“Olha, já está escuro”. Uma senhora comenta para a amiga, com quem sai porta fora, de braço dado. “Pois, a hora mudou”, lembra a outra. Seguem-se-lhes outros fiéis, de ar tranquilo. Na grande maioria, são mulheres de idade avançada. Fazem breves conversas de circunstância. Dizem “até para a semana, se Deus quiser”. Dispersam-se num ápice, algumas sozinhas, outras em pequenos grupos. Não serão mais do que uma vintena os que, todos os sábados, ao fim da tarde, assistem à única missa semanal na capela de Nossa Senhora do Resgate das Almas e Senhor Jesus dos Perdidos, nos Anjos. O templo também abre para ensaios de canto religioso, na tarde de quinta-feira. Por norma, as portas da capela encontram-se fechadas. No entanto, ela tem vida. E um interior a merecer ser conhecido.

Realidade difícil de detectar por quem passa na rua. Até porque acaba por ser compreensível que este edifício relativamente discreto, situado na Rua dos Anjos, perto do Largo de Santa Bárbara, escape à nossa atenção. Não difere, afinal, de tantos outros templos da igreja católica espalhados pela cidade, construídos entre o final do século XVIII e o início do século XIX. Pelo menos, no que se refere à fachada. Mas se observarmos com atenção a totalidade do edifício, apercebemo-nos que, nas traseiras, sob ele passa o Regueirão dos Anjos, arruamento desnivelado que liga Arroios à zona da estação de metro do Intendente. “É uma coisa única, não conheço nenhum outro assim, em Lisboa”, diz José Gonçalves Bento, 70 anos, homem que desde 2000 ocupa o cargo de juiz da Irmandade de Nossa Senhora do Resgate das Almas e Senhor Jesus dos Perdidos – ou seja, o seu líder.

 

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A existência quase anónima da capela deixou de o ser, há bem pouco tempo. Até que o responsável por esta congregação – que goza de uma certa autonomia financeira e jurídica face à paróquia dos Anjos – decidiu arregaçar as mangas e dar-lhe algum brilho. No início do verão, o exterior foi pintado, passando as paredes do tom pardacento de há muito ao amarelo ocre vivo de agora. Colocaram-se duas grandes telas acrílicas azuis, uma em cada lado da porta principal, a dizer “250 Anos / N. Sr.a do Resgate”. Foi a forma encontrada para assinalar, ainda a tempo, a comemoração dos dois séculos e meio da construção da capela (1762). “Depois de colocar as telas, apareceram muitas pessoas, curiosas para saber o que há aqui dentro”, diz José Gonçalves Bento, reconhecendo que a palavra “resgate”, em voga por outros motivos, acabou por despertar a atenção. Uma boa jogada de marketing, afinal.

José é um crente ferveroso. O que mais lhe interessa é o engrandecimento da comunidade por si administrada. “O nosso objectivo é promover e intensificar o culto de Nossa Senhora e fomentar a vocação cristã dos membros”, diz, referindo-se a uma irmandade que não ultrapassa a meia-centena de pessoas e foi fundada em 1755, na antiga Ermida de Santa Bárbara, das Fontaínhas. A esse desígnio, o juiz da irmandade junta outro, o de “socorrer os pobres da paróquia, tanto quanto possível”. Mas em José os olhos brilham com mais intensidade quando o assunto é a própria crença. “O que me move é a fé e a possibilidade de outras pessoas participarem. A minha preocupação é a de que as celebrações sejam vivas”, diz. Missão a cargo do padre Manuel Morais, de 88 anos – que, com simpatia, se escusou a falar com o Corvo, tal como os fiéis com quem tentámos.

 

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O resgate aqui é das almas. Sempre foi. Como daquela vez, há cerca de uma década, em que José se viu abordado por uma prostituta da zona, a pedir para que na capela rezassem para ela não perder o namorado. “Então, eu perguntei-lhe: ‘por que é que não vem você rezar connosco?’ No dia seguinte, apareceu ela e mais duas companheiras de profissão e rezámos todos em conjunto, ajoelhados”, recorda. E, muitas vezes, parece resultar. O responsável máximo da Irmandade da Nossa Senhora do Resgate das Almas e Senhor Jesus dos Perdidos assegura que, no ano passado, uma crente acabou por “ser curada de um cancro”, pela devoção que tinha a “Nossa Senhora”.

 

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Mas os mistérios da fé não significam que o juiz da irmandade não dê especial atenção às preocupações terrenas. E se não é caso para se considerar que as contas da congregação religiosa precisam de um resgate, a verdade é que falta dinheiro para proceder ao muito aguardado restauro do interior – que ostenta belos azulejos e um altar de talha dourada onde pontifica uma imagem de Nossa Senhora datada de 1759, anterior à própria construção da capela. A necessitar de especial atenção está o tecto do templo barroco, que apresenta grandes fissuras. A Câmara Municipal de Lisboa e o seu presidente estão a par da situação, garante o juiz da irmandade, lembrando que António Costa ficou maravilhado quando ali entrou, há cerca de dois anos. No entanto, José Gonçalves Bento gostaria também de ver a Fundação Calouste Gulbenkian envolvida na operação de restauro do interior da capela. Haja quem a resgate da degradação.

 

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Texto: Samuel Alemão      Fotografias: Carla Rosado

Comentários
  • Paula Andorinha
    Responder

    Tenho de ir conhecer. Obrigada

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