“O tango é um diálogo e não um monólogo”. É desta forma que Rui Barroso explica aos seus alunos de tango, na Voz do Operário, o encanto da dança. Outrora, era considerada sinónimo de imoralidade, mas, desde 2009, está classificada como Património Imaterial de Humanidade pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura.

Este professor de dança foi o mentor do “Lisboa Marathon – Tuga Tango”, que reuniu, recentemente, na Voz do Operário, no bairro da Graça, mais de 300 adeptos desta sensual e mítica modalidade. Ao longo de três dias, amantes do tango de diversas partes da Europa executaram os seus sofisticados passos até ao amanhecer.

“Estamos numa maratona! Isto é até cair para o lado!”, disse um dos tanguistas ao Corvo – que assistiu ao evento de carácter privado, marcado pelo som dos seus grandes divulgadores internacionais, o cantor Carlos Gardel e o músico Astor Piazzolla, ambos argentinos, e pelo “glamour” das silhuetas em movimento na disputa pelas melhores exibições.

Rui Barroso é uma personagem peculiar. Deixou para trás uma carreira de advogado, que exerceu durante sete anos, para se dedicar em exclusivo ao ensino do tango a nível nacional e internacional. “Foi uma opção que teve um custo social, mas também ganhei uma motivação para viver, ajudando a desenvolver uma paixão e um vício que é positivo e que desenvolve a socialização”.

No encontro-maratona de Lisboa, cerca de 30 por cento dos participantes eram portugueses. A maioria era veio de França, da Inglaterra, da Croácia, da Alemanha ou da Irlanda. Junto da pista, havia um conjunto de dançantes das mais diversas profissões, onde era possível encontrar empresários, arquitetos, engenheiros, corretores de bolsa, médicos, pilotos de aeronaves, economistas ou empregados de escritório. Cada um pagou 115 euros para dançar tango durante três dias.

Ao observamos as particularidades deste original acontecimento, podíamos imaginar o filme “Os Cavalos Também se Abatem”, de Sydney Pollack, onde se dançava até à exaustão, para poder sobreviver durante da depressão económica norte-americana nos anos 30 – mas aqui imperava a diversão e o prazer.

David, 40 anos, gestor, que vive no Reino Unido e leva ao máximo rigor todas as expressões do rosto, posturas corporais e, em especial, o toque das pernas, explica que pode estar em pista até às seis da manhã, “a curtir uma dança que descomprime do stress do trabalho, mas também de grande afecto e prazer”.

Outra particularidade do encontro são os patrocinadores. Empresas como a TAP – embora uma parte significativa dos participantes tenha viajado nas “low cost”-, os vinhos José Maria da Fonseca ou ainda entidades como o Turismo de Lisboa não ficaram alheios a um evento sem qualquer obrigatoriedade competitiva – ali apenas se comparecia pelo hóbi da dança. A isto juntam-se contratações de “disc jockey” especialistas neste tipo musical, vindos da Suíça, da Itália, da Alemanha, da Croácia, da Irlanda e também de Portugal.

O tanguista Anthony, corretor da bolsa de Londres, disse ao Corvo que participa regularmente neste tipo de encontros, tendo estado num dos últimos, realizado em Dublin. “Faz bem. Serve para descontrair e também conhecer outras pessoas que amam a dança”. Com 44 anos, este corretor inglês lembra que os papas Pio X e XI receberam no Vaticano dançarinos de tango que conquistaram os seus corações.

“Estes eventos são particulares e regulares na Europa, mas em Portugal é a primeira vez. Estamos já a pensar no próximo”, garante Rui Barroso, cuja área de ensino do tango não se limita a Portugal, pois desloca-se com regularidade a outros países, como a Itália ou a Irlanda, para divulgar esta arte dançante. “O Japão e a China também já estão a organizar este tipo de encontros, num fluxo de culturas”, adianta o professor. Ele refere o facto de cidades como Moscovo ou Beirute estarem também na rota dos tanguistas.
Em Portugal, estima-se que os praticantes com particular paixão podem rondar os dois mil. Para além de Lisboa, os principais pólos de prática são Porto, Coimbra, Aveiro, Santarém e Faro.

De algum modo, também o filme “O Último Tango em Paris”, realizado em 1972 por Bernardo Bertolucci, e que viu proibida a sua exibição em Portugal até ao 25 de Abril, tem estado sempre presente no imaginário dos adeptos deste estilo de dança – que conjuga arte, contacto próximo dos corpos e também erotismo.

Os primeiros passos de tango começaram a ser dados, sobretudo, pelos imigrantes espanhóis e italianos, nos bares e nos bordéis dos bairros populares de Buenos Aires, no século XIX. Inicialmente, os dançarinos eram só homens. O reconhecimento internacional do tango teve lugar em 1910, quando chegou às danças de salão em Paris e foi aceite pela sociedade local como uma nova expressão cultural moderna.

 

Texto e fotografia: Mário de Carvalho

Comentários
  • lara aladina
    Responder

    Aqui está uma noticia que mostra do que se faz de positivo em portugal. Resumido e completo. Gostei muito

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