Crónica

 

Esta frase, mais ou menos fidedigna ao original, foi-me atirada à cara, há poucas semanas. Isso mesmo. “O carro é meu, por isso, posso fazer o que bem entender!”. E, antes de contar o episódio que esteve na sua origem, posso dizer-vos, desde já, que a apresento não apenas como epítome desta crónica, mas também, e sobretudo, da forma como (ainda) pensa uma parte substancial das pessoas que têm carro no nosso país. O que a equipara a um sinónimo da maneira como se identifica socialmente e age um número significativo de portugueses – temos uma das mais altas taxas de motorização do mundo. O ter automóvel como forma de afirmação de cidadania, pois então. No fundo, a negação do espírito da cidade. E, com isso, Lisboa continua a sofrer. Já lá vamos.

 

É sabido que Portugal, país sempre em difíceis contas com o movimento do tempo, costuma pegar nas tendências e nos desenvolvimentos derivados da evolução tecnológica e com eles estabelecer uma muito peculiar relação, acabando quase por lhes conferir uma identidade própria. Poder-se-á dizer que tal apreciação é válida para quase todas as coisas, em quase todos os cantos do mundo. É verdade, mas só em parte. Há sempre uma subjectividade nascida do nosso olhar que permite estabelecer com o que nos rodeia todo o tipo de associações, comparações, deduções e análises. A mesma subjectividade que leva muitos portugueses, com frequência e quando irritados com algo, a dizerem “isto parece um país de terceiro mundo”. Viaje-se um pouco e descubra-se o que é, de facto, o Terceiro Mundo.

 

É assumidamente investido do mesmo grau de falta de cientificidade na análise que, ao longo dos anos, tenho vindo a construir a muito particular crença que devem haver muito poucos países do chamado mundo desenvolvido – sim, fazemos parte dele, sem dúvida – a nutrir uma tão obsessiva relação com o automóvel, com a excepção tão óbvia e ululante dos Estados Unidos da América – isto apesar de dados recolhidos, nos últimos anos, revelarem que a relação dos norte-americanos com os carros poder estar a passar por um momento baixo. Mais do que sobre estatísticas, falo sobre a impressão de que os portugueses são fanáticos pelo automóvel. Se nos ativermos à Europa ocidental, então essa sensação torna-se ainda mais aguda. Por cá, para muita gente, comprar e ter um automóvel funciona como azimute de uma forma de estar em sociedade.

 

E isso vê-se em todo o tipo de decisões de consumo, de endividamento, de relacionamento familiar e social – com as bem conhecidas consequências ambientais, financeiras ou de saúde pública. O automóvel tem vindo a moldar a nossa sociedade e as nossas cidades, de forma tão profunda e insidiosa, que uma parte substancial das pessoas já nem consegue imaginar como seria o seu quotidiano sem a presença de tal máquina. E isto criou uma ideologia totalitária. Veja-se a indigência de pensamento do nosso jornalismo televisivo, que, à mínima oscilação do mercado de combustíveis fósseis, salta para a estação de serviço mais próxima para auscultar os cidadãos sobre o que acham. E eles, com os seus traseiros confortavelmente sentados, quase sempre dizem qualquer coisa como ‘pois, isto está mal, querem é ficar com o nosso dinheirinho’. Tenho, por isso, e concluindo a tal ideia do parágrafo anterior, vindo a sedimentar como certeza que o maior partido político português é, sem dúvida, o Partido do Automóvel.

 

E tal militância expressa-se das formas mais diversas e com os mais distintos graus de intensidade. Que, às vezes, pode atingir patamares bem elevados. Como o demonstrou de forma bem vívida o indivíduo que me levou a pensar em escrever esta crónica. O episódio passou-se da seguinte forma. Ao passar numa das ruas da zona do Cais do Sodré, numa destas tardes de verão, noto que um homem na casa dos 30 e tal anos se prepara para entrar no seu automóvel, por sinal de alta cilindrada. Quando abre a porta, repara que no pára-brisas está um daqueles folhetos publicitários que é frequente lá serem colocados por alguém. Acto contínuo, pega nele, amachuca-o, atira-o para o chão e entra no carro. Chamo-lhe a atenção para o que fizera. Recebo em resposta, e já com o motor a trabalhar, o tal “O carro é meu, por isso, posso fazer o que bem entender!”.

 

Fiz-lhe ver que estava longe de mim questionar os zelosos registos da Conservatória Automóvel, queria apenas alertá-lo que poderia ter colocado o papel num caixote do lixo ou guardá-lo consigo para o fazer mais tarde. Nada feito. O rapaz estava já montado no seu tanque e na sua insofismável retórica. “Pago os meus impostos sobre o carro, por isso, o carro é meu. Também gostavas que colocassem um papel no teu carro?”, questionou-me. Ainda lhe tentei dizer que o que estava em causa era o civismo da sua atitude e que, no meu caso, não atiraria o papel para o chão.

 

Mas, nada feito, ele lá partiu, sorriso trocista e cheio de certezas. Como é óbvio, este era um indivíduo que estava longe de ser bem educado e, claro, a sua exibição de incivilidade nada teve que ver com ter ou não ter carro. Era, simplesmente, mal-educado. O que me chamou a atenção foi, porém, a sua argumentação. Essa, sim, é que eu acho reveladora do estado de espírito de muita gente, para quem o possuir um veículo automóvel particular lhe confere uma especial prorrogativa de a tudo ter direito.

 

Veja-se a forma como a maior parte das pessoas reage sempre que se coloca a possibilidade da mínima restrição à circulação viária ou à medida que se vai extinguindo o livre estacionamento em Lisboa – um cidade tão martirizada pela omnipresença do automóvel. Tanto que se tornou claramente aceite, por quase todas as classes sociais, hostilizar a EMEL e ironizar (uma forma mais sofisticada de hostilidade) com seus funcionários. Bastaria viajar um pouco pelas nações mais desenvolvidas para perceber como, neste campo – como noutros, aliás -, ainda estamos muito atrasados. Ah, ia-me esquecendo! As últimas estatísticas indicam Portugal como o mercado automóvel que mais cresce em termos percentuais no conjunto da UE28.

 

Texto: Samuel Alemão

 

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