O fantástico Observatório Astronómico de Lisboa abre as portas à curiosidade de todos, às quartas-feiras

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Paula Ferreira

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Samuel Alemão

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CULTURA

Ajuda

21 Dezembro, 2018

Em 1892, o astrónomo norte-americano William Harkness, do Observatório Naval de Washington, tecia um curto, mas incisivo, elogio ao trabalho feito pelos seus colegas de Lisboa, a propósito da campanha então realizada internacionalmente para determinar com mais exactidão o diâmetro equatorial de Marte. “São notavelmente completas e terão grande utilidade”, escreveu Harkness, referindo-se às aferições da paralaxe solar daquele planeta levadas a cabo no Observatório Astronómico de Lisboa, sob o comando de César Campos Rodrigues (1836-1919). O oficial da Marinha, engenheiro hidrógrafo convertido em astrónomo, e que assumira a direcção da instituição dois anos antes, realizara o meticuloso labor sentado na cadeira feita à sua medida sob o “círculo meridiano”, o telescópio situado na sala Oeste do Observatório. “Esta é a nossa jóia da coroa”, diz, agora, Paula Santos, geofísica e curadora do equipamento, referindo-se ao instrumento, enquanto abre a porta daquela ala, também conhecida como “sala meridiana”.

“Todos os observatórios que se dediquem à astronometria têm que ter este instrumento”, diz a cientista, referindo-se ao dispositivo que requeria a assistência de dois astrónomos para funcionar com eficácia: um para determinar as coordenadas dos corpos celestes e outro para registar esses dados. Este telescópio instalado da Tapada da Ajuda foi construído, em 1861, pela firma Repsold & Merz, e com ele se realizaram os mais importantes trabalhos de investigação do Observatório Astronómico de Lisboa, tendo as observações do asteróide Eros valido a Campos Rodrigues a atribuição do prémio Valz da Academia de Ciências de Paris, em 1904. A partir da década de 20 do século passado, este, como os restantes instrumentos do instituição fundada em 1857 – mas que apenas em 1878 começou a operar em pleno -, deixou de ter grande utilidade em trabalhos de investigação, por se encontrar desactualizado. O tempo passou e nada se alterou. “Felizmente”, pensamos, ao entrarmos nestas salas revestidas a madeiras nobres, numa das visitas guiadas por Paula Santos, realizadas nas tardes de quarta-feira.

De entrada gratuita e sem necessidade de marcação pelos visitantes – basta aparecer numa das três rondas, às 14h, 15h ou 16 h -, os périplos comentados têm uma duração de 40 minutos e permitem-nos descobrir um dos segredos mais bem guardados da capital. É um pouco da história da ciência nacional e internacional, mas também das instituições do país, que se revela neste mergulho num dos edifícios mais singulares, e talvez menos conhecidos por dentro, de Lisboa. Mandado construir por Dom Pedro V (1837-1861), sob sugestão do seu perceptor, o matemático Filipe Folque, pretendia seguir o que de mais avançado existia no continente europeu, à época, na área do estudo do espaço sideral. O modelo a copiar então era o do Observatório de Pulkovo, em São Petersburgo, criado em 1839 e considerado o mais moderno do seu tempo. Foi, aliás, ao seu director na altura, Friedrich Georg Wilhelm von Struve (1793-1864), que coube a tarefa de o idealizar, liderando uma comissão técnica para o efeito empossada, tendo o projecto final sido assinado pelo francês Jean Colson. O projecto arquitectónico foi assinado por José da Costa Sequeira e Valentim José Corrêa.

“A ideia subjacente a esta construção foi a de criar um edifício com alguma monumentalidade, aproximando do público um equipamento dedicado à ciência, através da imponência arquitectónica. Mas não deixa de ser acolhedor, apesar desse aspecto monumental”, diz Paula Santos, enquanto estamos sob a belíssima abóbada trabalhada da sala central. Dali de baixo, e ante a admiração reservada à contemplação da mestria arquitectónica de cariz classicista do coração do observatório, quase nos esquecemos estar num edifício pensado como local de trabalho científico. E quão avançado era para o seu tempo. Sobre a abóbada, assenta uma cúpula com uma torre metálica girante contendo o principal telescópio, num conjunto com peso superior a 30 toneladas. Tudo suportado directamente nas oito colunas da sala, construídas de forma independente do resto do edifício. Enterradas directamente no subsolo, elas garantiam que o instrumento principal seria imune a qualquer vibração no interior ou nas imediações do observatório. Uma exigência decorrente do rigor científico pretendido.

Na verdade, a instalação do complexo astronómico naquela encosta da Tapada da Ajuda já era, em si mesma, uma resposta a essa demanda por exactidão. Com a primeira pedra lançada a 11 de Março de 1861, o Real Observatório Astronómico de Lisboa foi ali construído – num terreno cedido por Dom Pedro V, que também contribuiu com a avultada quantia de 30 contos do seu dote pessoal -, obedecendo ao que então era uma nova metodologia de concepção deste género de equipamentos. Através dela tinha-se em conta, para além dos instrumentos específicos que se pretendiam instalar, também uma localização apartada dos centros urbanos, evitando perturbações. E a Ajuda, na altura, garantia esse recato, ao contrário da outras duas hipóteses: Alto da Cotovia, onde hoje fica o Jardim do Príncipe Real, e a Quinta do Seabra, actual alto do Parque Eduardo VII. Lisboa seguia os padrões de exigência desse tempo, na Europa, e acrescentava-lhes outros dois: a abundância de estrelas em relação observáveis e o clima favorável, garantindo assim muitos dias de sol e noites sem nuvens.

Todas essas histórias são contadas com a devida qualidade e profundidade por Paula Santos, que, além da Sala Central – onde existe uma rica biblioteca temática - e da Sala Meridiana (Oeste), conduz os visitantes pelas restantes alas dotadas de dispositivos de observação sideral: a Leste (onde funcionava a luneta meridiana), a Norte (onde está instalado o “instrumento passagens no 1º vertical”, utilizado para observar de perto o zénite) e, claro, o interior da torre girante, dentro da qual existe o “grande equatorial”, telescópio de maiores dimensões usado para, entre outras coisas, estudar nebulosas e paralaxes relativas das estrelas. “Os instrumentos encontram-se intocados. Estão no sítio onde foram colocados”, explica a cientista. Uma viagem no espaço e no tempo está garantida.

Observatório Astronómico de Lisboa

Tapada da Ajuda
Todas as quartas-feiras, 14h, 15h e 16h
Duração: 40 minutos
Entrada livre

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