Foi um incêndio que deixou marcas ainda hoje sentidas. E que pôs à mostra deficiências e perigos que bem podiam ter sido evitados. O Chiado transformou-se e hoje parece que todos o apreciam. Mas foi à força.

 
Texto: Isabel Braga  Ilustração: Hugo Henriques

 

O incêndio do Chiado começou na madrugada de 25 de Agosto de 1988, nos Armazéns Grandella, na Rua do Carmo. O alerta foi dado cerca das 5h00, por uma testemunha que viu fumo a sair dos telhados, e os dois primeiros carros de bombeiros chegaram meia hora depois.

 
O fogo alastrou rapidamente aos edifícios da Rua do Crucifixo, mas a sua marcha pela Rua do Ouro em direcção ao Rossio foi contida pelo edifício de betão, de construção recente, do Montepio Geral. Cerca das 5h30, o incêndio já se tinha propagado aos Armazéns do Chiado e, com a ajuda do vento, as chamas, alimentadas pelas estruturas de madeira dos edifícios antigos, chegavam à Rua Nova do Almada e trepavam vigorosamente em direcção à Rua Garrett e à encosta do Largo do Carmo.

 
As condições do combate ao fogo não foram as ideais: houve dificuldade na montagem das escadas Magirus na Rua do Ouro, por causa dos cabos e fios eléctricos, as bocas de incêndio não funcionavam e uma grande parte das mangueiras dos bombeiros estavam rotas. “Havia quilómetros de mangueiras ligadas umas às outras estendidas pelas ruas, a deitar água por todos os lados”, recorda Fernando Henrique, 57 anos, um lisboeta que morava perto do Chiado, e que acorreu logo de manhã ao local da tragédia.

 
Mas o maior obstáculo à tarefa dos bombeiros residiu no facto de, na Rua do Carmo, reservada aos peões, o então presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), Krus Abecassis, ter mandado instalar canteiros altos de betão, que serviam de bancos para os transeuntes, e impediam a passagem de veículos. “Nero deitou fogo a Roma e Abecassis a Lisboa”, afirmava um bombeiro “graduado” citado pelo vespertino “A Capital”.

 
A obra fora muito contestada na época, inclusivamente por Gonçalo Ribeiro Telles, então vereador da CML, que afirmava ironicamente no dia do incêndio, ao “Diário Popular”, que a Rua do Carmo fora “democraticamente transformada”, uma vez que, quando da votação da proposta na Câmara, tinha sido pedido um parecer aos bombeiros e esse parecer fora favorável.

 
“Por razões que a razão desconhece”, relatava “A Capital” no dia do incêndio, o apoio aéreo, pedido às sete da manhã, “nunca apareceu”. Eurico de Melo, então vice-primeiro ministro, afirmava, no local, que os meios aéreos “estavam à disposição” mas que não tinham sido chamados porque os bombeiros entenderam que “não eram necessários”.

 
Às 8h30, as ruas do Carmo, de Santa Justa e Nova do Almada estavam tomadas pelas chamas. O estabelecimento Eduardo Martins, na esquina em frente aos Armazéns do Chiado, ardia e, do outro lado da rua, no prédio onde funcionava a EDP, os computadores rebentavam com um barulho que só era suplantado pelo das explosões das bilhas de gás.

 
Pouco antes do incêndio, um estudo, encomendado  pelo presidente da Junta de Freguesia do Sacramento, Barata Neves, tinha alertado para o perigo que representavam as bilhas de gás existentes na zona do Chiado, que se calculava, na altura, serem cerca de duas mil. Mas esse alerta nunca foi tido em conta, sublinhava o “Diário Popular”.

 
Nesta fase dos acontecimentos, temia-se, acima de tudo, que o fogo chegasse ao paiol do Quartel do Carmo, uma vez que já alastrava pela Calçada do Sacramento.  No pensamento de muitos estava ainda o receio de que alastrasse ao Bairro Alto, formado por ruelas estreitas e muitas casas degradadas, onde seria certamente ainda mais difícil combater as chamas do que no Chiado.

 
Na Rua Ivens, invadida pelo fumo, um bombeiro exausto e sofrendo de intoxicação era evacuado, enquanto os lojistas, que entretanto tinham chegado aos seus locais de trabalho, tentavam salvar o que podiam dos estabelecimentos comerciais.

 
O “Diário Popular” relatava, na sua edição de 25 de Agosto de 1988: “Quadros a óleo, rolos de tecido, cortinados, peças de pequeno porte mas de grande valia monetária eram transportados o mais rapidamente possível para viaturas que se encontravam estacionados no Largo da Escola Superior de Belas Artes. ‘Salvem o que puderem’, gritava desesperado um dos proprietários locais.”

 
José Santos, 57 anos, sócio-gerente de O Rei das Meias, uma das lojas mais antigas do Chiado, que sobreviveu, intacta, ao incêndio, recorda esse dia como se fosse hoje: “Cheguei às oito da manhã do Barreiro, onde ainda moro, e, do rio, tinha visto a nuvem de fumo preta por cima da cidade, mas não esperava ver aquele inferno. O céu estava escuro, como se fosse de noite, e ardia tudo. As botijas de gás rebentavam como se fossem bombas, o calor era tanto que derretia os ferros das varandas. Andei a ajudar a tirar os animais da clínica veterinária (que ainda existe, no Largo do Carmo), mas sempre com o credo na boca. O nosso medo era que o fogo chegasse pelos telhados das casas, cheios de ervas, até ao paiol do quartel da GNR. Até à hora do almoço, o incêndio não parou”.

 
Mas, pouco antes das 13 horas, tudo mudou. “Chegou o canhão de água do aeroporto. Estacionou na Rua Garrett, quase em frente da Livraria Bertrand, e começou a mandar um jacto de água que chegava ao fundo da rua. Muita gente achava que não iria resultar, mas resultou. Só então o foco principal do incêndio começou a ser dominado” lembra Fernando Henrique.

 
O incêndio do Chiado levou à morte de duas pessoas, um bombeiro de 31 anos, que foi retirado já em estado crítico do edifício da EDP, e um homem de 70, encontrado entre os escombros de um edifício. Causou ferimentos em 73, na sua grande maioria bombeiros. Cerca de vinte edifícios arderam totalmente e duzentas a trezentas pessoas ficaram desalojadas.

 
Em termos imateriais, as perdas são difíceis de calcular já que, no fogo, desapareceu uma grande parte da memória da cidade elegante do século XIX e inícios do século XX, referenciada na obra de autores como Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, Ramalho Ortigão e outros.

 
Entre os estabelecimentos que faziam parte da vida burguesa de Lisboa e que foram consumidos pelas chamas no dia 25 de Agosto de 1988 contam-se os Armazéns Grandella, fundados em 1894, a charcutaria de luxo Martins & Costa, de 1914, onde se compravam desde frutos exóticos a salmão fumado, o Jerónimo Martins e as suas “delikatessen”, que remonta a 1792, a Casa José Alexandre, de 1833, onde eram entregues as listas para presentes de casamento das classes endinheiradas, a Casa Batalha, de 1635, o estabelecimento mais antigo do país, a Perfumaria da Moda, de 1909, a Pastelaria Ferrari, de 1827, o Último Figurino ou a loja de discos da Valentim de Carvalho – que ardeu totalmente, com todo o seu arquivo histórico.

 
“Não sofremos consequências directas do incêndio, que não chegou aqui,  mas sofremos por causa do que desapareceu, nesse dia, e dos amigos e colegas que saíram daqui”, sublinha, com tristeza, António Lemos, de 84 anos, proprietário, na Rua Garrett, da Casa Pereira, fundada em 1930, que vende cafés, chocolates, chás, vinhos e produtos gourmet.

 
No lugar dos Armazéns Grandella está hoje a HM, de origem sueca, os Armazéns do Chiado foram transformados num centro comercial e lojas de cadeias internacionais ocuparam o lugar das antigas.

 
Foi ainda Krus Abecassis, enquanto presidente da CML, que chamou o arquitecto Siza Vieira para proceder à requalificação da zona e, actualmente, o preço do metro quadrado,  no novo Chiado, é o mais caro de Lisboa.

 
“Isto esteve morto durante anos, mas hoje é a melhor zona da cidade. Não que o negócio tenha recuperado, mas em termos de vida recuperou”, afirma, optimista, José Santos, o sócio-gerente de O Rei das Meias, que atribui a sobrevivência do seu estabelecimento ao facto de vender produtos “absolutamente exclusivos”. “Temos aqui umas meias em fio de algodão puro que são o melhor que há para quem tem a pele irritada. Estamos sempre a receber clientes mandados por dermatologistas”, aproveita para dizer.

 
António Lemos, da Casa Pereira, tem saudades dos velhos tempos: “Dantes, aqui no Chiado ficavam as sedes de bancos, de companhias de seguros, só a Império tinha 700 empregados. Tínhamos clientes certos, que vinham por nós e porque no Chiado havia lojas que não havia em mais lado nenhum. Agora há tudo por todo o lado e os clientes são quase todos de passagem. Mesmo assim, ainda conservamos alguns cujos bisavós já compravam aqui”.

 
Na Livraria Bertrand do Chiado, fundada em 1732 e certificada pelo Guinness como a mais antiga livraria do mundo em actividade, já ninguém se lembra do incêndio do Chiado. A pergunta sobre eventuais memórias do sinistro motivou um desabafo algo desagradado da empregada interpelada por O Corvo, que comentou para um colega : “Está a chamar-me velha, ora esta!”.

 
O incêndio de 25 de Agosto de 1988  trouxe a Lisboa o presidente francês François Mitterrand, numa manifestação de solidariedade para com o seu amigo Mário Soares, então Presidente da República, que chegou ao Chiado às 9h15 da manhã e, perante a fúria das chamas, dizia, emocionado, que se tratava de “uma catástrofe nacional”, como relatava o “Diário Popular”.

 
Na época, falou-se à boca cheia em fogo posto e apontou-se como principal suspeito o proprietário dos armazéns Grandella, Manuel Martins Dias, que chegou a estar detido. Mas nunca foram descobertos os responsáveis por um desastre que ficou nos anais da cidade de Lisboa como um dos piores da sua história.

  • Sérgio
    Responder

    Belo texto!

  • António Rosa de Carvalho
    Responder

    Lisboa assinala hoje os 25 anos do incêndio que destruiu o Chiado.
    Sim, comemoram-se 25 anos, mas poderemos relembrar esta data sem reflectir sobre aquilo que está a acontecer no presente, no que respeita a destruição sistemática de todo um Património Pombalino, em nome de uma assim chamada, “Reabilitação Urbana”?
    Recordando o processo de Betonização do Chiado, na (re) publicação deste “post”
    António Sérgio Rosa de Carvalho
    Abertura de 2013 celebra a Betonização do Chiado, a destruição sistemática dos seus Interiores e de todas as suas características verdadeiramente Pombalinas … por António Sérgio Rosa de Carvalho. 01/01/2013http://ovoodocorvo.blogspot.nl/2013/08/abertura-de-2013-celebra-betonizacao-do.html

  • Maria Otilia Godinho
    Responder

    Gostei de conhecer o Corvo, parabéns!

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