Nova investigação a vestígios neolíticos em Monsanto poderá dar pistas sobre as primeiras populações de Lisboa

REPORTAGEM
Samuel Alemão

Texto

O Corvo e Paula Ferreira

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CULTURA

Cidade de Lisboa

2 Maio, 2019

O Centro de Arqueologia de Lisboa (CAL) está a preparar uma campanha de estudo aprofundado sobre as primeiras populações sedentárias do território coincidente com a actual capital portuguesa. As informações e os vestígios existentes sobre o período Neolítico na zona de Lisboa são escassos e encontravam-se dispersos. Mas o esforço de uma pequena equipa de investigadores do CAL está a juntar todas as “pontas soltas” para traçar uma narrativa daquela época. A partir de agora, as atenções estarão centradas em escavações arqueológicas a realizar no Parque Florestal de Monsanto, onde se espera encontrar vestígios relevantes. “O lisboeta ouve falar muito nos romanos e nos árabes, quando se fala das suas origens, mas mais para trás no tempo tem uma ideia muito difusa do que havia”, diz Carlos Didelet, arqueólogo que chefiará as pesquisas.

“Eles gostavam muito de ostras e de outros bivalves”, diz, sorridente, Carlos Didelet, enquanto vai dispondo com cuidado na bancada metálica diversos elementos devidamente catalogados e embrulhados em sacos de plástico, pertencentes ao acervo do Centro de Arqueologia de Lisboa (CAL) – entidade da Câmara Municipal de Lisboa (CML). Também o berbigão e “uma espécie de ameijôa”, entretanto já desaparecida do estuário do Tejo, eram parte da dieta das populações existentes, durante o período Neolítico (5000 a 3000 anos A.C.), na área geograficamente coincidente com o que é hoje a maior cidade portuguesa. Entre os vestígios colocados à vista pelo arqueólogo encontram-se também pedaços de cerâmica e fragmentos de artefactos feitos com sílex, rocha sedimentar que devidamente trabalhada apresenta propriedades cortantes. Juntamente com a informação dispersa por outras instituições e o que eventualmente se vier a encontrar em escavações a realizar no Parque Florestal de Monsanto, poderão ajudar a perceber como era a vida dessas primeiras comunidades de humanos.

Não se esperem grandes missões de trabalho arqueológico de campo, com revelações fantásticas em determinado momento. Quer dizer, elas até poderão vir a suceder-se, mas, até que tal cenário venha a ser possível, haverá necessariamente um longo caminho a percorrer. Trata-se de agregar tudo o que se sabe sobre este período, e que tem andado disperso pelos mais diversos locais e fontes documentais, e tentar estabelecer uma base de dados coerente, a que se juntará o que vier a ser apurado através das pesquisas futuras. Sobretudo o que poderá surgir de escavações arqueológicas em Monsanto, a realizar em breve. “Isto está  a dar um grande trabalho, juntar todas estas pontas soltas. Estamos a montar uma estrutura que pretendemos que esteja preparada para um trabalho de investigação sobre este período, por muitos anos. Vamos deixar algo para os próximos anos, a ser continuado pelos colegas que nos sucederem”, diz António Marques, coordenador do CAL, entusiasmado com a nova etapa. Nunca o Neolítico em Lisboa e no resto do país terá sido estudado com tal detalhe.

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Carlos Didelet lidera o projecto de investigação do Neolítico em Lisboa

“O lisboeta ouve falar muito nos romanos e nos árabes, quando se fala das suas origens, mas mais para trás no tempo tem uma ideia muito difusa do que havia”, reconhece Carlos Didelet, o coordenador deste ambicioso projecto, do qual fazem ainda parte o colega arqueólogo Guilherme Cardoso e a geóloga Eva Leitão, ambos do CAL. A ideia de avançar para esta investigação de fundo nasceu naquele centro em 2013, resultado da constatação de que era escasso tudo o que se sabia, relativamente ao território onde está Lisboa, sobre um período pré-histórico caracterizado pelo início da exploração agrária e da vida sedentária. São de 5500 a.c. os mais remotos vestígios de tal tipo de organização humana em território nacional e foram descobertos na zona de Sines. Sabe-se também que, por essa época, havia ovelhas a pastarem em Sintra. E depois existe uma grande manta de retalhos, em que é mais o que se desconhece do que aquilo que se conhece – e o que se conhece resulta de investigações dispersas, ao longo dos anos.

 


 

De facto, as fontes escritas sobre como seria naquele tempo o território onde hoje se situa Lisboa e como aqui se viveria, bem como os vestígios arqueológicos recolhidos que foram sendo recolhidos – e que, no fundo, sustentam o que se escreveu sobre o assunto -, são escassos e encontram-se espalhados por diversas instituições. Mas é com eles que se está a começar a montar este puzzle de difícil resolução. Além do pequeno acervo do CAL referente ao Neolítico, a equipa liderada por Carlos Didelet foi encontrar material no Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto, no Museu Geológico (pertencente ao Laboratório Nacional de Energia e Geologia), no Museu Nacional de Arqueologia e ainda na sede do Museu de Lisboa, no Palácio Pimenta, ao Campo Grande. Um conjunto de artefactos e de documentação que ajudará a construir a narrativa do que foi o Neolítico nesta região e, no fundo, será o esteio da grande exposição sobre o tema a realizar em 2020 – e que deverá ter lugar em Monsanto.

 

(foto: Paula Ferreira)

 

Essa mostra pública será uma espécie de “isto é o que sabemos sobre o Neolítico em Lisboa, até ao momento”, antecedendo então o essencial do trabalho de campo, ainda a realizar. As primeiras campanhas de exploração arqueológica em Monsanto aconteceram no início do século passado, lideradas por Virgílio Correia (1888-1944), por muitos visto como um dos pais desta disciplina no país. Naquela altura, a área era muito diferente do que conhecemos actualmente, uma vez que o parque florestal apenas começou a nascer a partir da década de 40 do século XX, por decisão de Duarte Pacheco (ministro das Obras Públicas em 1932 e presidente da Câmara Municipal de Lisboa em 1938), no que era antes um local inóspito e ventoso. As recolhas de Virgílio Correia ocorreram à superfície, mas serão uma base de trabalho útil para a equipa do CAL, assim como as resultantes de outras campanhas arqueológicas que ali se focaram, como as de Leonel Ribeiro, em 1966, e a João Luís Cardoso, em 1984. Ocorrida na zona de Montes Claros, esta foi a última realizada na zona, e com o objectivo de confirmar dados já antes apurados.

 

 

O facto de aquela zona ser um parque florestal confere-lhe uma clara vantagem, do ponto de vista científico, em relação ao resto da área correspondente ao concelho de Lisboa, que se encontra quase toda densamente urbanizada. Essas características funcionam como um véu protector, permitindo acalentar esperanças de encontrar vestígios mais ou menos incólumes. “Temos ali um território que está disponível para ser estudado e sem estar sujeito aos condicionalismos de uma qualquer obra”, que é a regra da exploração arqueológica numa cidade, assinala António Marques. Por causa disso, e porque “estão agora disponíveis tecnologias inexistentes há 30 ou 40 anos”, o coordenador do Centro de Arqueologia de Lisboa (CAL) não tem dúvidas de que se encontram criadas as condições para pensar em algo mais ambicioso em relação à recolha de informação. Já este ano, foi realizado um levantamento de imagens aéreas com recurso a um drone, com o qual se obtiveram “muito boas imagens e bom material de trabalho”, diz.  “Estamos a estabelecer a base para criar um projecto cientificamente sólido e com o envolvimento de universidades”, acrescenta.

 

 

(foto: Paula Ferreira)

 

Tendo em conta a referida vantagem de se poderem realizar escavações arqueológicas em Monsanto, não deixa, por isso, de ser irónico que os primeiros trabalhos desta campanha do CAL focada no Neolítico venham a decorrer, ainda este ano, num contexto de obra num complexo de edifícios, quando se avançarem os trabalhos de requalificação do Centro de Requalificação de Animais Silvestres (LxCRAS), situado na Estrada do Barcal. Esse será apenas o passo inaugural no que se refere a escavações em busca de indícios do passado, outras podendo acontecer, em diferentes escalas, de acordo com o que for decidido pelas necessidades de pesquisa. Mas o projecto, alertam António Marques e Carlos Didelet, é bem mais vasto do que isso, assentando sobretudo na junção das peças dispersas do tal puzzle por montar que é a narrativa do Neolítico em Lisboa. Existe aliás a intenção do CAL publicar uma monografia sobre a pré-história da capital.

 

 

É disso que se trata. O que, a partir de agora, eventualmente, vier a ser encontrado em Monsanto poderá ajudar a aclarar todas as incógnitas que encobrem o nosso conhecimento sobre aquele período nesta região. Sabe-se, por exemplo, pelos vestígios encontrados em campanhas anteriores, que a zona de Montes Claros, no local onde existe o restaurante panorâmico, “teve uma ocupação contínua durante alguns milénios”, refere Carlos Didelet, que demonstra uma forte convicção de que “Monsanto terá um forte carácter excepcional, por tudo o que é possível saber hoje”. O arqueólogo alerta, no entanto, que nunca se poderá falar de um espaço restrito, mas de uma área mais vasta, englobando o Vale de Alcântara, que à época teria um rio com um caudal bem acentuado. Sabe-se que em Campolide existiam pedreiras, das quais era extraído os sílex usado nos artefactos encontrados. Mas muito mais se poderá vir a saber, a partir de agora.

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