O Corvo andou nos transportes de bairro gratuitos dinamizados pelas juntas de freguesia. E falou com quem os usa. Há propostas para todos os gostos e necessidades. Porta a Porta, Sobe e Desce, Azulinho são algumas das designações das carrinhas que fazem a volta às freguesias. Algumas chegam a lugares onde a Carris não vai. Nuns casos, têm grande utilização, noutros parecem ser ainda pouco conhecidos e há carrinhas a circular sem fregueses ao longo do percurso.

 

Texto: Fernanda Ribeiro

 

Olivais, onde de Março a Agosto de 2015 houve mais de 11 mil utilizadores da carrinha Porta a Porta, e Alcântara, com uma média de 45 pessoas transportadas por dia no “Azulinho” – que chega a sítios onde a Carris não vai – são duas zonas da cidade onde se traduz bem a importância dos transportes urbanos gratuitos que passaram a ser dinamizados pelas juntas de freguesia.

 

Na sequência da delegação de competências da Câmara Municipal de Lisboa para as juntas de freguesia, muitas outras juntas da cidade prestam este tipo de serviço, com maior ou menor sucesso, seguindo modelos e conceitos muito díspares, que variam de freguesia para freguesia.

 

Algumas delas estão agora a adaptar percursos, horários e formas de funcionamento, para melhor atender às necessidades dos seus fregueses. É o caso dos Olivais que, desde 21 de Setembro, alargou o itinerário do seu Porta a Porta, estendendo-o dos actuais nove quilómetros para 14 quilómetros.

 

O Corvo acompanhou as viagens quotidianas dos moradores de quatro zonas da cidade -Olivais, Alcântara, Alvalade e Santo António – e ouviu os fregueses que usam estes transportes.

 

“As pessoas nem têm a noção da falta que estes transportes fazem. Desde logo, por serem gratuitos. E não só para as pessoas com mais idade. Eu, que estou desempregada e nem subsídio recebo, utilizo diariamente o Porta a Porta. Isto, para mim, é mesmo importante”, diz Mónica, de 38 anos, que volta a casa depois das compras no supermercado.

 

Às 10h45 de um dia de semana do início de Setembro, a carrinha do Porta a Porta dos Olivais já parte com a lotação esgotada da sede da junta. É aí que se inicia o percurso que a carrinha vai percorrer, passando por dez escolas, dois mercados, um posto médico, correios, farmácias, repartição de finanças, centro commercial e centro de dia da junta, entre vários outros pontos, onde vai largando e tomando passageiros.

 

A maioria dos utilizadores são, de facto, os mais idosos e, na maioria dos casos, mulheres, seja para irem às compras, à farmácia, ao centro de dia ou à consulta no posto médico.

 

Maria de Jesus Pereira, à beira de completar 80 anos, é uma das passageiras regulares que Marcelino, o motorista que trabalha há oito anos na junta dos Olivais, já conhece bem. “Você ainda cá passa hoje outra vez?”, pergunta-lhe a freguesa ao descer. “Sim, ainda passo cá mais duas vezes”, responde-lhe Marcelino, que, de manhã, conduz a carrinha das 7h45 às 12h45 e, de tarde, das 15h15 às 19h00. Isto enquanto estiver a substituir Marco, que está de férias e é o habitual condutor do Porta a Porta dos Olivais.

 

“Ora, aqui está o meu cliente. Vai para a junta”, diz Marcelino, quando, perto do Shopping, avista um homem que lhe faz sinal, embora isso quase nem fosse preciso, porque o condutor já o identifica como utilizador. “No Shopping dos Olivais, há quase sempre clientes” para apanhar, diz o motorista.

 

Não há paragens fixas, mas o percurso está devidamente assinalado no asfalto, nas ruas da freguesia, onde uma faixa verde foi pintada, para que as pessoas saibam onde podem apanhar o Porta a Porta. Basta fazer um sinal e o motorista pára para receber os passageiros – desde que estes não estejam junto a paragens de autocarro da Carris, porque aí, por motivos óbvios, não lhes é permitido estacionar.

 

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No centro de dia, saem duas passageiras, e, um pouco mais adiante, está uma senhora idosa, que acaba de sair do centro de fisioterapia. Marcelino pára, sai da carrinha, baixa o degrau da porta e vai ajudar a mulher a subir. É um procedimento comum, nas voltas que dá. Muitos utentes movem-se com canadianas e precisam de alguma ajuda para entrar na carrinha.

 

Ao longo do percurso, a rotatividade é grande. Uns entram, outros saem. Há um lugar, porém, onde o motorista nunca levou quem quer que fosse, como o próprio faz questão de dizer, com ironia.“Só aqui é que, felizmente, nunca tive de trazer ninguém”, diz Marcelino, sorrindo, quando a carrinha passa junto ao cemitério dos Olivais.

 

Ao fim de 45 minutos, o itinerário termina, de novo em frente à sede da junta dos Olivais, na Rua General Silva Freire, onde quatro freguesas já aguardam a partida da próxima carreira.

 

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Diferente é o modelo adoptado em Alcântara, onde o “Azulinho” – como foi apelidado o carro de 16 lugares que faz o percurso na freguesia – tem paragens fixas, em postes pintados de azul e branco, que parecem pauzinhos de chupa-chupa, o que os torna facilmente identificáveis.

 

Para o poderem utilizar, os moradores têm requisitar na junta o Cartão Alcântara, que dá acesso gratuito a este modo de transporte. Desde dia 23 de Abril de 2015, data em que o Azulinho entrou ao serviço, a junta já emitiu mil cartões Alcântara.

 

O Corvo apanhou-o ao lado da sede da junta de freguesia, na Rua dos Lusíadas, onde, pelas 10h00 da manhã, entraram outros cinco passageiros. Poucos, para o que é habitual.

 

Ao entrar na carrinha, Mónica, 34 anos, ficou até surpreendida com tanto lugar vago. “Hoje temos sorte, há lugares. Estou a ver que foram todos para o Praia-Campo”, diz, dirigindo-se ao motorista. Uma afirmação que Carlos Correia, corrobora :“Sim, sim foram quase todos para o Praia-Campo e alguns foram de férias para a terra”.

 

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Utilizadora frequente, Mónica encara o Azulinho como um meio complementar de transporte. “Para mim, que trabalho e resido em Alcântara, isto é complementar”, diz. “É uma mais-valia”, contrapõe um homem na casa dos 60, que entrou igualmente na paragem da junta de freguesia e se dirige ao Hospital Egas Moniz, para uma consulta.

 

Mas o verdadeiro ponto de partida do Azulinho fica mais acima, num local de difícil acesso, o bairro camarário da Quinta do Jacinto, onde não chega a Carris, nem quaisquer outros transportes colectivos. Para os moradores deste bairro, tal como para os do Alvito e do Bairro da Cascalheira, a importância do Azulinho é vital. Não só por ser gratuito, como por ser a única forma de chegarem a casa sem terem de palmilhar uma boas centenas de metros, ao sol ou à chuva.

 

“Há quem o use todos os dias, seja para ir às compras ou aos correios tratar das reformas, ou para ir a consultas no hospital Egas Moniz, ao Centro de Saúde ou à Unidade de Saúde Familiar das Descobertas”. É aí que sai Mónica e entra uma outra passageira, com alguma dificuldade de locomoção.

 

“Como tenho problemas de visão e a carrinha pára mesmo à minha porta, dá-me muito jeito. Hoje, vim à consulta, mas uso isto todos os dias, para as minhas voltinhas”, diz a mulher, que, antes de ir para casa, ainda vai passar no Largo do Calvário, onde o motorista do Azulinho a deixa.

 

Há uma passageira regular, uma senhora de 82 anos que vive no bairro da Quinta do Jacinto e a quem Carlos Correia chama carinhosamente “Dona Milou”, que afirma, com graça, vir ali e fazer o percurso quase todo “só para fazer companhia ao motorista”.

 

Quando começou a funcionar, em Abril passado, o Azulinho tinha um horário mais alargado, ia até às 20h00. Mas cedo a junta percebeu que, depois das 18h00, já não havia fregueses que justificassem a viagem. Houve uma adaptação e o horário que agora vigora, com partidas a cada hora e meia, começa às 8h00 e vai até às 13h30 e, depois, das 15h00 às 18h00.

 

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É no início da semana, às segundas-feiras de manhã, que o Azulinho tem maior utilização. Para a Junta de Freguesia de Alcântara, o investimento feito justifica-se, sem margem para dúvidas. “A viatura foi adquirida através de protocolo com o LIDL (aprovado em Assembleia de Freguesia, em Junho de 2014), sendo a junta responsável pelos custos de manutenção da carrinha, o gasóleo e o motorista”, explicou ao Corvo Joana Troni, da Junta de Freguesia de Alcântara.

 

“O investimento justifica-se, sem dúvida alguma, uma vez que Alcântara tem elevado número de população idosa, zonas da freguesia bastante isoladas do centro (como o Bairro da Cascalheira e Bairro do Alvito) e de acessos difíceis, com grandes inclinações e subidas. A mobilidade da população, em especial da mais idosa, melhorou muito”, diz a mesma fonte.

 

Já em Alvalade, onde também há bastante população idosa, poucos parecem conhecer ainda a existência do Porta a Porta, um serviço que a junta disponibilizou em Maio de 2015, com partidas fixas da sede da autarquia, na Rua Conde de Arnoso, de segunda a sexta, às 9h00, 10h00, 11h00, 14h00. 15h00 e 16h00.

 

No modelo adoptado pela junta de Alvalade, não há paragens fixas. A recolha ou largada de passageiros é feita em qualquer ponto do percurso, bastando para tal fazer sinal ao motorista.

 

No dia em que O Corvo fez o itinerário, pelas 14h00, não houve em todo o percurso qualquer freguês a mandar parar a carrinha. “A esta hora é difícil e, se calhar, não vamos apanhar nenhum freguês. Ainda há muita gente que não conhece e desconfia”, vaticinava o condutor à partida.

 

Ainda assim, o motorista do Porta a Porta de Alvalade diz ter uma freguesa fixa, “uma senhora que, todos os dias de manhã, apanha a carrinha na sede da junta de freguesia e que sai junto ao Hotel Roma”.

 

Desde que começou a circular, em Maio, a carrinha já esteve parada em Agosto para férias. Quando regressou ao serviço, este teve de ser “temporariamente interrompido para manutenção”, nos dias 14 e 15 de Setembro, com alertou a junta na sua página no facebook.

 

Um óbice no serviço prestado reside no facto de a carrinha, que passa na Avenida do Brasil por duas vezes no percurso, não conseguir levar as pessoas até junto do Centro de Saúde Alvalade e as deixar à entrada do Hospital Júlio de Matos (Parque de Saúde de Lisboa). O que significa terem de apanhar novo transporte, aquele que circula dentro do Parque de Saúde de Lisboa, que muitas vezes vai já cheio.

 

A Junta de Freguesia de Alvalade pondera, porém, “alterar o percurso da carrinha, para que passe no portão norte do Parque de Saúde, de modo a deixar os utentes mais próximos do Centro”. A autarquia não dispõe de dados relativos ao número de utilizadores e afirma que vai manter este modelo durante um ano e só ao fim desse período analisará os resultados.

 

Já na freguesia de Santo António, uma zona onde há que subir e descer colinas, a carrinha da junta chama-se, precisamente, “Sobe e Desce”. Funciona só da parte da manhã, de segunda a sexta, entre as 8h00 e as 13h.

 

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No dia em que O Corvo o apanhou, pelas 10h00, no Largo de São Mamede, em frente a sede da junta, apenas um freguês entrou, em todo o percurso. “Vou ali ao banco, tratar de um assunto”, diz o mesmo, dirigindo-se ao motorista, José Levita, que é funcionário da Junta de Freguesia de Santo António e bombeiro, há já 36 anos, nos Bombeiros Voluntários da Ajuda, na Praça da Alegria. Apesar da escassa clientela nesse dia, José Levita defende a existência do serviço, que considera muito útil, sobretudo para os idosos.

 

O “Sobe e Desce” tem duas freguesas fixas, ambas com mais de 80 anos, que às terças e quintas vão ao ginásio, onde as apanha, para as deixar na Rua Luciano Cordeiro, onde moram. Em Agosto, enquanto houve Praia no Torel, José Levita também transportou algumas pessoas para lá. Mas acha que as pessoas têm de ganhar mais confiança no serviço que é prestado.

 

Ao passar no Campo de Santana, o motorista recorda um episódio. “Um destes dias, uma senhora entrou aqui com a mão toda inchada. Tinha sido picada por uma vespa e estava cheia de dores. Fui logo directo ao hospital, não ia deixá-la a sofrer, só para manter o percurso, que deve ter alguma flexibilidade, em caso de necessidade urgente”. Com o início das aulas nas escolas, José Levita conta ter mais fregueses para transportar no “Sobe e Desce”.

 

Os serviços Porta a Porta funcionam também noutras freguesias, como sucede no Areeiro, desde o início do ano. O presidente da junta, Fernando Braamcamp, não dispõe de números e diz que o serviço de transporte gratuito tem uma utilização “razoável, embora nem tanta como desejaria”. O investimento da junta é, neste caso, não só o motorista e o gasóleo, como o pagamento da carrinha, que foi adquirida pela câmara, custos que a junta está agora a suportar.

 

Na freguesia de Campo de Ourique, onde o Porta-a-Porta funciona “sobretudo como um interface entre a Quinta do Loureiro, na Avenida de Ceuta – onde o défice de transportes colectivos é maior – e o centro do bairro, onde está o comércio”, a junta de freguesia afirma ter “entre 70 a 80 utilizadores diários”, a maior parte dos quais “crianças, no percurso para as escolas, e idosos”.

 

O percurso é o mesmo que era feito na antiga Junta de Freguesia de Santo Condestável, quando o serviço era prestado pela câmara, mas em 2016 poderá vir a a ser alargado à área da Igreja de Santa Isabel, como prevê a autarquia local, o que implicará a disponibilização de uma segunda viatura.

 

Outras freguesias optaram por um diferente tipo de serviço, o Transporte Solidário, que responde a pedidos feitos por marcação e é dirigido exclusivamente a pessoas idosas ou com dificuldades de locomoção, que sejam recenseadas na junta. É o que acontece em Arroios, onde o Transporte Solidário, gratuito para os que têm mais de 65 anos, funciona todos os dias úteis, das 9h30 às 17h30. É feito a pedido, através de uma linha telefónica directa: 218 160 970.

 

“Ao longo do funcionamento deste projecto, tem sido possível verificar um aumento significativo de pedidos, sendo realizados, em média, 157 serviços de transporte por mês. Os mais frequentes são a nível de deslocação para as unidades de saúde (Hospital, Centro de Saúde, Fisioterapia) e repartição de finanças”, informa a presidente da junta, Margarida Martins.

 

Também em Carnide funciona o Transporte Solidário, algo que foi uma opção da junta de freguesia, já que, de acordo com o seu presidente, Fábio Sousa, responde melhor às necessidades locais. É um serviço disponível para pessoas com mais de 55 anos e recenseadas na freguesia. Funciona de segunda a sexta, das 8h30 às 12h30 e das 15h00 às 18h00, também por marcação telefónica, através do 934 404 060.

 

O Corvo contactou outras juntas de freguesia de Lisboa, para apurar quais as que consideram a hipótese de vir a ter serviços Porta a Porta, mas não recebeu respostas em tempo útil.

 

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