vivida como algo pessoal.”

 

A Baixa, então o centro vivo da cidade, com as suas lojas de prestígio, cinemas, restaurantes e vida económica feita de despachantes, advogados, bancos, cafés e pequenos ofícios, fervilhava durante o dia, mas esvaziava-se à noite, à medida que a madrugada avançava.

 

A 2 de Dezembro de 1964, um varredor avançava pela Rua das Portas de Santo Antão, quando viu fumo a sair do teatro. Tarde de mais. Em poucos minutos, ruía o tecto, pintado por Columbano Bordalo Pinheiro setenta anos antes.

 

Tinha sido uma noite normal. Casa cheia para ver Mariana Rey Monteiro e João Guedes protagonizarem o casal Macbeth de William Shakespeare. A peça estreara há uma semana, e já ninguém pensava na habitual superstição desde sempre associada a esta peça de bruxas e fantasmas.

 

Foto 9

 

 

O pano de ferro que separa a plateia do palco tinha sido corrido – mais tarde, derreteria com as altas temperaturas -, as tochas que se usavam em cena devidamente apagadas. Tudo normal quando o último funcionário deixou o teatro, cerca da uma da madrugada.

 

Até hoje, a causa mais provável do incêndio apurada continua a ser o sobreaquecimento do sub-palco, que terá provocado um curto-circuito. No vizinho Palácio da Independência, comemorara-se mais um primeiro de Dezembro e havia holofotes suplementares a iluminarem a fachada do edifício.

 

Foto 27

 

Alberto Vilar estreou-se com esta peça na Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro, concessionária do teatro desde 1929. Lembra-se da sensação de impotência que sentiu, quando chegou ao teatro, ainda nessa madrugada, para acompanhar os colegas “na tristeza de ver arder o Nacional”. Dias depois, “estávamos no Coliseu dos Recreios de blue jeans, a representar Macbeth, e foi uma emoção sentir a solidariedade de Lisboa e do país inteiro. Depois fomos ao Coliseu do Porto”, recorda.

 

O governo prometeu de imediato reconstruir e abrir rapidamente o teatro. Mas passariam 14 anos até as portas do teatro abrirem de novo. E claro, em 1978 estávamos noutra era. Arminda Fernandes pôde tornar-se espectadora frequente do Nacional, Alberto Vilar passou a integrar a companhia do teatro então formada e, hoje mesmo, está em cena na peça em cartaz actualmente “Cyrano de Bergerac”.

 

A Companhia Rey Colaço foi extinta pouco depois do 25 de Abril, Amélia Rey Colaço e Mariana Rey Monteiro nunca mais pisaram o palco do Rossio.

 

Foto 9

 

Cinquenta anos depois, uma exposição no primeiro andar do teatro aviva esta história. “O Nacional está a arder! O incêndio de 1964 e o fim de uma época” reúne material de arquivo do teatro e imensas fotos, notícias dispersas, documentos do muito de que aqui se fala, que é mais vasto que o incêndio em si, como explica ao Corvo a comissária da exposição, Cristina Faria.

 

“O incêndio é mesmo o fim de uma época. A tragédia faz cair o pano sobre uma forma de fazer teatro. Quando a companhia Rey Colaço vai, depois, para o Teatro Avenida, o reportório é outro, o público já não é o mesmo. A reconstrução é um processo que, à portuguesa, se vai arrastar, passar por avanços e recuos no projecto e no estaleiro da obra”, explica a comissária. “O teatro que reabre em 1978, com uma sala estúdio incorporada com novas tecnologias de palco, é muito diferente”, salienta.

 

Foto 5

 

Hoje, ao determo-nos nestas fotos, nestes painéis de documentos – a exposição é excelente e as duas vertentes, acervo documental e passeio pela memória, complementam-se -, temos mesmo essa sensação de que o fogo trágico deixou um fumo de ironia no tempo que se acelerava.

 

Uma nova dinâmica quer na forma de fazer teatro, quer na forma como a baixa lisboeta mudaria a sua cara, quer ainda na forma como também o velho país – Salazar ainda tardaria a cair da cadeira – preparava a sua regeneração, não ardendo totalmente como o velho Teatro Nacional, mas preparando-se também ele para viver dias de mudança

 

Até dia 31 de Julho de 2015

 

Mais informações em www.teatro-dmaria.pt

Comentários
  • Teresa
    Responder

    Obrigada por divulgar, tenciono visitar a exposição.
    Em tempos falei no meu blogue da “maldição de Macbeth” e essa entrada continua a ser das mais lidas, tenho diariamente visitas vindas de pesquisas sobre o assunto. E, como é óbvio, não podia deixar de mencionar o incêndio do Nacional.

    A Maldição de Macbeth

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