O ruído do ar condicionado do novo edifício da PJ, inaugurado a 11 de Março, tira o descanso a quem mora perto. Mas não é esse o único problema. Aos domingos, é como se a Feira do Relógio se mudasse para uma zona antes sossegada.

 

Texto: Isabel Braga

 

Vivia-se tranquilamente naquele velho bairro de Lisboa, até meados de Março passado. Quem mora nas casas antigas, de dois ou três andares, das ruas que trepam encosta acima, entre a Rua de D. Estefânia e a Rua Gomes Freire, lembra-se do tempo em que os dias eram sossegados e as noites silenciosas.

Tudo mudou a 11 de Março, quando foi inaugurado o novo edifício da Polícia Judiciária (PJ), um projecto gigantesco que custou 95 milhões de euros, de 80 mil metros quadrados onde trabalham 1500 pessoas, mas que pode vir a albergar muitas mais.

 

O ruído do ar condicionado do gigantesco complexo não deixa descansar ninguém, principalmente quem mora na Rua General Garcia Rosado, que dá acesso directo à entrada da zona prisional da PJ, nas traseiras do edifício. “O barulho é ensurdecedor e nunca pára. Tirei quinze dias de férias e não consegui descansar. Já houve queixas, disseram que iam resolver o problema e, durante a noite, parece que aquilo abranda um pouco, mas, como a cidade está mais silenciosa, parece que continua igual”, afirma Lúcia Barata, moradora no nº 37 da Rua General Garcia Rosado.

 

Lúcia Barata prossegue: “Além do barulho, que estamos a sofrer todos os dias, as obras fizeram abanar tudo em volta e as casas abriram rachas, por dentro e por fora. No prédio aqui em frente (o nº 26 ) apareceram rachas brutais, nas paredes exteriores. Era um prédio totalmente renovado, para onde se tinham mudado alguns casais novos. Na minha casa, também houve bastantes estragos, já me queixei e a empresa construtora, a OPWAY, diz que o seguro irá pagar, não sei é se pagará o prejuizo todo”.

 
No átrio de entrada do prédio habitado por Lúcia Barata há pinturas murais cercadas por molduras de estuque que se apresentam agora muito danificadas.

 

Outra moradora do mesmo prédio, que apenas se quis identificar como Mariana, explica que o ruído do ar condicionado não a incomoda excessivamente, pois dorme na parte de trás do edifício, mas tem outras queixas: “Foi um inferno, durante as obras, mas ninguém veio perguntar se estávamos incomodados, ninguém nos avisou do que se ia passar, do que ia mudar na nossa vida. E muita coisa mudou. Antes, encostado ao nosso prédio, ficava o muro das traseiras da Escola de Medicina Veterinária. Agora temos o portão de acesso à zona prisional da PJ e não se imagina o corropio de carros celulares, de gente à espera da hora da visita à cadeia, de jornalistas e carrinhas de filmagens quando é preso alguém importante. Será que num edifício tão grande não haveria uma sala de espera onde as pessoas ficassem a aguardar as horas da visita?”.

 

“Já encontrei uma família de ciganos, aqui dentro do prédio, estavam sentados na escada a almoçar, porque estava um dia de calor terrível. Devem ter tocado à porta, alguém abriu e eles instalaram-se”, afirma Lúcia Barata, que fala ainda do lixo que se acumula em frente da sua porta: “Aparece de tudo, até fraldas descartáveis de bébés”.

 

Mariana insiste: “A culpa não é dessas pessoas, é de quem não previu um lugar condigno para elas ficarem à espera. Compreendo que tudo isso aconteça, que a PJ tivesse necessidade de novas instalações, mas não teria sido civilizado falar com as pessoas que moram aqui?”. E refere que, no nº 26, o prédio mais afectado pelas obras, três andares que tinham sido ocupados recentemente, já estão à venda.

 

Maria Rodrigues é dona da taberna que funciona no nº 29 da General Garcia Rosado. “O ruído incomoda sobretudo as pessoas que têm crianças. Eu durmo lá para trás, não ouço muito à noite, só de dia. Mas esta obra trouxe problemas aqui à rua, por causa das pessoas que vêm visitar os presos. Um cigano entrou na minha loja e escondeu aqui dentro um bocado de droga e tive que ir a julgamento por causa disso. Não fui condenada, e a PJ até me ajudou, mas foi uma grande chatice”, recorda.

 

Para Lúcia Barata, também a tranquilidade desapareceu: “Sabe o que é abrir a janela e ver a rua cheia de polícias de metralhadora? Numa ocasião, mesmo aqui encostado à nossa porta, estava um polícia de metralhadora em punho e um daqueles capuzes que só deixam ver os olhos, que, quando me viu, só me fez um sinal com a mão, a dizer ‘saia já daí’. Fiquei assustadíssima, fechei a janela, o que havia de fazer? E o barulho das sirenes, quando eles chegam com presos? Aparecem a acelerar, em contramão, às vezes. É um susto”.

 

Outro problema referido por Lúcia Barata e Mariana é o do estacionamento: “Antes, se o nosso carro estava a impedir outro de sair, tocavam-nos à porta. Todos sabíamos quem eram os donos dos automóveis, não era preciso chamar a EMEL. Agora é impossível estacionar, os lugares estão ocupados permanentemente pelos carros dos funcionários da PJ. E não há estacionamento reservado a residentes”, diz Mariana.

 

Nuno Pereira, funcionário do INEM e subchefe dos Bombeiros Voluntários do Dafundo, mora no nº 23 da General Garcia Rosado. “O meu carro levou umas chapadas de cimento, quando foi das obras. Eles (a OPWAY) pagaram os estragos, foram difíceis, mas eu ameacei logo que ia telefonar ao comandante da Polícia Municipal e que parava as obras se não pagassem”, recorda.

 
Este homem de 42 anos, que habita com a familia no prédio onde nasceu e cresceu, não tem uma visão exclusivamente negativa da situação que se vive na sua rua: “Não me queixo da segurança, que até aumentou. Parece que não se pode fumar lá dentro, porque na rua há sempre polícias a fumar. Por isso, não há assaltos. Mas há muita falta de organização. Aos domingos, quando acaba a Feira do Relógio, parece que todos se mudam para aqui”. O barulho do ar condicionado é, para Nuno Pereira, o problema principal. “Tem dias e horas, se eu telefono para o engenheiro da obra – que julgo que ainda não está entregue ao dono – eles desligam aquilo. Só que isso não é solução”.

 
Nuno está decidido a proteger os moradores da sua rua do novo e poderoso vizinho. Diz que tem essa obrigação. “Conheço toda a gente, no meu prédio são só velhotes, eu sou ainda um menino para eles. Tenho três filhos e, sempre que é preciso, peço ajuda a alguém do prédio para me ficar com eles. Até me posso dar ao luxo de escolher quem é que as crianças preferem naquele dia”.

 

Numa tentativa para solucionar o problema causado pelo ruído do ar condicionado, o funcionário do INEM foi falar com o vereador municipal da Protecção Civil, Carlos Castro, e com a presidente da Junta de Freguesia de São Jorge de Arroios, Margarida Martins, que compareceram numa reunião com alguns engenheiros da obra.

 
“Disseram que estavam a avaliar a situação e que, a 15 de Setembro, a avaliação estava pronta”, afirma. E depois? “Depois, não sei”, responde Nuno Pereira que, no entanto, se mostra optimista: “Tenho o ‘feeling’ de que eles querem resolver o problema. Sei que alguém da PJ mora no nº 33, e também ele não deve conseguir dormir”.

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