O edifício que a empresa energética ergue na Avenida 24 de Julho está a começar a dar nas vistas – como os seus promotores desejavam. Mas não pelas melhores razões. A panorâmica integral do rio prepara-se para desaparecer. Moradores e comerciantes não gostam do que vêem.

 

Texto e fotografias: Samuel Alemão

 

“Tínhamos aqui uma vista espectacular e, agora, com isto, ela está a desaparecer”. Tiago Martins, que hoje faz 27 anos, acaba de fumar um cigarro à janela da sala da casa onde sempre viveu, no segundo andar do número 9 do Largo São João Nepomuceno, na Bica. “É chato, claro. Mas o que é que podemos fazer?”, resigna-se. À frente, entre o velho prédio – de que o seu pai é arrendatário como já era o seu avô – e o Tejo, vai crescendo uma barreira. A nova sede da EDP, de onde agora irradiam incessantes clarões resultantes dos trabalhos de soldadura, está a tirar-lhes a possibilidade, tida como natural, de observar o rio sem obstáculos.

Uma situação de que, pouco a pouco, se começam a dar conta vários dos moradores da encosta de Santa Catarina, na nova freguesia da Misericórdia. Consciência ganha ao ritmo da sistemática evolução dos trabalhos de edificação daquele que, dentro em breve, será o quartel-general da gigante energética – orçado em 57 milhões de euros e que está a nascer na Avenida 24 de Julho, num terreno do chamado Aterro da Boavista. Deverá estar pronto no final do ano.

As duas torres envidraçadas do projecto saído do atelier de arquitectura Aires Mateus e Associados, cuja construção está a cargo do consórcio Mota-Engil/HCI, ainda estão em esqueleto. Mas vão ganhando “músculo”, a ritmo acelerado. Cada uma terá oito pisos acima do solo, mais seis em cave, ocupando o edifício uma área total de 46.258 metros quadrados – 13.967 dos quais destinados a escritórios, onde trabalharão 750 pessoas.

O alerta foi dado, esta semana, pelo blog do Movimento Fórum Cidadania Lisboa, que lembrava já ter chamado a atenção, durante o período de consulta pública do projecto, para o futuro impacto visual do novo edifício. “De que vale falar tanto dos miradouros de Lisboa (e investir milhões de euros na sua remodelação) quando depois é isto que se faz ao sistema de vistas!?”, questiona o autor do artigo. A renovação do miradouro, ocorrida há um ano, deu aliás muito que falar, tanto pelas dúvidas sobre a necessidade em gastar dinheiro numa obra deste género, como pela solução adoptada – privilegiando a pedra mármore -, radicalmente diferente da até aí existente.

 

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O Miradouro de Santa Catarina, procurado essencialmente pela sua ampla vista sobre o rio, acaba assim por ver prejudicado o maior dos seus atributos. Foram gastas verbas públicas na remodelação de um terraço e, ao mesmo tempo, permite-se que o cenário a partir dele observado seja em grande medida prejudicado. Mas será a nova marca na paisagem mesmo um incómodo? “É notório”, diz, em sorriso contido, Rosa Lajes, a gerente do quiosque-esplanada do miradouro. “Vai ficar ali um caixote, preferia que ali em frente não estivesse nada”, afirma.

A empresária, que já explora aquele estabelecimento há muitos anos, diz nada ter contra o aspecto do edifício, “mas sim contra a área que vai ocupar”. Rosa, que vive de um negócio cuja mais-valia é a localização ímpar e o olhar sobre o rio que dali se obtém, informa que “há já muita gente a reclamar”. Teme, por isso, vir a ser prejudicada, a partir do momento em que a volumetria do edifício envidraçado se vá impondo na paisagem.

O mesmo receio tem Luís Garcia, a gerir há pouco mais de ano e meio o Noobai, conhecido café-esplanada situado no outro extremo do Miradouro de Santa Catarina. “As pessoas procuram muito esta casa, sobretudo, pela vista. A visão panorâmica sobre o Tejo é que a diferencia”, salienta Luís. “Não deviam permitir uma coisa destas”, sentencia, ao contemplar, algo desconsolado, o avanço inexorável das torres.

E se há quem, como Tiago Martins, nem esteja assim tão preocupado, pois ele e a família vão sair do apartamento onde vivem há décadas na condição de inquilinos, outros terão muito a perder. “Há casas que vão perder valor patrimonial”, reconhece Tiago. Afinal, as vistas de rio costumam ser, em certas zonas de Lisboa, um dos atributos anunciado para captar inquilinos ou compradores para os apartamentos.

 

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A vista a partir da sala do apartamento de Tiago Martins começa a mudar.

 

A vizinha de Tiago, Maria Alice Santos, 69 anos, que mora do outro lado do largo, encolhe os ombros. “O que é que vou fazer? É uma chatice. O meu marido é que, todos os dias, pega nos binóculos e comenta comigo o que eles estão para ali a fazer”, conta Maria Alice. “Às vezes, até dizemos, meio na brincadeira, que agora o senhorio nos devia baixar a renda, pois a vista já não é a mesma”, afirma.

Desapontado também se mostra o vice-presidente da Voz do Bairro – Associação de Moradores de Santa Catarina e Misericórdia. “Esteticamente, a coisa não vai ficar bem, pois destoa de toda a envolvente, mas o pior é estragar as vistas”, diz Nuno Santos, que mostra especial apreensão pelo que se poderá observar a partir do Miradouro de Santa Catarina, que qualifica como “um dos três melhores da cidade com vista para o rio”. Nuno asssegura mesmo que foi ali, noutros tempos, quando o local se chamava miradouro da Cruz Alta, que terá nascido a expressão “a ver navios”.

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