Desde a sua estreia, há cinco anos, a instalação “The Clock”, que corre 24 horas ininterruptas, já foi vista por 2,5 milhões de pessoas. Na sua volta ao mundo, a obra do britânico Christian Marcklay está agora no Museu Berardo, até 19 de Abril. O Corvo esteve em Belém, durante a madrugada em que adiantámos os relógios para entrar na hora de Verão. E ouviu alguns lisboetas que não dormiram, para estarem sintonizados com o seu tempo.

 

Texto: Rui Lagartinho

 

São 00h27 e há um ligeiro impasse, antes de podemos entrar para ver “The Clock”, de Christian Marclay. Os 120 lugares disponíveis na sala onde se projecta o filme estão todos ocupados. Mas o movimento de saída e renovação de espectadores é constante, quase como se por osmose já estivesses sincronizado com o tema da obra: a passagem do tempo.

 

Uma vez dentro, há quase vinte sofás largos onde se espraiam os espectadores, como se estivessem numa esplanada. Há quem tenha vindo sozinho, há quem entre enlaçado e assim continue, há nas horas de maior aperto quatro pessoas no mesmo sofá: “Olha o Clint Eastwood tão novinho”, comenta-se para o lado. Quando a reacção se faz ouvir, já é Carmen Maura quem ocupa o centro do ecrã. São 00h40.

 

Na inauguração em Lisboa, a 5 de Março, o artista explicou a liberdade que a obra permite e a alma da montagem: “O filme não tem começo nem fim. Começa quando tu entras, e quando sais termina para ti. És tu que escolhes; o que é bastante diferente de um filme tradicional, onde entramos todos à mesma hora, sentamo-nos, vemos o filme durante duas horas, e saímos todos ao mesmo tempo. Existem filas de cadeiras, mas isto requer um tipo de espaço que é muito diferente. Aqui, coloquei sofás com muito espaço à volta, pode-se entrar e sair sem ter que disturbar uma fila inteira. É um tipo de arquitetura diferente. Para mim, esta peça é uma instalação. É um trabalho que é fragmentado, mesmo assim há ligações entre todos os trechos — não só a referência ao tempo, mas na narrativa de cada fragmento, tentei encontrar ligações visuais, ou ligações narrativas, ligações dinâmicas entre eles para criar uma ilusão de continuidade; embora o que se esteja a ver sejam excertos de vários filmes.”

 

Das três noites de exibição integral da obra, no Museu Berardo, a noite de 28 de Março era ainda mais especial. À 1h da manhã, todos tínhamos de adiantar o relógio. A entrada na hora de verão. No Museu Berardo, o relógio parou e a instalação foi retomada sete minutos depois, às 2h07. Durante a pausa, percebemos que há unanimidade nas conversas de quem aguarda poder voltar entrar. André Gomes, actor e fotógrafo, só não vais ficar mais tempo porque “tem medo de adormecer ao volante, no regresso a casa.” Mas promete organizar o seu tempo, para ver o máximo possível da obra nos dias normais.

 

São 2h33 e chega a resposta a uma dúvida do público português: de repente, numa sequência de “A janela indiscreta”, de Hitchcock, Jimmy Stewart olha para o lado e aparece João César Monteiro acocorado, numa sequência de “Recordações da Casa Amarela”. Marclay explica estas ligações subtis: “Nem todos os trechos dizem exatamente que horas são. Alguns deles são usados como transições, mas todos eles fazem referência a algo relacionado com o passar do tempo. Escolhi maioritariamente cenas muito aborrecidas para o filme — onde há pessoas à espera ou não há muita ação a decorrer —, porque esses momentos são interessantes… A ansiedade de estar à espera. Mas podem ser só referências ao passar do tempo, como um cigarro a arder. Quaisquer imagens de memento mori (i.e.: “lembre-se da morte”) podem ser usadas.”

 

É graças a esta filosofia que somos brindados, são 3h25, com uma sequência do nosso filme preferido, “O apartamento”, de Billy Wilder. Jack Lemon aguarda num banco de Nova Iorque que o seu apartamento fique livre.

 

Lá para as 3h45, depois de vermos no ecrã tanta gente agitar-se na cama, dormir placidamente ou deambulando insone, o sono venceu-nos e foi um relógio do filme que nos acordou por volta das 4h10. Às 5 da manhã, Jeanne Moureau levanta-se e nós aproveitamos a boleia e saímos também.

 

Cá fora, os Jerónimos em plano aberto, sem carros e sem turistas, parece prolongar o filme, numa espécie de efeito de tempo suspenso.

 

Temos até dia 19 de Abril para gastar mais tempo de volta deste “The Clock”. Mais informações em:

http://pt.museuberardo.pt/exposicoes/christian-marclay-clock

Comentários
  • Rui Barradas Pereira
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    RT @ocorvo_noticias: O destino marca a hora, mesmo quando ela muda para o horário de Verão – http://t.co/lHPfVcVqkG

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