O Corvo anda a visitar os ateliers de alguns artistas plásticos que vivem e trabalham na capital. Espaços privados onde nascem sorrateiramente criações que, depois, se tornam públicas. Quem entra neles espreita a alma de quem os habita. Desta vez, fomos ao atelier de Sofia Areal.

 

Texto: Rui Lagartinho     Fotografias: David Kong

 

“Nesta casa, há um lugar para cada coisa. Exijo que cada coisa esteja no seu lugar”. Esta divisa, pendurada na parede de um antigo atelier de encadernação, acabou por ficar no mesmo sítio, quando a pintora Sofia Areal, 54 anos, passou a habitar este anexo de um prédio anónimo, de uma rua que só se descobre quando a persistência vence o desânimo de quem procura, rua a rua, o espaço ideal para trabalhar. “Todos os anos, tinha que renovar o arrendamento do espaço onde trabalhava e isso causava-me alguma ansiedade. Um dia, meti-me no carro e descobri este espaço.”

 

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O atelier de Sofia Areal é um espaço amplo, recheado de segredos que se podem esconder atrás de uma porta, por detrás de um biombo, por debaixo de um vão de escada. São, nas palavras da artista, “pequenos refúgios”. É um espaço em constante mutação, cheio de nuances que se vão sobrepondo e alterando a atmosfera, um pouco como muitos dos seus quadros, onde há traços que, desenhados, são fronteiras entre duas visões do mundo, ou do espírito em coexistência mais ou menos pacífica: “O meu atelier é como uma casinha: à medida que vou pondo nele objectos, vai ganhando novas identidades. Está sempre em mutação.”

 

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E também aqui se pode fazer aquele jogo clássico que é praticado por quem olha, pela primeira vez, para um espaço que só na aparência parece desarrumado. Aqui nada se perde e tudo se acha. Como num cenário de uma peça de teatro. Sofia explica: “Arrumar a desarrumação faz parte da minha forma de trabalhar. Faço construções de realidades – no fundo, naturezas mortas – com objectos”.

Neste cenário, há telas que, de vez em quando, nos viram as costas e se escondem dabaixo de panos brancos, como aqueles que se usam quando há mudanças à vista ou se parte de férias: “Este é um espaço para quadros grandes e coexistem, às vezes, aqui trabalhos de séries, de estilos e de cores muito diferentes. Por isso, para limpar a vista, para descansar, tapo-os. Para não me distrair com a minha própria paisagem. Mas nada é definitivo. De dois em dois meses, arrumo tudo.”

 

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Sofia gosta mais de trabalhar durante o dia. Quando a noite cai, deixa o espaço. Mas pode haver excepções: “De repente, pode apetecer-me ficar aqui a dormir. Tudo está previsto. Há mesmo uma cozinha e um quarto. Digamos que este espaço se pode transformar num bunker, em que sou eu que determino a urgência de nele me encerrar”.

De qualquer forma, alguém saberá sempre encontrá-la neste labirinto. Chama-se “Fifi” e é da raça Basset. A quantidade de lugares dos quais ela espreitou durante as duas horas em que estivemos no atelier de Sofia Areal provam à saciedade que o domínio do espaço no atelier de Sofia é partilhado.

 

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Em Outubro, Sofia Areal expõe pintura no Palácio do Egipto em Oeiras

Mais informações www.sofiaareal.com

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