Crónica

 

“Não tenho motivos para viver”. É o segundo graffiti do género nas imediações da estação de metro das Laranjeiras. O outro rezava assim: “Só estou vivo por preguiça”. Apagaram-no, mas o que parece manter vivo o graffiter é isto mesmo, spray de tinta preta contra as paredes mortas da cidade. A toponímia engana, os dormitórios não existem apenas nos subúrbios.

 

Na Estrada da Luz, no troço de cerca de um quilometro e meio entre as Laranjeiras e a Segunda Circular, há tudo: stands de automóveis, lojas chinesas, farmácias, agências de viagem, “frangos para fora”, bombas de gasolina e gasóleo que também vendem botijas de gás, marcos do correio, consultórios médicos, um notário, advogados, pastelarias, refeições rápidas de diferentes sabores (incluindo sandwiches da Venezuela), cabeleireiros, reparações, eletrodomésticos, moveis com design, papelarias, “mini preço”, oculista, etc. Só bancos são oito, metade dos quais estrangeiros. (Um dia destes a expressão “banco estrangeiro” será um pleonasmo, mas adiante…). Há tudo durante o dia; à noite é o contrário.

 

Uma antiga mercearia converteu-se em café. É um espaço agradável, com wi-fi, montras rasgadas e um nome inspirado (“A Luz Ideal”): fecha às 20:00! – uma hora antes do “Pingo Doce” e do “Lidl”, os locais mais concorridos da zona, a seguir à Loja do Cidadão. A “Délifrance”, com bica a 60 cêntimos, internet, jornais em papel à disposição dos clientes, SIC Notícias sem som, música de fundo discreta, vistas para a Quinta Bensaúde e o viaduto da Avenida Lusíadas, também fecha cedo.

 

Junto às Torres de Lisboa, quase a chegar à Segunda Circular, os cafés e a pizaria fecham mais tarde, mais tarde até do que a estação de serviço da Galp, que fecha às 23:00. Mas não apetece ir até lá, caminhar dez ou quinze minutos por uma estrada onde não se vê ninguém e os automóveis passam a acelerar, como se circulassem numa via rápida.

 

Texto: António Caeiro

 

  • Tuga News
    Responder

    [O Corvo] O melancólico graffiter das Laranjeiras https://t.co/lie91q6huG #lisboa

  • A Brito Guterres
    Responder

    Alexandra Santos

  • A Luz Ideal
    Responder

    Obrigado, António Caeiro, pela simpática referência ao nosso café. Percebemos e partilhamos a queixa sobre a forma como o bairro ‘morre’ à noite e lamentamos não poder fazer grande coisa por isso. Fizemos A Luz Ideal porque nos fazia falta um café assim no bairro. Também gostávamos de poder estar abertos até mais tarde, e isso estava nos nossos planos iniciais, mas por enquanto não é possível (aquilo que as pessoas apreciam n’ A Luz Ideal — ser um sítio familiar, com tudo o que isso implica — é também a razão por que não nos conseguimos desdobrar em mais horas…)

Deixe um comentário.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

O Corvo nasce da constatação de que cada vez se produz menos noticiário local. A crise da imprensa tem a ver com esse afastamento dos media relativamente às questões da cidadania quotidiana.

O Corvo pratica jornalismo independente e desvinculado de interesses particulares, sejam eles políticos, religiosos, comerciais ou de qualquer outro género.

Em paralelo, se as tecnologias cada vez mais o permitem, cada vez menos os cidadãos são chamados a pronunciar-se e a intervir na resolução dos problemas que enfrentam.

Gostaríamos de contar com a participação, o apoio e a crítica dos lisboetas que não se sentem indiferentes ao destino da sua cidade.

Samuel Alemão
s.alemao@ocorvo.pt
Director editorial e redacção

Daniel Toledo Monsonís
d.toledo@ocorvo.pt
Director executivo

Sofia Cristino
Redacção

Mário Cameira
Infografías 

Paula Ferreira
Fotografía

Margarita Cardoso de Meneses
Dep. comercial e produção

Catarina Lente
Dep. gráfico & website

Lucas Muller
Redes e análises

ERC: 126586
(Entidade Reguladora Para a Comunicação Social)

O Corvinho do Sítio de Lisboa, Lda
NIF: 514555475
Rua do Loreto, 13, 1º Dto. Lisboa
infocorvo@gmail.com

Fala conosco!

Faça aqui a sua pesquisa

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com